João Carlos Pereira no Big Brother Brasil ?

Diário de um desespero – ou quase – XXXVIII

João Carlos Pereira

Por dezenove longos anos ouvi falar de Big Brother Brasil e nunca vi uma transmissão em todo esse tempo. Nada contra sua versão brasileira, que estreou um ano depois de ter feito grande sucesso nos Estados Unidos, onde apenas a primeira temporada teve 70 episódios. As demais oscilaram entre 28 e 40. Por aqui, é todo santo dia, por mais de 3 meses. Uma coqueluche, como se dizia muito antigamente, para fazer analogia à doença que toda criança pegava. O programa deu filhotes nas duas principais concorrentes da Globo, mas o povo gosta mesmo é do BBB.

Em casa, as filhas cresceram amando o BBB e, durante os quatro primeiros meses do ano, não falavam em outra coisa. Acordavam e dormiam devorando a atração. A fissura era tamanha, que tomavam café, almoçavam e jantavam “Big Brother”. Se, por acaso, estivéssemos na rua na hora do programa, o jeito era voltar correndo. Trocavam um lanche no McDonald´s por meia-hora de BBB. Mesmo vendo tanto entusiasmo, continuei indiferente por uma única razão: não tenho paciência para esse tipo de formato e, se nunca me interessei pela vida dos outros, agora mesmo, quando estou voltado, quase egoisticamente para mim mesmo, é que não quero saber.

O que digo do BBB serve para quase todos os programas de televisão que têm plateia. Na verdade, só assisto a novelas (a algumas, claro) e ao noticiário. O resto, dispenso. Exceção abria ao Chacrinha, um doido de pedra que me fazia rir. Também via “Chico City” e não perdia séries como “Viagem ao Fundo do Mar” e “Perdidos no Espaço”, que agora passam, e eu as revejo, em canais fechados ou em DVDs. Mas o que me fez interromper uma sequência de quase duas décadas de total alheamento do BBB – dou um vidro de Anita para quem acertar – foi o maldito corona vírus.

Com todo mundo preso em casa e cada vez mais preso, chegou ao fim o tempo do isolamento voluntário. Como cada um tem seu quarto, sua televisão, seu computador, só nos reuníamos nos almoços de domingo. E olhe lá. Com cada uma delas dona do próprio nariz, raramente conseguíamos ter a família toda junta.

Hoje, por conta da pandemia, isso acabou de forma absolutamente natural. É um procurando o outro, um querendo conversar, saber do outro, ver, tocar, cheirar, ter a certeza de que está bem. Tomara que o retorno à liberdade não acabe com esse chameguinho. A gente pode até se estranhar, se arengar, se irritar, porque o troço está cada vez pior, mas a fellicidade de cozinhar para elas, de vê-las à mesa, não tem preço. Não sei se foi para me agradar, mas até sugeriram dispensar a cozinheira, jurando que dou conta das panelas. Ontem, por exemplo, a travessa de panquecas feitas com goma de tapioca e variados recheios ficou limpinho.

Por conta desse encontro, que se dá sempre depois que terminam o nosso trabalho remoto, as aulas da mais nova e as consultas da mais velha, passamos a nos ver mais. E nos ver mais significa também acompanhar “Fina Estampa” e grudar no BBB, a que elas continuam assistindo com uma empolgação que dá gosto. Ontem ouvi lamúrias do tipo: “o que vou fazer agora? O BBB vai acabar…” Não é sério, porque são boas leitoras e adoram séries, mas acompanhei, depois que começou o isolamento, o prazer com que vibravam pela saída ou pela permanência dos “brothers”. Vi torcidas intensas para que A ou B fosse votado, porque um era machista, outra era idiota, outro sem-noção, outro imbecil e as qualificações, ou desqualificações, iam chegando ao baixo e despudorado calão.

Eu sou totalmente incapaz de reconhecer, pela cara ou pelo nome, qualquer integrante do reality, porque, como disse, não me interesso por eles. Em volta da mesa da cozinha, as filhas sabiam traçar estratégias, faziam análises, para mim, obscuras e antecipavam quem sairia ou permaneceria. Quando falavam em paredão, invariavelmente eu me lembrava do Fidel Castro, famoso também por mandar os inimigos do regime para o “paredón”.

No auge da fissura pelo BBB, as adolescentes de casa “viam” o programa em todo canto. Uma vez, no Vaticano, estranhei o interesse de uma delas, ao fotografar um dos confessionários da Basílica de São Pedro e perguntei para que fazer foto de uma coisa tão comum, à qual, a bem da verdade, nenhuma delas é chegada. Nem elas, nem a mãe, que prefere se confessar diretamente a Deus. Eu ainda gosto de me colocar ao pé do padre, tal como se diz em Portugal. Como tenho alguns amigos sacerdotes, às vezes brinco com eles. “Umbora, criatura, me dá logo a absolvição por telefone, porque já te contei tudo”. Nunca isso aconteceu, ressalto. É brincadeira inocente, porque respeitamos os sacramentos. Mas a filha continuava a fotografar o confessionário, até que não se segurou e disse: “é por causa do confessionário do BBB, vou mostrar este aqui para minhas colegas.” Benza-me, Deus!

A novidade das conversas este ano é que o melhor amigo da filha mais nova vai se inscrever e tentar participar do BBB 21. Se ele entrar, prometo bater ponto diante da TV. Parece que há uma atração assemelhada numa TV britânica, da qual essa criaturinha deseja fazer parte. Caso seja aceita, terá de passar um mês em Londres. Será que eu sou doido de me opor? Por mim, pode (deve) ir.  Esse tipo de experiência é único na vida.

Para testar minha paciência, enquanto comíamos e o BBB rolava solto, uma delas começou a me imaginar no programa e garantiu que eu não passaria da primeira semana. Tudo indica que sim. Odeio confinamento obrigatório. Este de agora confirma minha convicção. Posso passar o dia inteiro em casa, dois, três, quantos desejar. Mas por livre disposição. Para ver até aonde elas iriam, entrei na molecagem. Disse que, se fosse selecionado, levaria meus livros e me isolaria num canto do jardim. Peguei logo uma repreensão. “Não pode ter livro!” “Como é possível viver sem livros? Então não vou!” E terço, pode? Aí encurralei as BBBmaníacas. Talvez possa, mas não souberam dizer ao certo. O que ia conversar com meus coleguinhas, se habito um mundo tão distante do deles? Talvez até sejam mais felizes e mais livres em seu quadrado, mas minha felicidade passa por outros labirintos.

Como sou pessoa de boa paz, com grande vocação para conciliar as coisas e odeio disputas, ia ser colocado para fora na primeira hora. Sei que se formam grupos e há provas que envolvem resistência física. Eu perderia todas, porque sou mole e não aguentaria sacrifícios para ganhar um carro. Se pudesse evocar minha condição de cardíaco, de aposentado e de idoso (conforme está na lei brasileira), requisitaria um quarto só para mim, com um monte de prioridades ou regalias a que, constitucionalmente, tenho direito. E ninguém venha me dizer que o BBB é um país dentro de outro país, com leis e moeda próprias, que ia logo arguir a inconstitucionalidade do negócio.

Cada vez que acontecesse uma festa, encheria a cara de vinho e dormiria na primeira poltrona macia que encontrasse. Se um cantor famoso fosse se apresentar, logo seria acometido de uma dor de cabeça tão grande, que todos teriam consideração comigo e me dispensariam do embalo. A gente aprende a ter estratégias na vida e a se safar de chatices. Tenho cada tática que, se revelasse, ninguém acreditaria.

Sou totalmente por fora do que acontece no Brasil, quando o assunto é música. Se, por acaso, viajasse com um famoso sentado na poltrona do lado, não o reconheceria. Uma vez, num aeroporto, vi um homem com turbante na cabeça, roupas coloridésimas, umas sandálias de couro, uma ruma de anéis e achei que o conhecia. Discretamente, comentei com a minha mulher: “tem um artista no Brasil, não estou lembrando o nome, parecido com esse aí”. Ela concordou e não falamos mais nisso. Quando entramos no ônibus que nos levou da sala de embarque até o avião, ele sentou bem perto de nós e eu lembrei: “lá vem o Carlinhos Bronw dos pobres”. Só viemos a saber que era o próprio, mais tarde, por causa da tietagem.

Eu perderia fácil qualquer concurso para identificar artistas que só conheço de ouvir falar, e olhe lá. Anitta (sempre penso que é o remédio para verme, tão em moda agora), Ludmila, Cláudia Leite (a Ivete eu conheço e, na única vez em que a vi de perto, no corredor da TV Liberal, me pareceu muito simpática), não sei o quê Todinho, qualquer dupla sertaneja, qualquer sertanejo dito “universitário” (será que algum deles alguma vez passou pela porta de uma universidade para assim se proclamar, ou a música deles apenas reflete a indigência cultural do país?), os DJs, os MCs, os pancadões da vida, os regueiros mais doidões, os funkeiros, os metaleiros, os pagodeiros, os diabo-que-os-carregue, todos juntos, para longe de mim. Não sei ligar o nome à pessoa, tampouco cantarolar um sucesso que seja. O problema, admito, é todo meu, porque, como diz o Carlos Sampaio: “é, João, te conforma. Nós estamos fora”. Estou fora e não faço questão de entrar, Carlos.

Lamento informar que parei na Bossa Nova, no chorinho, samba-canção e no chamado samba de raiz, ritmo que adoro. Amo rodas de samba, marchinhas, um ou outro conjunto ou banda, músicos que interpretam os ritmos de sua terra, como “Marinez e sua Gente” e o “Gaúcho da Fronteira”. Já curti boleros e tangos, mas passou a fase. Adoro ritmos de Portugal, da França e música clássica, que é o que mais ouço em casa. Minha paixão mais recente, já escrevi sobre ela, foi Patachou, uma francesa maravilhosa, que fez muito sucesso e morreu com mais de 90 anos. Quase sempre chego bem atrasado a tudo.

Para provar que não sou o alienígena que pareço, gosto de algumas músicas do “Fresno”, uns meninos do Rio Grande que acho bem legais. Uma vez, fui dizer isso numa sala de aula e um aluno, do curso de História da Arte, achou um insulto à sua inteligência falar em Fresno. Paciência. Como alguém pode gostar de Fresno e passar uma manhã inteira ouvindo canto gregoriano ou Bach? Não sei como pode, mas pode. Esse alguém sou eu. Como cantava o Raul Seixas, cuja loucura invejo, prefiro ser uma metamorfose a ter a mesma opinião, sempre. Não sou avesso ao novo. Sou avesso a porcarias.

Com tanta coisa contra mim, sairia no primeiro paredão do BBB, ou, então ficaria tão invisível, que era até capaz do povo se esquecer de mim e, quando chegasse a hora, estaria na grande final, no páreo para levar um milhão e meio.

Essa hipótese é tão improvável, que é melhor eu continuar jogando na loteria, onde minhas chances de sucesso são bem maiores do que chegar ao BBB, sair de lá no último dia, direto para o programa da Fátima Bernardes e expor minha leseira, à luz do dia, para todo o Brasil. Delírio tem limite.

Belém, 28 de abril de 2020

P.S. A crônica de hoje, graças a Deus, não tem a ver com o título da série e escapou do desespero. Ela bem que poderia estar em outra chamada “Mangando de mim mesmo”, que é o que mais gosto de fazer agora.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
E-mail | Facebook | Série Diário de um Desespero – ou quase

Imagem: Lasar Segall — Am Spiegel [No Espelho], 1923.

Crônica

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