Vida em abundância e nada de morte!

Cyril Suresh, SJ

O Domingo do Bom Pastor: a Vida em abundância e nada de morte!

Na Bíblia, o trabalho de pastorear as ovelhas torna-se uma escola pedagógica que analogicamente educou sempre o povo de Deus. Assim como o pastor das ovelhas conduz/administra/guarda o seu rebanho, o “Deus da aliança” faz o mesmo com seu povo amado/escolhido/ungido.
Na tradição bíblica, a figura do “pastor” se identifica com a do pai, do mestre, do amigo/profeta e do rei-governador, inclusive.
Sem dúvida, os patriarcas – Abraão, Isaac, Jacó, José de Egito, e Moisés, do Antigo Testamento, pastoreavam os seus rebanhos (ovelhas e povo).
Na antiga Casa de Israel, o rei Davi foi um pastor não somente das ovelhas, mas também do povo eleito no seu reinado.

O contexto da Pandemia Covid-19 está paralisando aparentemente tudo; até o dia dos Trabalhadores (1° de Maio), que passou num repouso desconfortante.
O termo “Epidemia” vem do grego epidemos (ἐπιδήμιος) com o prefixo epi (sobre) + demos (população).
Também o termo “Pandemia” (πᾶν + δήμιος) com o prefixo pan (toda) + demos (população) do mundo.
Uma doença contagiosa está afetando o mundo inteiro, catastrófica e perigosamente.

Neste 4° domingo do tempo Pascal a liturgia da “Palavra” convida-nos a meditar profundamente o tema da “aliança bíblica” pautada na relação entre Bom-Pastor e seu Rebanho.
Para compreender essa aliança intensa, fixemos a nossa atenção nas três personagens bíblicas: Davi, Pedro e Jesus.

O Salmista (Davi) exclama num cântico de consolo: “O Senhor é o meu Pastor”.
Este termo “pastor” em Hebraico (רֵעֶה) tem o mesmo significado de amigo ou companheiro.
O sentimento do Salmo (23) é precedido pelo Salmo (22): “meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” isto é, na recitação contínua dos Salmos, o sentimento de “abandono e vazio” precede do sentimento de “entrega e comunhão” (cf. Sl 22,1 e 23,1).
Essa dinâmica tem eco no monte Calvário onde o grito de Jesus Crucificado, o cordeiro manso, manifesta seu reflexo (cf. Mt 27, 46-50; Mc 15,34-37; Lc 23, 46; Jo 19,28-30).
Este Salmo (23) destrincha a riqueza da experiência de ser guiado por Deus, numa relação da aliança, cheia de confiança e comunhão.

Podemos perceber (em Sl 23,1-3) uns cinco passos significativos por parte do Senhor como Pastor:

  1. conduzir para as fontes repousantes,
  2. dirigir para as pastagens verdes,
  3. encaminhar para o repouso refrescante,
  4. restaurar as forças vencedoras,
  5. guiar por bons caminhos (verdade e justiça).

Assim a pessoa suplicante, como ovelha amada, foi guiada maciçamente na aliança de Deus.
Tal momento do amor intenso desperta no salmista a certeza anunciadora do “não faltará nada para mim” ou “Meu Deus, basta!”
Pedro (na 1ª leitura): a postura física do Pedro [ficando de pé junto com os Onze (apóstolos), no dia de Pentecostes (festa da colheita), com voz forte…] edifica sua experiência com o Senhor Ressuscitado (Cristo Jesus) como o Pastor na sua atitude de defender suas ovelhas.
Ele exalta que Deus constituiu (construção) Jesus “o Senhor e o Cristo” (At 2,14).
Também ele acusa a toda casa de Israel (o povo de Deus) que eles (vocês) crucificaram (destruição) Jesus.
Finalmente ele exorta o povo: “ouvindo o apelo do Senhor Deus, arrependei-vos (batismo), acolhei-vos (Espírito Santo) e salvai-vos do meio desta geração perversa (At 2,38-40)”.
Extraordinariamente Pedro (na 2ª leitura) apresenta uma síntese do mistério Pascal de Jesus, identificando-o com o a ovelha redentora. Ele pinta a imagem de Jesus ressuscitado como um cordeiro paciente (passivo, manso) que foi açoitado, aguentou abandonado, sacrificado, e entregue a morte.
No final, num tom universal, Pedro afirma: “Jesus carregou os nossos pecados/as nossas feridas em seu corpo crucificado e fomos perdoados/curados por suas chagas” (1Pd 2,24).
Grosso modo, o horizonte da leitura biográfica de Pedro no Novo Testamento mostra três momentos seguintes: primeiro, ele foi chamado, foi ensinado e foi capacitado no seguimento de Jesus, como ser ovelha no discipulado do seu pastor (Pedro seria uma ovelha enquanto Jesus é Pastor).
Segundo, ele toma o lugar do seu mestre-Pastor para educar e cuidar o rebanho de Jesus (Pedro está no lugar do pastor enquanto o povo, no de ovelha).
Terceiro, na sua pregação, ele põe no lugar de ovelha “o próprio Jesus que foi anteriormente Pastor” (Pedro é pastor e Jesus é o cordeiro que tira o pecado do mundo).
Trata-se de uma circularidade de Pastor e Ovelha na narrativa catequética.
De olho fixo no mestre Jesus (Pastor-Ovelha), o discípulo Pedro (ovelha-pastor) termina cumprindo o seu seguimento, no meio da crise profunda de fé.
Jesus no evangelho (Jo10,1-10) narra uma parábola.
Para nós, Jesus Cristo, neste tempo (difícil da pandemia) é Pastor que cuida do seu rebanho, é a porta que abre o caminho (seguro), é a voz (Palavra) que conduz as ovelhas a entrar e sair, a subir e descer, a encontrar a vida (não morte).
As ovelhas do curral (rebanho) conhecem o seu Pastor (bom e verdadeiro).
O ato de conhecer, biblicamente, remete à aliança eterna.
Para as ovelhas do rebanho, conhecer significa explicitamente: (1) escutar/obedecer à voz, (2) ver a porta, (3) sentir o cheiro, entrar no caminho, (4) alimentar e repousar nas pastagens, e (5) encontrar a Vida em Abundância.
Também implicitamente, significa discernir e “não escutar/obedecer” aos ladrões/assaltantes que querem somente a morte das ovelhas e um churrasco delicioso!
É muito atual ver muitos lobos malandros travestidos de ovelha.
Prematuramente eles só arrancam a vida das ovelhas feridas, perdidas, empobrecidas e enfraquecidas.
Na crise avassaladora, como a Covid-19, a pregação apostólica da Palavra, impregna a nossa alma (sedenta e faminta) com a imagem viva do “Pastor-Ovelha”.
Sua dinâmica acompanha o leitor-ouvinte com um amor profundo e ensina-o lembrar da “aliança de Deus”.
O grito do abandono, do vazio, do dor, aos poucos, vai se desembocando à entrega total, a comunhão permanente, a vida abundante.

O leitor-ouvinte, sendo batizado no mistério Pascal de Jesus, assume o papel duplo de ser ovelha (de Deus) e de ser pastor das ovelhas, ao mesmo tempo.
Ser pastor-ovelha vivendo a aliança de Deus e cuidando as ovelhas sofridas (povo de Deus) faz o seguidor abraçar Jesus Cristo, que, por sua vez, foi Pastor-Ovelha, cuidando o seu rebanho (a Igreja) e salvando as ovelhas (humanidade) pelo marco de perdão, de reconciliação, de paz!

Atos 2,14.36-41 | Salmo – 22/23 | 1 Pedro 2,20-25 | João 10,1-10


Nascido na Índia, padre Cyril Suresh Periyasamy cresceu em uma família de tradição religiosa hinduísta. Na adolescência, ao conhecer a história de Jesus Cristo, converteu-se ao Catolicismo, sendo batizado aos 17 anos. Durante seus estudos, em uma faculdade jesuíta, ele tomou contato com a espiritualidade inaciana e decidiu ingressar na Companhia de Jesus. [saiba mais]

Palavra de Deus

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