A quarentena e o meu desejo de seguir Jesus

Joana Eleuthério

Nos últimos dias, testemunhamos a epidemia de coronavírus, mas também somos assolados pela epidemia de medo. E nessa condição difícil e sombria, a Igreja também parece estar sobrecarregada. Nenhuma polêmica da minha parte, nenhuma certeza, mas muitas perguntas.

Enzo Bianchi

Parodiando o Papa Francisco, por ocasião de um forte resfriado sofrido por ele, bem no momento em que o coronavírus ampliava a sua lamentável ação na Itália, eu diria “os vírus do mundo são outros…” Bem outros mesmo e que foram se avolumando nas desigualdades abismais entre nós: na falta de solidariedade com os mais frágeis, no egoísmo dos mais ricos da população mundial e na tragédia de elegermos políticos da extrema direita sem a adequada formação humana, ética e política, somados ao desrespeito e abuso em relação aos recursos da natureza, um dom de Deus. E quais seriam esses vírus não tão invisíveis quanto o coronavírus?

O capitão desse exército dos outros vírus presentes no mundo seria o neoliberalismo, tão imoral quanto todos os seus agregados e os sintomas mórbidos que dele proliferam na sociedade atual. Como vem acontecendo no Brasil, vemos as imposições do agronegócio, da especulação imobiliária, das privatizações injustificadas, do desmonte do estado e dos direitos sociais, das reformas que permeiam a dinâmica de superação e a formulação dos mecanismos de exploração da vida. Infelizmente, devo reconhecer que o coronavírus agora é uma das mais tristes realidades nos cinco continentes. Diante dessa catástrofe global, será que “os 2.153 bilionários do mundo, que detêm mais riqueza do que os outros 4,6 bilhões de pessoas – ou cerca de 60% da população mundial”, não começariam a admitir que existe algo muito errado nessa lamentável estatística, que está no relatório da Oxfam, “Tempo de Cuidar – O trabalho de cuidado não remunerado e mal pago e a crise global da desigualdade” (jan. 2020)?

Nasci no início dos anos cinquenta e não me lembro de ver nada igual ao que estamos vivenciando, como meus filhos já quiseram saber. Como cristã, seguindo a metodologia  da espiritualidade inaciana, buscando o conhecimento interno de Jesus, por meio dos exercícios de contemplação, para mais amá-lo e me tornar  capaz de seguir o seu programa das bem-aventuranças (Lucas 6, 20ss) me vejo obrigada a ficar em casa no meio da Quaresma, passando dias, talvez semanas sem a celebração da memória eucarística, sem poder receber o verdadeiro alimento – o pão vivo que é Jesus. É desse alimento sagrado que emana toda a força de minha fé.

Sem ter o hábito de ver televisão, outro dia acompanhei o terço da Esperança e da Solidariedade na TV Aparecida. Fico agradecida e esperançosa com essas iniciativas para unir as comunidades nesses eventos virtuais. Hoje a CNBB publicou um roteiro para a celebração familiar do 4º domingo na Quaresma, que nos traz belas orações:

Não podendo nos reunir para juntos celebrarmos a Eucaristia, nossas Via Sacras e outros momentos de oração em nossas comunidades, queremos fazer de nossa casa, a casa de Deus, a Igreja doméstica pois aqui nos reunimos no Dia do Senhor, como os primeiros cristãos que também se reuniam em suas casas, para a escuta e a meditação da Palavra de Deus.

Provavelmente teremos novos roteiros para os próximos domingos, inclusive para o Domingo da Páscoa, que será no dia doze de abril e nada nos garante que já teremos saído da quarentena quaresmal – não por acaso, eu acredito. Nesses momentos, e nos momentos de oração pessoal, vou encontrando alguma consolação, podendo refletir e observar a verdade do meu desejo de seguir Jesus, percebendo que toda essa situação que estamos vivendo pode fazer sentido. Quem sabe precisamos começar por transformar o olhar para então ver o mundo, a vida e toda a humanidade com os olhos de Deus?

Nossos jejuns e sacrifícios quaresmais destinam-se, em parte, para aumentar a nossa consciência da situação pela qual nossos irmãos e irmãs devem passar sem escolha, nem por um tempo limitado, mas por causa da pobreza, fome, opressão ou falta de oportunidade persistentes.
O nosso jejum da missa dominical não deveria nos oferecer uma comunhão mais íntima com as nossas irmãs e irmãos, que devem ficar sem celebrações eucarísticas durante meses ou até anos seguidos, porque não há padres disponíveis para participar dos seus encontros?                                     

Bill Grimm

Confesso que é difícil lidar com toda essa situação e discernir o que é a minha missão neste contexto tão desfavorável em tantos aspectos. Pelo excesso de informações que chegam, pelas discussões infrutíferas que ouço ou leio, embora evite todo excesso de informação ou a repetição de uma informação. que se replica no aplicativo do celular, causando-nos exaustão e esgotamento. Acredito que tenho adotado o estilo ‘Poliana’, acreditando que tudo tem um lado positivo e que todo esse caos e essa angústia vão nos trazer excelentes lições, inclusive deverá nos apontar e iluminar erros cometidos, apontando a direção do caminho, da verdade e da vida evangélica, ensinando-me como é e qual é o verdadeiro seguimento de Jesus. Contudo, para aqueles que não creem, mas têm alguma sensibilidade política, social e ética, também significará a oportunidade para reavaliarem a trajetória feita para poderem retomar aquele ou aqueles caminhos mais coerentes com a sua filosofia de vida.

Já li textos interessantes sobre essa questão, como este artigo da socióloga italiana Chiara Giaccardi, professora da Universidade Católica de Milão e especialista em mídias digitais, que nos diz coisas que calam fundo em meu coração, como:

Não nos resignemos ao lado sombrio da questão, não nos limitemos à nostalgia por uma normalidade que certamente não voltará em breve, e talvez absolutamente não retornará (e talvez não seja apenas algo ruim).
Em vez disso, aproveitemos este tempo suspenso para repensar o sentido das nossas vidas, dos nossos vínculos, da gratidão pelo que existe, das formas que podemos reconstruir a partir desse “zeramento” forçado. Que sejam formas (de socialidade, de trabalho, de consumo, de contribuição, de habitar e viver as cidades) capazes de hospedar mais vida.

Os valores, os costumes e todo o estilo de vida atual parecem bem longe daquilo que a autora nos diz e a anos luz do caminho que o seguidor ou a seguidora de Jesus deveria fazer. Então avalio que provavelmente ainda não tenhamos sido capazes de aprender a viver o amor incondicional com que somos amados pelo Pai e pelo seu Filho, que compartilhou conosco a sua amorosa Mãe – Maria tão presente na devoção e nas orações do nosso querido Papa Francisco. Talvez agora, pela dor, nesse recomeçar que ainda não se sabe de nem onde nem quando ocorrerá, seremos mais atentos, mais atentas, capacitando-nos para transformar todo o sofrimento e toda angústia deste momento em oportunidade para uma mudança fundamental, a favor da vida plena, abundante, expansiva, que Jesus veio nos propor.

As quarentenas vieram e reuniram nossos pequenos núcleos familiares. Isoladas, as famílias passaram a conviver e a dialogar mais, quando o trabalho fora, as viagens, o lazer e outros compromissos deixaram de ser a prioridade, uma vez que as ameaças da pandemia nos lembram de nossa vulnerabilidade e nos ajudam a entender o grande valor da família, da solidariedade e da compaixão. Que tenhamos a graça de uma convivência amorosa e pacífica – esse é um momento para, com o olhar de Jesus, nos vejamos como verdadeiramente irmãos, mais iguais para que toda a arrogância se torne simplicidade e acolhimento – milionários, ricos, pobres e miseráveis, todos nós no mesmo barco da pandemia, correndo quase os mesmos riscos de sermos infectados pelo vírus. A lição fica. Espero. Há situações que nem dinheiro, posses ou diplomas servem para nos salvar e muito menos para nos fazer sentir melhores ou mais importantes do que a nossa diarista ou a nossa empregada. Pelo contrário, vivendo a quarentena, temos feito o seu trabalho, sentindo falta da significativa ajuda delas. Até dá um pouco de saudade daquela presença quase invisível no meio de nós, cuidando de nós.

Paradoxalmente, alguns recursos tecnológicos vieram para tornar o ser humano isolado doentiamente com jogos, leituras, redes sociais e todos os vícios que nos prendem a telinha azul. Contudo, isolar-se agora é uma necessidade de sobrevivência e ele terá de se isolar ainda mais. O contato humano presencial será adiado. Por quanto tempo não se sabe. Todos dentro de casa, sem sair, mas caso alguém seja obrigado a sair para trabalhar, essa pessoa passa a ficar isolada dentro da própria casa – uma quarentena dentro da quarentena. No caso de casais, terão de dormir separados para evitar risco de contaminação. Minha esperança é que esse isolamento realmente abale as estruturas e as nossas certezas para descobrirmos que há maneiras mais ecológicas, fraternas de viver e que a comunidade, a convivência e a intimidade são essenciais para a nossa humanização. O dia ficou mais longo, o silêncio na cidade invade mais nossas casas, a calma nos permite quase esquecer o relógio, e isso é um convite irrecusável para a reflexão, grávida da possibilidade de maior clareza, melhor discernimento na tentativa de desenhar o futuro…

Para o verdadeiro seguimento de Jesus, a trajetória humana vai ter de repensar e transformar o estilo de vida atual em um estilo evangélico nos moldes propostos pela Economia de Francisco, encontro mundial convocado pelo Papa Francisco para este mês, mas que foi adiado para novembro deste ano. A referência e inspiração para esse evento vieram de São Francisco de Assis e Santa Clara, na Itália do Século XIII, e que ainda muito jovens, desprezaram a fortuna da família nobre para abraçarem a igualdade, o amor, a solidariedade e o cuidado com os pobres – mendigos, doentes diversos, alcoólatras e com a natureza. O convite do Papa foi direcionado a “uma geração de jovens economistas, claramente opostos à ditadura financeira. Eles se juntarão a ativistas experimentados, mas que encontram pouco espaço nas organizações políticas tradicionais.” (Unisinos)

Há também um belo texto de Marcelo Barros, publicado no blog de Leonardo Boff, que nos lembra que o nosso mundo tem outros vírus que nos fazem muito mal. Ele diz:

Em tempos de riscos de contágio do vírus, é bom a gente saber que a sociedade tem vários vírus que nós pegamos sem nem perceber. A normose é um deles. Hábitos, falas, caminhos, tudo já bem decidido e bem arrumadinho… A vida fica parecendo esses mapas turísticos que em cidades da Europa (Paris, Veneza) as pessoas compram quando vão visitar. No mapa tem os pontos. 1, 2, 3, 4… É só você ir seguindo… Da catedral passa para o monumento antigo. Deste, você vai para o 3 que é a praça onde se deu tal acontecimento e assim por diante. Tudo previsto, tudo contido. E muita gente se satisfaz em viver assim. Como foi o teu dia ontem? Levantei, tomei café, fui para o trabalho, voltei, tomei banho, vi televisão e fui dormir.
[…]
Um momento do mundo que, no século XXI, a gente não podia imaginar que iria viver, como se estivéssemos nos tempos medievais da peste negra. O vírus revela a fragilidade das estruturas da sociedade. Tudo quebra. Tudo está em crise.

Marcelo Barros

Apesar do desarranjo da sociedade, da economia, das relações sociais presenciais, nós temos de evitar também a perigosa epidemia do medo, como disse Enzo Bianchi na citação acima. “Resista ao pânico” é o que nos diz o jesuíta estadunidense James Martin em um artigo muito bom, quando ele esclarece o que não deve ser considerado como a resistência ao pânico. Ele diz assim:

Isso não significa que não haja nenhum motivo para se preocupar ou que devamos ignorar os bons conselhos dos profissionais médicos e dos especialistas em saúde pública. Mas pânico e medo não vêm de Deus. Calma e esperança, sim. E é possível responder a uma crise com seriedade e deliberação, mantendo um senso interior de calma e de esperança.
[…]
O pânico, ao confundir e assustar você, afasta-o da ajuda que Deus quer lhe dar. Ele não vem de Deus. O que vem de Deus? Santo Inácio nos diz: “o Espírito de Deus desperta coragem e força, consolação, inspiração e tranquilidade”. Portanto, confie na calma e na esperança que você sente. Essa é a voz a ser ouvida.

James Martin

Portanto, precisamos confiar em nossa intuição, em nossos olhos, em nosso ouvido e nosso coração, em nossa voz interior, enfim devemos confiar em nós mesmos. Sejamos responsáveis em nossa família, em relação aos procedimentos e orientações determinados pelas autoridades. Tudo isso são medidas prudentes e necessárias, são um esforço para manter as pessoas saudáveis. Saibamos que, em um quadro com tantas indefinições sobre a origem, modos de transmissão, quanto tempo ainda estaremos vivendo essas incertezas, quando poderemos retomar a vida próximo àquilo que consideramos normalidade, a vida tende a ficar pesada.

Muitas coisas foram canceladas
por causa do coronavírus.
O amor não é uma delas.


Pe. James Martins, SJ

Vamos nos fortalecer com as orações para manter a serenidade e a boa qualidade de nosso convívio e do amor familiar. É muito importante não perder o controle das coisas por esgotamento, o que dificultaria as nossas relações.  Como o padre James nos diz, não é momento para buscar culpados, afinal as pessoas infectadas não escolheram isso. O padre também nos lembra de quando Jesus foi perguntado sobre um homem cego de nascença – Evangelho deste 4º Domingo da Quaresma: «”Quem pecou, para que este homem nascesse cego?”. A resposta de Jesus: “Ninguém” (João 9,2). A doença não é uma punição. Então não demonize e não odeie.»

A nossa maior angústia diz respeito a não ter resposta para uma pergunta que o mundo inteiro está se fazendo: “Por que isso está nos acontecendo?” A reposta se encontra no nível do mistério, que está muito além de nossa compreensão e inteligência.

O Papa Francisco admite que estamos vivendo uma provação e reza todos os dias, como fez hoje na missa da Casa Santa Marta. Ele rezou assim, com a simplicidade de sempre, fazendo referência ao fato de não podermos comungar nessa nossa quarentena quaresmal.

Meu Jesus, eu creio que estais presente no Santíssimo Sacramento. Amo-vos sobre todas as coisas, e minha alma suspira por Vós. Mas, como não posso receber-Vos agora no Santíssimo Sacramento, vinde, ao menos espiritualmente, a meu coração. Abraço-me convosco como se já estivésseis comigo: uno-me Convosco inteiramente. Ah! não permitais que torne a separar-me de Vós!

Unamo-nos ao Papa em suas orações e em sua confiança na Santíssima Trindade e em Maria:

Ó Maria, Tu sempre brilhas em nosso caminho como sinal de salvação e esperança. Nós nos entregamos a Ti, Saúde dos Enfermos, que na Cruz foste associada à dor de Jesus, mantendo firme a Tua fé. Tu, Salvação do povo romano, sabes do que precisamos e temos a certeza de que garantirás, como em Caná da Galileia, que a alegria e a celebração possam retornar após este momento de provação. Ajuda-nos, Mãe do Divino Amor, a nos conformarmos com a vontade do Pai e a fazer o que Jesus nos disser. Ele que tomou sobre si nossos sofrimentos e tomou sobre si nossas dores para nos levar, através da Cruz, à alegria da Ressurreição. Amém. Sob a Tua proteção, buscamos refúgio, Santa Mãe de Deus. Não desprezes as nossas súplicas, nós que estamos na provação, e livra-nos de todo perigo, Virgem gloriosa e abençoada.

Convido a quem me acompanhou até aqui que reze comigo pedindo a graça da nossa confiança em Cristo Jesus para que em nossa vida e nossa morte sejamos iluminados pela Luz do Santo Espírito. E assim, também confiantes em que Maria intercede por nós, “em nossas agonias e angústias, dando-nos seu Filho Jesus, como remédio para nossa vida.”, como diz a bela oração à José de Anchieta, peçamos sua proteção neste momento tão escuro dessa pandemia realmente assustadora. Amém!

Brasília, 22 de março de 2020.


Joana Eleuthério é graduada em Letras. Servidora pública aposentada da Secretaria de Estado de Planejamento, Orçamento e Gestão do Distrito Federal.

Imagem: Cose vecchie abbandonate – Fratel Venzo, 1966

Espiritualidade cristã Justiça e Paz Saúde

Joana Eleuthério Visualizar tudo →

Caminhante sem nenhuma linearidade e com variados interesses.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: