O cometa verde do tempo-foi

Diário de um desespero – ou quase – LXVI

João Carlos Pereira

A notícia chegou de longe. De muito longe. Falam em 80 milhões de quilômetros. Sinceramente, nem consigo imaginar essa distância toda, porque extrapola minha capacidade de abstração. Mas ela é, apesar da lonjura, real. E me parece que passou meio despercebida porque o mundo inteiro só tem olhos para o noticiário da pandemia. Tirando disso, é fuga programada para a evasão ou mergulho na dor, que, agora é coletiva. É imensa. Mesmo tão afastada de nós, a notícia de que um cometa verde pode ser visto a olho nu, nos céus da América do Sul, é um alívio nessa hora de angústias, incertezas e muito medo.

Sempre que se falava em cometa, eu me desanimava. O primeiro de minha vida foi também a primeira decepção. Ele se chamava Kohoutch, em homenagem ao cientista tcheco que o descobriu, em 1973. Em Belém, virou Conceição, aquela que ninguém sabe, ninguém viu. Dez anos depois passou o cometa de Halley. Halley-Conceição. Houve quem fosse para Salina, a fim de aproveitar melhor o céu estrelado e a escuridão da noite para ver o cometa e voltou frustrado. Esse também era da família “ninguém sabe, ninguém viu”. Agora aparece o terceiro, que chega no silêncio, sem fazer alarde, trazendo como credencial apenas sua cor.

Descoberto pelo cientista australiano Michael Mattiazzo, o cometa não foi batizado com o seu nome – uma injustiça que precisa ser reparada. O que para nós vai ser cometa Mattiazzo, para a ciência é apenas Swan, porque foi observado com o Solar Wind Anisotropies (Swan), um instrumento integrante do satélite de observação Soho, operado pela Nasa e pela Agência Espacial Europeia. O nosso Mattiazzo-Swan já passou pela Terra, deixou lembranças e mandou avisar que sua imagem possui um “delayed”, quero dizer, um certo atraso, bem expressivo. É como a luz das estrelas. O que chega aqui não é tempo real. É tempo-foi, como diria a Lindanor Celina. Às vezes a estrela nem existe mais, e ainda está piscando. A distância faz dessas coisas.

Mesmo já tendo ido, o cometa verde deve ser uma espetáculo maravilhoso. Digo deve, porque, até ontem, ainda não havia me animado a levantar às cinco da manhã apenas para vê-lo. Ele surge nesse horário. Feito de gelo e poeira, ganha a coloração esverdeada, ou verde, não sei, porque reflete as primeiras luzes de um sol nascente.

Como não vi nada sobre ele na televisão, me fio no que li num jornal de fora. O espetáculo começa às cinco da madrugada e se prolonga até as primeiras luzes da manhã. Quando clareia, some, tipo um vampiro. O melhor dia para admirá-lo é 27 de maio, isto é, quarta próxima. Depois sumirá aos poucos, até desparecer por completo. Nova visita, para quem perder esta, só daqui a exatos 11.597 anos.

Aos que creem em eternidade, isso não é nada. Um cochilo, talvez, ou um piscar de olhos. Mas se o cometa verde está passando na janela, mais ou menos no horizonte, pelos lados da Alça Viária, para que desperdiçar esse presente dos céus?

Ele é verde e verde é a cor da esperança. Será que Deus precisava ser tão claro, quando o mandou passar por aqui?


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: The Ion Tail of New Comet SWAN [NASA] — Image Credit & Copyright: Gerald Rhemann

Crônica

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