A regência do verbo namorar e a delícia de ser casado com

Diário de um desespero – ou quase – LXXXII

João Carlos Pereira

Para Emília. com

Nem a força de todos os gramáticos reunidos. Nem o pelotão das gramáticas em posição de artilharia, prontas para disparar regras de bem-falar na direção da boca dos brasileiros. Nem intermináveis sessões de descarrego de hábitos da oralidade conseguiriam “endireitar” a língua “errada” do povo, como disse o poeta Manuel Bandeira. Verdade que algumas formas ainda me incomodam, do tipo “pra mim fazer”, mas a outras já estou acostumado, conformado e, se me permitem a sinceridade, até me encantam. Uma delas é a regência do verbo namorar, absolutamente apropriado para o dia de hoje.

Das insuportáveis aulas de português, com suas desnecessárias lições sobre coletivos (a quem interessa saber o que significa atilho, súcia ou armento?), funções do que ou do se, entre tantas bobagens que nos estimulam a odiar o idioma que deveríamos amar, e o finado trema, eu gostava mesmo era de estudar a regência verbal.

Me sentia o próprio maestro, regendo uma orquestra de verbos. Quando apontava a batuta para o verbo assistir, por exemplo, três instrumentos se levantavam para executar, de formas diversas, o mesmo tom. Se me dirigisse ao verbo namorar, dois músicos se colocariam em posição de sentido, mas apenas um deveria permanecer em pé. O outro, o teimoso, era obrigado a colocar a viola no saco, quando, pela fidelidade à “língua errada do povo”, deveria ser autorizado a tocar. A vida tem disso e, querendo ou não, a voz do povo ainda faz eco à voz de Deus, que é maior do que a dos gramáticos, embora nem todos sejam obrigados a concordar com isso. Exceção faço, com todo respeito, à madre Oliva, que era freira, mas ostentava a condição de autora de uma gramática.

O verbo namorar é transitivo direto. A pessoa namora alguém e não com alguém. Pela lógica da explicação, que destoa totalmente do lado bom de namorar, com muitos risos, brincadeiras e surpresinhas, nada se coloca entre o verbo e seu complemento. Por isso é transitivo direto e o complemento, objeto direto.  O certo seria “João namora Maria”. E “João namora com Maria”? Na apresentação da orquestra, namorar alguém é a forma afinada; com alguém, a desafinada. Mas quem liga para isso? O importante é namorar e ser feliz. O resto é figura de linguagem. Aula de chatice. Besteirada.

Se convém fazer algum tipo de aproximação entre a realidade e a gramática, em cuja língua purificada apenas as múmias do Museu de História Natural, de Londres, gostam de conversar e talvez nem se entendam bem, vamos pensar nos shoppings recém-reabertos. Quando era possível bater perna, bestar, olhar vitrines, as pessoas podiam se dar ao luxo de “namorar” alguma coisa em exposição. A criatura ia e vinha, entrava e saía, olhava, olhava, olhava, criava coragem, perdia a coragem e comentava: “estou namorado uma bolsa que custa dez mil reais. Será que compro? Eles parcelam de cem vezes.”

A pessoa namorava com a bolsa ou a bolsa? Acertou quem disse a bolsa e errou quem perde tempo com essas bobagens. Será que a pandemia não conseguiu ensinar nada, nesse sentido? Bolsa de dez mil? Para usar onde, em Belém? Qual ambiente refinado desta cidade “exige”, ou “pede”, tamanho luxo? Qualquer que seja a resposta, me fará rir.

Simone de Beauvoir, cujo nome dispensa apresentações, escreveu que se vestia para o homem a quem se despia. Ela era francesa, pensava com a própria cabeça e tinha valores mais elevados do que aqueles que fizeram das grifes de sua terra ídolos diante dos quais o mundo se prostra. Em geral, todo mundo, ou quase, se produze para encher os olhos daqueles que freqüentam os mesmos espaços. Roupa, sapato, jóias, óculos, celulares, rótulos de vinho, relógios e uma etiquetinha viraram razão social de existir. Um colar de rubis, adornando o pescoço de Elizabeth II, dona da maior coleção de jóias do planeta, parece tão natural como uma caneta bic na minha mão. O curioso é que ela se porta absolutamente indiferente às pedras, porque sabe que há coisas muito mais importantes do que elas. Um colar é apenas um colar.

O que isso tem a ver com o verbo namorar? Nada. Ou melhor: tudo. Entre o político e gramaticalmente correto, neste caso, eu prefiro o verbo namorar em sua versão estropiada, errada, inadequada, ofensiva aos bons modos e aos salões do saber. Todo mundo diz que fulana namora com sicrano (ou com sicrana) e ninguém deixa de entender. Não estou pregando a desobediência cívico-gramatical, mas apenas dando uma banana às chatices. A vida podia ser mais simples e arejada sem determinadas cobranças ou artificialismos.

Acho mesmo que quem namora com é mais feliz do que quem namora a ou o, porque alterou a receita e incluiu os melhores ingredientes da ternura. A formalidade e o acerto, neste caso, são apenas código de posturas. Namoro de verdade dispensa isso. Namorar é estabelecer pacto com a felicidade. No namoro, a paixão funciona como calda de chocolate na relação, ainda que o bolo seja sem glúten e sem lactose.

Depois que o namoro vira casamento e a regência do verbo casar é “com”, os protocolos do afeto ganham (ou deveriam ganhar) maturidade, compreensão, aceitação, tolerância, paciência, respeito e amor. Casar é namorar com.

Isso eu sei, cercado de imensa felicidade, há 21 anos.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Humberto da Costa — Casal, 1986.

Crônica

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