O asteroide veio e deixou um aviso: vai voltar

Diário de um desespero – ou quase – XLV

João Carlos Pereira

Não sei se alguém sentiu o ventinho provocado pela passagem do asteroide 1998 OR2, que andou pertinho da Terra, na semana passada, numa visita considerada potencialmente perigosa. O “pertinho”, do ponto de vista da ciência, é inimaginável para mim. Não consigo calcular 6,3 milhões de quilômetros, o que equivale a 16 vezes a distância da Terra à Lua. Se quando alguém fala em alguma coisa do tamanho de quatro Mangueirões, eu já me atrapalho, imagine essa conversa de milhões de quilômetros. Minha capacidade de abstração é grande, mas não tão larga assim.

Asteroides me fazem lembrar do corpo celeste que se chocou com a Terra, há milhões de anos (outra medida imprópria para mim), acabando com os dinossauros e a vida do planeta. Como o mundo não se desintegrou, é logico que restou alguma coisa para recomeçar tudo do zero e permitir o aparecimento do homem. Se fosse agora, não gostaria que um corona safado ficasse para contar a nossa história.

Havendo o choque, ele me pegaria na rede, de onde sentiria o prédio balançar, veria tudo cair à minha volta, antes de desaparecer no meio de uma poeira de escombros e da fumaça, sem tempo nem tempo para perguntar “que diabo foi isso?”. Iria na rede, como em enterro no sertão, dispensando caixão, esse luxo inútil. Toda a gente ia ser tragada por uma goela universal, para o centro da Terra, onde haveria cremação coletiva. Nessa hora, eu queria ver a pose do vírus assassino, morrendo esturricado, humilhado por um asteroide sem vida. Assim é que a gente identifica o poder de cada um.

Como, com a graça de Deus, 6,3 milhões de quilômetros ainda não configuram uma área de risco, volto a pensar no corona, que acabou igualando pobres e ricos na possibilidade de ataque. O bicho mira um pulmão e parte para o crime Como se diz agora, não está nem vendo. Pega novo, pega velho, pega gente que pode comprar um avião para se tratar num centro mais adiantado (e morre no caminho), de mesma forma como derruba um pobre que precisa entrar numa UPA ou num Hospital de Campanha, e não consegue. Hoje, ter dinheiro ou não ter dá no mesmo, quando o assunto é a vida.

Há alguns dias, eu conseguia ver, no céu despoluído de Belém, um astro luminoso e sem brilho, perto da lua. Como não cintilava, não era estrela. Fui procurar na internet e descobri que se tratava de Vênus, o segundo planeta do sistema solar, que se mostra, nesta época, até por volta de oito e meia da noite. É a chamada, sem ser, estrela vespertina ou estela d´alva. Num momento de muita imaginação, pensei que os venusianos, se existem mesmo, enxergam a Terra e talvez vivam felizes, sem ver as notícias daqui.

Que vai passar, eu sei. O que não sei é se eu vou conseguir atravessar essa avenida e chegar à dispersão, sambando sobre o que restou da quarentena-quase-eterna, da mesma forma como Orestes Barbosa teceu um chão feito de falsas estrelas.

Apenas para constar. O meteorito já avisou: volta daqui a 50 anos e, desta vez, ficará mais perto de nós. De nós, não. De quem sobreviver, porque nem em sonho chegarei aos 110. Nossa neta, Maria, será uma senhora quase sexagenária e, provavelmente, terá seus netos, os trinetos que jamais conheceremos.

Muito antigamente, se usava uma expressão engraçada para falar de defunto velho. Sim, minha senhora, até os defuntos envelhecem. Não se iluda. Lá, no fundo da cova, não há maquiador para retocar a cara branca, pintar os cabelos que já caíram e os vermes faminto não conseguiram devorar, os dentes à mostra – inclusive os caríssimos implantes Tudo virou osso branco. Dizia-se: “eu não vou ser mais nem osso branco”.

Em 2080, não haverá sequer cinzas de quem, um dia, se chamou João Carlos Pereira. Meus livros, sem editoras e um sistema de distribuição decente, morrerão por aqui. Meu sucessor, na cadeira 39 da Academia Paraense de Letras, se mantiver a tradição, falará de mim, por breves momentos, assim como falei de meus antecessores – o patrono Vilhena Alves, padre Cupertino Contente, Octávio e Clóvis Meira. Os dois últimos tive a alegria de conhecer. Do dr. Clóvis cheguei a ser amigo.

Até hoje me arrependo do discurso que fiz na noite da minha possa, na APL. Escolhi 4 de outubro, apenas um mês depois da eleição, para homenagear minha amada tia Lívia Franco, que aniversariava naquela data. O seu sonho era me ver na Academia. Acho que foi o melhor presente que pude lhe dar, além do meu coração inteiro, que ela levou ao lado seu. Falei por uma hora. Eu mesmo já estava farto daquele falatório e, mais do que qualquer um, naquele auditório lotadíssimo, rezava para acabar o falatório.

Eu estava tão feliz e tão empolgado, que segui à risca a orientação do amigo e padrinho Alonso Rocha para discursar por uma hora. Hoje, toda vez que sou chamado a falar em público, penso na lição que aprendi de minha inesquecível professora Albeniza Chaves. Um dia, ela me disse:

Discurso é a arte de amolar o próximo.

Não falo mais de que 15 minutos. Além disse, é tortura.

Numa recomendação acertadíssima, o papa Francisco, este homem extraordinário, a quem, a cada dia, mais admiro e aplaudo, orientou os padres a restringir suas homilias a 10, no máximo dos máximos, estourando, 15 minutos. Mais do que isso, ninguém aguenta e começa a bocejar, a pensar em outras coisas. Muito antes de o Pontífice Romano dar essa diretriz, meu querido amigo e monsenhor Geraldo Menezes já dizia:

Quem gosta de homilia longa é o diabo. Depois de um certo tempo, o pensamento dos fieis se dispersa, o capeta se aproveita do espaço vago e enfia suas ideias terríveis na cabeça do cristão.

Nem imagino quantos sentarão na cadeira que, um dia, tive como minha, na APL, mas a certeza que levarei desta vida é a de que nada nos pertence, a não ser nossas poucas virtudes e os muitos defeitos. Casas, terrenos, contas bancárias, aplicações, vitrines repletas de comendas, dezenas de diplomas, bibliotecas inteiras, passaportes carimbadíssimos, homenagens em vida e póstumas (essas uma grande besteira), títulos, nada disso caberá na bagagem que levaremos daqui. Quando os olhos cerrarem de vez, estaremos reduzidos ao nada que sempre fomos (e que jamais ousamos admitir), porque em breves horas nossa vaidade começará a se decompor e apodreceremos como qualquer cavalo atropelado na estrada e empurrado para a beira, a fim de não atrapalhar o trânsito.

A morte, queiramos ou não, é a maior lição de humildade que podemos aprender. Eu escrevi podemos? Desconsidere. Como posso me incluir nesse rol, se eu mesmo não sou bom aluno? A Igreja Católica mantém, sob seus cuidados, cerca de 300 corpos não corrompidos pela morte. São cadáveres que, por alguma razão, não se descompuseram, sem que tenham sido embalsamados. São corpos de pessoas que conseguiram a santidade, não porque a carcaça não foi comida pelos vermes, mas porque a alma pura transmitiu à matéria um antídoto. Isso não é para qualquer um.

Com Paulinho Chaves, aprendi uma das coisas mais certas desta vida. Até nossos livros e nossas obas de arte não nos pertencem. Somos apenas fieis depositários. E, por mais difícil que possa ser essa compreensão, são eles que nos escolhem como donos. Apenas temos a missão de passá-los a alguém que, como nós, ou mais do que nós, os amarão um dia.

Assim caminha – e caminhará – a humanidade.


P.S. Inauguro, agora, a secção PÉ NA JACA, que entra no lugar do tradicional “Erramos”. Como papa Francisco e eu somos contrários ao plural majestático e, no meu caso específico, tenho apenas um na equipe, quer dizer, na “euquipe”, em vez de escrever “erramos”, poderia optar pelo errei. Mas é mais engraçado dizer que meti o pé na jaca, porque isso atenua o erro, o descuido ou a burrada mesmo.

A partir de agora, quando for vista a ilustração, o leitor já saberá que me atrapalhei.

PÉ NA JACA, mas também pode chamar de “Erramos”

Vejam o que dá confiar na doida da internet. Fui pesquisar e achei que “A Banca do destino”, citada na crônica de ontem, havia sido escrita por Dolores Duran. Nunca! A música foi escrita pelo nosso Billy Blanco. Quem deu pela besteira foi o atentíssimo e queridíssimo Edyr Augusto Proença, a quem muito agradeço. E a verdade, também.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Pieter Bruegel, el Viejo — El triunfo de la Muerte, 1562/1563. Museo Nacional del Prado

Crônica

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