A Ferrari que morre e a vida que não vai mudar

Diário de um desespero – ou quase – LXXIV

João Carlos Pereira

Em 1964, a TV Tupi exibiu uma novela chamada “O Direito de Nascer”, que tinha nada menos do que 160 capítulos. Foram quase dez meses de uma lenga-lenga interminável. Se não me engano, o texto também foi levado para o rádio, onde conseguiu a proeza de ser mais longa. Em casa, chamavam a atração de “O Direito de Encher”. Numa época em que só havia um canal e ninguém poderia supor que, um dia, se assistiria ao que se quisesse num telefone, ou se aguentava a xaropada, ou se desligava o aparelho, porque mudar de canal era coisa impossível.

Alguma coisa tocou os fios da memória, depois que vi a notícia de que uma a única Ferrari Dino 208 GT4 1975, emplacada no Brasil, morre aos poucos, desde 2006, num depósito da cidade de Santo André, em São Paulo, acumulando dívida por diárias, no pátio municipal, superior a 100 mil reais. Coitado do carro, não tem nem o direito de morrer e sua sobrevida se arrasta mais do que a história que tinha, em sua primeira versão, Nathália Timberg, Rolando Boldrin, Luiz Gustavo e a famosa Mamãe Dolores, vivida por Isaura Bruno. Era o direito de nascer x o direito de morrer.

A história do carro que apodrece há 14 anos é longa e possui ingredientes para todos os tipos de receita. Por pura curiosidade, fui ver no Google o preço de Ferrari. A mais cara, modelo 250 FGTO, custa 52 milhões de dólares. Multiplicado por seis, é coisa para uns 300 milhões de reais. A mais baratinha que achei é muito mais em conta e fica por 2,4 milhões de reais, perto de 400 mil de dólares. Deve ser uma vergonha ter um troço desses, carro de rico meia-sola.

Nunca vi uma Ferrari de perto e nem sonho em andar numa. Uma vez, em Paris, vi uma loja oferecendo um passeio num carro finíssimo, pelo módico valor de cem euros. Para quem gosta de aparências, era como ganhar na loteria, apostando uma ninharia. Como não me interesso por carros, nem por roupas de grife, nem por endereços elegantes, não me dei ao trabalho de ver que carro era. A fila tão grande, que até pensei que era de gente querendo entrar no céu.

Talvez maior do que o prazer de dar uma voltinha fosse o de ser fotografado ao volante, para poder exibir-se, nas redes sociais, dizendo que havia dirigido o tal carro. Para quem pensa que a caboquice é coisa nossa, exclusivamente nossa, posso garantir que não é. Estou quase convencido de que se trata de um fenômeno universal.

O “novo normal” vai surgir, sim, mas tenho dúvidas sobre o homem novo que nascerá depois que a peste passar. As grifes não vão deixar de ser caras, cada vez mais caras, e os luxos não diminuirão. O ideal de um mundo fraterno continuará no papel. Os sonhos de consumo, inclusive de uma Ferrari, não deixarão de existir. Cruzeiros de luxo, apartamentos de altíssimo padrão, bebidas caríssimas, acessórios dourados e exclusivos, tratamento diferenciado, qualquer que seja o setor da vida, para quem tiver dinheiro, não desaparecerão. O mundo dos ricos pós-pandemia não abrirá nem a porta dos fundos para que os pobres possam ver como ele funciona.

Não sou pessimista, mas meu senso de realidade é.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Angelo de Aquino — Rex no Seu Carro Amarelo, 1987.

Crônica

1 comentário Deixe um comentário

  1. É muito duro, porém real. Quero acreditar que haverá um grande número de pessoas, que irão se reposicionar na questão do que mais importa no viver, que a cada dia para mim fica claro: precisamos de muito pouco do material e mais de espiritualidade, transcendência…
    Que Deus me dê esta graça.
    Obrigada por suas reflexões .

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