Qual a necessidade do coelhinho da Páscoa?

Diário de um desespero – ou quase – XXII

João Carlos Pereira

Do mesmo modo como implico com a figura do Papai Noel, faço enorme restrição à do coelhinho da Páscoa. A primeira porque é patético e a segundo, ainda que fofinho, nada tem a ver com o tempo profundamente espiritualizado que deveríamos estar vivendo. Sei que eles habitam o imaginário das crianças e, às vezes, dos adultos, mas nem por isso deixam de ser, como diria Fernando Pessoa, a respeito das pessoas que escrevem cartas de amor, e das próprias cartas, “ridículas”.

O Papai Noel, com aquela barba enorme e roupa de frio, ganhou versões estilizadas pelo mundo e suas vestimentas receberam tecidos adequados a cada região. Mas o padrão Coca-Cola, com licença da má-palavra, viralizou e se impôs. Uma vez, andando por Ananindeua, vi um Papai Noel berrando sobre um tenebroso carro-som, com um “casaco” feito de um pano meio brilhoso, sem cinto, sem barriga (acho que foi isso me deu inveja) e com uma barba tão horrorosa, confeccionada com um TNT branco cortado em tiras, que mais parecia um espantalho, personagem obrigatório de filmes de terror, fazendo publicidade de uma loja. Se eu soubesse qual era, não entraria lá só de birra, por terem contratado um Papai Noel medonho.

Os que ficam nos shoppings ou nos restaurantes, com especial carinhosa referência ao queridíssimo tio Paulão, que, por tantos anos, encheu de beleza os sonhos de minha filha mais nova, a ponto de fazer com que ela “visse” seu trenó passar no céu e pousar no alto de nosso prédio, dignificam a personagem e humanizam-na. Infelizmente, porém, Papai Noel é ficção.

Quando eu era menino e dormia em rede, meu cuidado se voltava para o que os presentinhos brotassem ali mesmo. O mistério sobre o Papai Noel era tamanho, que, uma vez, cheguei a pensar em construir numa espécie de periscópio feito de cano para tentar flagrá-lo, na hora em que estivesse colocando os pacotes no pé da árvore de Natal. Não conseguia entender como entrava em casa, já que, sem lareira, não tínhamos chaminé. Minha mãe jamais me explicou direito, mas não fazia mal. No dia em que, no colégio, meus colegas espalharam que Papai Noel não existia e quem comprava os presentes eram os pais, fiquei muito triste, mas meu pai, carinhosamente, juntou os cacos da minha desilusão e me abraçou. Com a identidade do Papai Noel revelada, peguei minha bicicleta, dei umas voltas e não pensei mais no assunto.

Minha bronca maior com o Papai Noel não é desigualdade que ele representa, porque, em geral, visita apenas meninos cujos pais são “amigos”, digamos assim, do chamado bom velhinho. Bom, de verdade, seria, se fosse agente de uma igualdade maior. A reclamação mais forte é que o consumo o coloca, ou pelo menos tenta, em posição de maior destaque que do menino Jesus, verdadeiro dono da festa, nascido pobre e, nessa condição, continuado até o fim.

O Natal, sempre acreditei, é Cristo.  O resto, me perdoem a sinceridade, virou subliteratura. Inclusive, e, especialmente, o Papai Noel.

Com o coelhinho da páscoa não tenho tanta birra, mas não nutro por ele simpatia especial. Não cresci com essa ilusão abobalhada, porque, se bem me lembro, não era produto disponível por aqui. Sem ovos, sem coelhinho. E não me fez falta.

Chocolates à parte, sou doido por coelho, sobretudo à caçarola. Infelizmente, a iguaria não faz parte da tradição gastronômica local e apenas dois restaurantes, até onde sei, o trazem no cardápio. Mas é tão caro, que até passa a vontade. Em Portugal, especialmente no interior, coelho existe de sobra e é um dos pratos mais baratos. Nos açougues, os bichinhos estão estirados, magrelos, perninhas esticadas, coitados, aguardando compradores no mostruário refrigerado. Minha filha mais nova, a mesma que “via” o trenó e se encantava com a chegada do Papai Noel à nossa sala, não gosta nem de olhar para os coelhos sem pelos, mortinhos. Tem pena dos pobrezinhos e se recusa a comê-los. Deve lembrar dos coelhinhos da Páscoa, porque povoaram sua infância e cresceu acreditando neles.

Não tenho essa delicadeza de espírito e sonho mesmo é com um bom coelho na panela. Paula e Antônio José preparam um coelho delicioso e do último que fizeram guardaram uma provinha para mim. Mas veio a pandemia e fiquei privado, temporariamente, desse prazer. Como está congelado, não há pressa. Aprecio perna de rã e adoro tartaruga, muçuã e assemelhados. Cônego Ronaldo Menezes tem tanta  dó dos quelônios, que não consegue colocar um garfo na boca, porque dali não passa. Como dizia minha mãe: “é melhor assim. Mais sobra”.

Comida é um assunto que me anima, mas não devo gastar todos os possíveis temas numa única crônica. Hoje é domingo de Páscoa e trocamos chocolates em casa. Nosso almoço foi a maniçoba, cuja receita publiquei há alguns dias e ferveu até ontem. As carnes foram colocadas na ordem das mais duras para as mais moles e, à noite, estava pronta. Ficou divina.

Neste dia Santo, desejo a todos a consciência da mudança do Cristo vivo, que subverteu o conceito da morte e ensinou coisas simples, mas cuja profundidade ainda não conseguimos aprender, tipo amar uns aos outros como se fôssemos irmãos (mas quem quer ser irmão de venezuelano da esquina, de morador de rua, de gente esquecida em hospitais, em presídios, ou de quem padece de fome?), dar a outra face, buscar o perdão e não o ódio e confiar em quem nos criou.

Quem puder, minimamente, seguir um pouco da receita cristã terá realizado a Páscoa verdadeira. Sem coelhinho, sem ovo, mas com o Ressuscitado. E para isso, acreditem, nem é necessário ter religião ou crer em Deus. Nesse caso, algo melhor acontece: Deus passa a crer em quem faz o bem e pratica o Evangelho, ainda que não O conheça. A certeza da existência de Deus virá com o amor manifestado por atos.

Ao contrário do que muita gente acredita, duvido que na porta do para além da vida seja necessário preencher um questionário moralista, com perguntas cretinas, do tipo: qual era sua religião? Você acreditava em Deus? Quantas vezes você errou na vida terrena? Você era gay ou hetero? Era cachaceiro ou abstêmio somente por conta de suas crenças? Era de direita ou de esquerda? São Pedro, o chaveiro do céu, seguramente deve ter muito mais o que fazer.

Isso tudo faz parte do ilimitado e estreito repertório alimentado pela estupidez humana. As perguntas de Deus devem ser outras e nada têm a ver com preconceitos mundanos. Creio nisso com firmeza, consciente de que seremos ouvidos por um tribunal justo e misericordioso, não por inquisidores moralistas, de dupla face, viciados em bobagens de uma sociedade plena de valores vazios.

Na conta de Deus deverão ser valorizadas respostas para coisas realmente importantes: você era amado ou temido?  Foi justo ou sua balança tinha vários pesos e diversas medidas, conforme a ocasião e as suas necessidades? Ajudou ou explorou seus semelhantes? Era bom ou indiferente à dor alheia? Fez uso correto dos dons que recebeu ou gastou a vida inutilmente? Comprometeu-se com a verdade ou foi mais fiel à mentira? Você usou sua religião como escudo para si mesmo ou fez dela uma plataforma para o amor?

Essa coerência de pensamento, com muita humildade e gratidão, eu digo: aprendi na Igreja Católica, que me deixou livre para pensar e seguir um Cristo de verdade e não um faz-de-conta moldado, de forma invertida, à imagem e à semelhança dos homens.

Qualquer dia desses contarei como me converti ao catolicismo e a forma como essa religião me ensinou a ser livre e verdadeiro, em particular comigo mesmo, esquecendo todo tipo de culpas, de bobagem e de preconceitos que mantêm o homem preso ao chão.

Com essa promessa, já são três: a visita a Mario Quintana, o amor de Serge Casha por Lindanor Celina e vice-versa, do qual não falei, mas estava na parte deste texto que suprimi, mas ficou na minha cabeça, e a conversão permanente ao catolicismo libertador.

Assunto é que não vai faltar.

Feliz Páscoa, pessoal!

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Estudo para « l’arbre de vie » – Henri Matisse, 1950.

Crônica

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