Na ausência do povo, a certeza de que Deus não sumiu

Diário de um desespero – ou quase – XX

João Carlos Pereira

Foi estranho, mais do que estranho, foi triste não escutar as matracas, os cantos amargurados e os lamentos da procissão na manhã desta Sexta-feira Santa. Na avenida Nazaré completamente vazia, não passou o cortejo que levava a imagem do Senhor com a cruz aos ombros, dolorosa evocação de uma injustiça pensada nas céus para ser transformada no maior gesto de amor pela humanidade.

Guardada em sua igrejinha, a imagem da Senhora das Dores, peça de roca feita especialmente leve para ser carregada em procissão, com um coração trespassado de pequenas adagas, na representação das maiores dores que um ser humano pode suportar, mas miúda diante do que lhe ia na alma, naquela hora sem precedentes.

Tantas dores convergentes fizeram sangrar o corpo e, ninguém duvide, como se isso fosse impossível, a alma daquela Senhora. Uma iniquidade, um imerecido castigo, um veredito infundado e mentiroso caíram sobre seu Filho, mais pesados do que a cruz. A mulher dilacerada é a mesma que em outubro passa, soberana, na sua berlinda, pelas ruas de Belém. Quase ninguém lembra, mas a Senhora das Dores também é Maria de Nazaré em estado de puro sofrimento. A Mãe que segura o bebezinho no colo envelheceu três décadas, quando, sentada, olha o cadáver maltratado, vilipendiado, do Filho. Melhor do que ninguém, Miguelângelo  a viu nesta circunstância e a retirou de um bloco de mármore, esculpindo a “Pietá”.

Eles não puderam se encontrar neste 2020 atípico. Ficaram retidos.  A reclusão de Mãe e Filho dialoga, mais do que nunca, com a nossa. Os dois, que são maiores do que tudo, capazes de esmagar a pandemia com um olhar, também se isolaram. Igualmente se colocaram solidários aos pobres, que somos nós todos, os muitos pobres e os poucos bilionários do planeta, cuja fortuna, por maior que seja, não os autoriza a colocar os pés fora de casa ou  blinda contra o vírus. Mais do que nunca, a semelhança se manifesta na dor, na impotência e no medo da morte.

Para uma capela vazia, onde as vozes do Coral Santa Cecília ecoam como um trovão descido do alto, o sacerdote, cônego Vladian, com doçura, toca, profundamente,  os pontos fundamentais da doutrina católica e replica as palavras de Jesus.  O templo está  fechado, mas poucas vezes vi tanta fé como agora. Cada um em sua casa constrói uma igreja particular e se reinventa como ser humano. Claro que não brotarão príncipes entre os cativos, mas, se surgirem pessoas melhores,  já terá valido a pena tanto desespero.

Do alto da cruz, o Filho de Deus, num ângulo que somente o Criador e Salvador Dali, numa tela excepcional, chamada de “O cristo de São João da Cruz”, puderam ver, tinha poder para mandar cessar toda a cena da barbárie, se dispôs e cumprir o que estava escrito e, até o fim, até o último suspiro, nos ensinou a sermos criaturas mais justas e solidárias. Cada um, agora, que responda pelo aprendizado. Ou por sua falta. Somente aquele quadro perverso, de Deus crucificado, bastaria para mostrar à humanidade, por dois mil longuíssimos anos, que justiça e misericórdia devem caminhar juntas, mesmo nos mais indignos tribunais, como o que Pilatos presidiu.

Na concisão verbal de quem passou a vida ensinando, Jesus deixa uma mensagem, pouco antes de cerrar os olhos, que muito precisa ser repetida agora:

“Pai, perdoa-os. Eles não sabem o que fazem”.

Lc 23,34

Isso vale, sobretudo, para quem manda o povo ganhar rua, nesta hora de reclusão. Seja por ignorância, seja por oportunismo, eles não sabem o que fazem. E se acham que sabem, acumulam culpa maior. Numa sexta-feira Santa atípica, porque falta o povo na rua, é preciso lembrar que na ausência é que encontraremos Deus, verdade, essência e plenitude, ainda que não consigamos, pela miudeza de nossa percepção, sequer localizá-Lo.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
E-mail | Facebook | Série Diário de um Desespero – ou quase

Imagem: Cristo de San Juan de la Cruz – Salvador Dalí, 1951

Crônica

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