Santíssima Trindade: Deus é comunidade do amor, da paz e da misericórdia.

Cyril Suresh, SJ

Uma festa tão sublime como a da Santíssima Trindade invoca solenemente uma percepção contemplativa na liturgia da “relação e comunhão”. Geralmente a filosofia vai investigar o porquê de Deus como uma verdade conceitual com distinção de essência e subsistência. O modo complementador da teologia vai responder pelo mistério de Deus que se manifesta na relação ética, na missão solidária e no respeito sagrado. Em outra palavra, a linguagem filosófica, em certa medida, vai se engajar nas definições e nos substantivos, nas categorias e nas essencias. Não obstante, a linguagem teológica, principalmente da bíblia e da semítica oriental, vai se envolver em  alto e bom som no anúncio e no verbo, na ação e na vivência. Por isso, o Deus Triúno é Pai-Criador, Filho-Redentor e Espírito Santo-Santificador. Então, o eixo filosófico é tão imprescindível quanto o teológico.

A Trindade Santa não é um problema matemático. Ela é uma procura existencial. Ela é um encontro de paternidade e maternidade. Ela é singularmente trinitária de relação (aliança) e de encontro (comunhão). Ela nos encontra e nós ficamos encontrados por Ela. Ela é a primeira família divina e comunidade perfeita. Ela é tão perfeita que todos nós estamos no caminho desta perfeição. Nunca poderíamos inserir a essência toda de Deus em nossa cabeça, mas a nossa cabeça sempre pode ser inundada nos atributos essenciais de Deus Trinitário, que é compaixão e piedade, fidelidade e misericórdia (Ex 34,6), graça e verdade (Jo 1,14.16), amor (1Jo 4,8.16) e paz (Jo 14,27).

O mundo dos ícones ajuda a penetrar o mistério de Deus da relação e sua ação salvadora. A etimologia do termo ícone vem de grego ikônos (εἰκόνος), que quer dizer imagem, figura, semelhança, retrato. A iconografia, com seus símbolos sagrados e seus significados profundos, transcende todo tipo de conceitos dogmáticos e dogmas ideológicos. Ícone como arte sacra tem despertado a percepção mística na tradição oriental da Igreja. Assim, um texto da sagrada escritura pode ser contemplativamente evoluído como ícone de sagrada escultura. Por exemplo, o artista medieval, Andrey Rublev (1360-1427), que meditou o trecho bíblico “Gn 18,1-15”,  produziu a famoso ícone do cristianismo ortodoxo oriental representando uma figura icônica da Santíssima Trindade com sua consubstancialidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo. 

O Deus de Abraão, Isaque e Jacó!
O Deus de Moisés, Elias e Eliseu!
O Deus de Saul, David, Salomão!
É Deus, Pai-Filho-Espírito Santo!

É o Deus que vive na relação, no encontro, na participação e na entrega da nossa vida. É o Deus dos nossos antepassados (Ex3,6). É o Deus da aliança eterna, do amor fiel e da misericórdia (Ex 34,6). É o Deus que disse: “Eu estou com você, Eu sou aquele que sou o YHWH” (Ex 3,12.14.15). Seu Filho é Emanuel, o Deus está conosco (Mt 1,23). Tal Pai tal Filho!  O Pai e o Filho são uma só realidade. Quem vê o Filho-encarnado, vê o Deus-Pai Nosso (Jo 14,9.11;10,30). O Espírito do Pai e do Filho é o Advogado nosso que está conosco para revelar a verdade e defender a nossa causa (Jo 14, 16.18.26) em nome de Jesus – “EU SOU” o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6). Tal relação íntima e recíproca está pormenorizadamente contemplada nesta ícone tão especial. Assim, cada iconografia bíblica é uma arte sacra que ajuda paradigmaticamente em prol da formação da consciência religiosa destrinchando cada gênero e forma literária da Bíblia. Sem dúvida, os gêneros literários da Bíblia como história, lendas, mitos, anedotas, parábolas, visões, revelações (apocalipse), e outros. são iconograficamente melhor representados na arte sacra do que pelas análises doutrinárias de retóricas sem experiências.   

Algumas ícones da dança são irresistíveis quando meditamos o mistério da Trindade. Existe na Índia uma representação de Deus, como dançarino cósmico, com nome Siva Nataraja (शिव-नटराज). No sânscrito, ‘siva’ significa amor-graça, ‘nâta’ dança ou drama, balanço ou equilíbrio, e ‘raja’ senhor ou rei. No hinduísmo, o Deus Dançarino – Nataraja é a personificação da graça. Ele é o rei da dança de criação, destruição, libertação e sustentação. Ele é o equilibrista do universo. O aspecto religioso do “Senhor da Dança Divina” é bastante rico em símbolos e significados. Sua dança mística simboliza o ciclo perpétuo de vida e morte, de alegria e tristeza, de nascimento e sepultamento, de conquista e perda, de trevas e luz, e assim por diante.

A iconografia do Nataraja retrata a imagem do Siva dançando em um círculo de fogo que representa a contínua passagem da vida à morte, característica de toda forma de vida neste mundo. O fogo, na tradição mística oriental, como em muitas religiões, é símbolo de passagem do mundo visível ao mundo invisível. Atravessar o fogo significa amiúde purificar-se, passar para o mundo invisível, o mundo de Deus.

O “senhor da dança” tem quatro braços que exprimem cada qual um aspecto de sua personalidade. Um braço estendido com a palma da mão aberta é bênção-criação. Outro braço estendido com a mão dobrada em direção do solo é sustentação. O braço esquerdo elevado que tem um pequeno tambor é destruição-julgamento. Outro braço direito elevado que tem uma tocha de fogo é libertação-salvação. Outro detalhe desta ícone merece uma explicação: o pé esquerdo eleva-se em um movimento de dança ritual. O pé direito, ao invés, apoia-se sobre um pequeno ser estropiado, um monstro que representa o caos, a fealdade, a ignorância do cosmo. A dança divina do Nataraja esmaga esse monstro para elevar-se dentro do ritmo da música cadenciada do tambor. O objetivo da vida, de acordo com essa visão, é uma lenta transformação de mundo caótico, violento e absurdo em um mundo harmonioso e belo, verdadeiro e sagrado, lúcido e saudável. A “dança” é o modo de transformar a violência potencial do universo a ponto de transfigurá-lo, fazendo-o passar do caos à harmonia. (cf. SKA, J.L. O Deus Oleiro, Dançarino e Jardineiro, São Paulo: Loyola, 2001, p. 29-41). 

A Bíblia apresenta também um dançarino sagrado. Ele é David, o Rei Sacerdote. Com grande alegria e entusiasmo, ele dançava rodopiando com todas as suas forças diante do Senhor enquanto o povo carregava a arca do Senhor; ele oferecia holocaustos diante do Senhor e sacrifícios pacíficos e abençoava o povo em nome do Senhor de todo poder (cf. 2Sm 6,12-23; 1Cr 15,1-29). Ele disse: “É diante do Senhor que manifesto minha alegria” (2Sm 6,21). A irmã do Moisés, Miriâm e as mulheres de Israel dançaram para celebrar as vitórias (Ex 15,20). Israel dançou para celebrar a vitória de David contra Golias (1Sm 18,6-7). O Evangelho anuncia que Jesus é o canto da flauta que convida à dança sacra. “Tocamos flauta para vós, e não dançastes!” (Mt 11,17; Lc 7,32). Quem não dança permanece estéril, como a figura de Micol, a filha de Saul, que se recusou a participar na dança de alegria popular e ficou com uma vida estéril (2 Sm 6,20.23). 

A dança sacra é uma oblação, como uma oferta litúrgica dos sacrifícios voluntários e  holocaustos de entrega total na cerimônia festiva. Os salmistas ecoam tal sentimento com gratidão (cf. Sl 65 (64); 68 (67); 149). Ela é uma benção, como a da ritual de fertilidade, força vital, fecundidade, abundância, perdão, cura e reconciliação que invoca a graça e os benefícios divinos. Quando Deus inicia a sua dança da criação abençoa os primeiros seres viventes com seu mandamento fértil: “sede fecundos e prolíferos, enchei a terra” (Gn 1,22.28). O Deus dançarino da Bíblia celebra a possibilidade de transformar a experiência do tempo difícil em uma experiência de transfiguração. A dança sacra bíblica expõe o mistério da vida e convida à dança dinâmica que transforma a esterilidade seca da condenação para a fecundidade divina da bênção e salvação. A dança litúrgica com seus tempos diferentes de estações (Advento, Natal, Tempo Comum, Quaresma, Páscoa), com seus ciclos rituais de leitura, música e oferta, e com gestos corporais e sentimentos humanos, vai acolhendo o povo de Deus para incentivá-lo a participar no baile terapêutico da vida. Os rituais propostos pela Bíblia, acompanhado por instrumentos musicais e danças, até canalizam o impulso da violência do povo para festa de reconciliação e perdão, de libertação e animação.

Deus – Pai Nosso é o criador do universo – o céu e a terra. Ele faz o universo retornar ao caos primordial para iniciar uma nova criação. Por exemplo, o Dilúvio (Gn 7,1-24), no qual Noé foi o único justo para conduzir o povo à Arca da aliança; no Êxodo (Ex 14-15), Moisés foi único mediador para clamar a Deus na oração (Ex 34,4-9), e conduzir o povo à libertação; no Mistério Pascal, o servo sofredor, Jesus é o único justo para fazer o sacrifício de expiação e conduzir o povo à Arca de Deus que é a Nova Eterna Aliança.

A tradição patrística da Igreja se esforçou para entender o mistério da Trindade numa dinâmica dançante do Pericorese. Este termo vem do grego περιχώρησις que se descreve uma dança circular, característica das crianças em momento de brincadeiras ou das tribos indígenas em momento de dança redonda. O padre oriental, João Damasceno (676 d.C.), foi um teólogo patrístico que visualizou a Trindade Santa como uma dança vital, dança eterna e uniforme. Ele contemplou as três pessoas da Santíssima Trindade dançando num círculo de mãos dadas com sua substancialidade singular, personalidade tripla e dinamicidade plural. Ele utiliza esta dança primordial como uma demonstração da mútua interpenetração, coabitação e comunhão entre as três pessoas da Trindade, entrelaçadas em uma unidade de “dança circular” no movimento permanente de integração. 

Este termo Pericorese na espiritualidade da iconografia vai além dos olhares dogmáticos e dualísticos. A fé apostólica da Igreja pela Trindade Sagrada recebe do Pai criador e misericordioso o primeiro dom que é o seu Único Filho – redentor e libertador e o segundo dom que é o Espirito Santo – consolador e defensor. Deus da Bíblia amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Único a fim de que o mundo tenha vida eterna (Jo 3,16), e que envia o Espírito Santo em nome do Filho para ensinar à humanidade todas as coisas (Jo 14,26). O amor de Deus felizmente está na entrega, na doação e no verbo encarnado e dificilmente está na definição racional e no discurso teórico. O amor na ação é dar a vida pelos outros (Jo 10,15; 15,13). Aqui o verbo ativo remete à ação concreta de doação, verdade e encontro (Jo 3,16; 1Jo 3,16), sem definição ideológica. Isso é um ato dançante e interminável da vida. É uma obra unificadora e salvadora sem pretensão de ser uma fórmula separadora nem um conceito classificável.

Jesus com sua dinâmica de encarnação, missão, paixão, morte, ressurreição e ascensão é o Cristo Cósmico. Ele é o Senhor (Jo 21,7), afirmou o discípulo amado. “Nós vimos o Senhor” (Jo 20,25), disseram os outros discípulos. “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28), confessou Tomé. Paulo confirma que o Senhor é o Espírito (2Cor 3,17-18), e o Espírito dá a vida (2Cor 3,6). Ele é o alfa e ômega. A teologia do evangelista João e do apóstolo Paulo não deixa de contemplar este lado mais profundo da dança mística que enxerga o Cristo Universal: “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1,15.16). A proclamação – anúncio apostólico afirma que o Ressuscitado é o Crucificado (Lc 24,26; At 2,22-24; 1Cor 15,3-8). O sofrimento do corpo crucificado carregou pregos prendidos na cruz; a alegria do corpo ressuscitado carregou as chagas cicatrizadas de paz; é uma dança cósmica que se abraça com alegria e tristeza, se reconcilia com ódio e amor, se junta com altos e baixos, se une com solidão e festa, e transcende a  vida e a morte.

O Deus Dançarino, como o Pai (amor), o Filho (fidelidade), e o Espírito (misericórdia),  carrega uma representação simbólica e ressignificação icônica dentro da dança – Pericorese. O múnus coreográfico desta dança tem uma unidade na diversidade e uma unicidade na multiplicidade. Por exemplo, a intercomunicação entre os Três Divinos mostra um serviço mútuo, uma comunhão intrínseca, uma união santificadora, um diálogo ininterrupto, um amparo mútuo e uma interdependência infinita. Tal interpenetração solidária da Trindade é o coração do Cristianismo, sem mínimo de egocentrismo ou de autossuficiência. Por isso, o Cristianismo da koinonia (κοινωνία), exalta a comunhão e a participação; o da diakonia (διακονία), exalta o diálogo e o serviço fraterno; o da liturgia (λειτουργία), exalta o culto e o trabalho comunitário; o do martírio (μαρτυρία), exalta o testemunho e a doação. Quem vive desta pericorese do Cristianismo tem seu coração com o sentimento de consolação e consagração. Pois, esta dança dinâmica, perfeita e harmoniosa é sempre cadenciada pela sinfonia do amor recíproco que é o vínculo da unidade divina (Jo 17,20-23).

A escola de Espiritualidade Inaciana nos ensina ver a Trindade como Deus em serviço contínuo, contando com a colaboração dos fieis exercitantes e seguidores. Com toda a afetividade sensível, o seguimento de Jesus Cristo que santo Inácio de Loyola (1491-1556), propõe dentro dos Exercícios Espirituais, está repleto de ações apostólicas com verbos e não tanto de definições. Uma listagem de verbos inacianos vai ricamente inspirar os exercitantes na contemplação: sentir, entregar, tomar, consagrar, relacionar, pedir, orar, dialogar (colóquio), experimentar, reverenciar, contemplar, sonhar, interiorizar, discernir, reformar, saborear, repetir, escutar, silenciar, apaixonar, trabalhar, amar e servir, entre outros. Tais verbos bailarinos vão contagiar e configurar aquele que contempla unificando com aquele que é contemplado, ou seja, os seguidores exercitantes com o seu Senhor Deus. Por exemplo, o princípio da Contemplação para alcançar o Amor (EE 230-237), guia os exercitantes numa dança mística e cósmica fazendo com que eles possam se dissolver pela presença atuante (os trabalhos salvíficos) de Deus (o Pai), pelos raios do Sol (o Cristo) e pelas águas da Fonte (o Espírito Santo). Sua dança ininterrompível vai exultar na oração: “Tomai, Senhor, e recebei toda minha liberdade…”  (EE 234).


7 de junho de 2020 — Solenidade da Santíssima Trindade
Leituras da Liturgia: Ex 34,4-9; Salmo: Dn 3,52-56; 2Cor 13,11-13; Jo 3,16-18.

Nascido na Índia, padre Cyril Suresh Periyasamy cresceu em uma família de tradição religiosa hinduísta. Na adolescência, ao conhecer a história de Jesus Cristo, converteu-se ao Catolicismo, sendo batizado aos 17 anos. Durante seus estudos, em uma faculdade jesuíta, ele tomou contato com a espiritualidade inaciana e decidiu ingressar na Companhia de Jesus. [saiba mais]

Imagem: (1) Andrey Rublev (1360-1427), Ícone da Trindade (hospitalidade de Abraão), séc. XV — Galeria Tretiakov
(2) Shiva Nataraja, dinastia Chola, séc. X, Tamil Nadu, Índia — Los Angeles County Museum of Art
(3) Triquetra, desenho inspirado na tradição celta.

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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