Poderes

Simone Furquim Guimarães

A leitura do Evangelho proposta pela igreja hoje é Mc 16,15-18. Faz parte do trecho final do Evangelho. Jesus ressuscitado, antes de ser arrebatado ao céu (v.19), dá instruções e poderes aos onze discípulos: “Ide por todo mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura”. A missão é universal, é estendida a toda criatura (v.15).

É importante compreender o método que Jesus usou em sua missão evangelizadora porque, infelizmente, o jeito de Jesus evangelizar muitas vezes foi esquecido e deturpado. Lamentavelmente o que foi feito por muitos cristãos e cristãs durante grande parte da história do cristianismo e até os dias atuais não foi evangelização, mas sim proselitismo.

Proselitismo é o esforço contínuo para converter alguém, fazendo com que essa pessoa pertença à determinada igreja. Olhando às práticas e discursos de Jesus não há em nenhum momento proselitismo. Durante sua missão, Jesus, que era judeu, quis acolher, inserir, libertar, dar dignidade às pessoas que eram marginalizadas, vistas como pecadoras e impuras. Por isso mesmo os primeiros cristãos escrevem que o que Jesus fez foi a Boa Notícia, ou seja, o Evangelho.

E Jesus quer que seus discípulos/as, e nós hoje, façamos o mesmo: “Ide por todo mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura”. Essas instruções são confirmadas nos Atos dos Apóstolos 1,1-1: Jesus esteve quarenta dias com os discípulos ensinando sobre a missão cristã. Na numerologia judaica, quarenta significa tempo de preparação. Não é tempo cronológico. É tempo de Deus, tempo oportuno, do grego, “kairós”.

A Palavra de Deus nos prepara ainda hoje, tempo oportuno, para perceber os sinais e anunciar o Evangelho. Jesus nos dá “poderes” para seguir em missão. Frei Carlos Mesters, teólogo e biblista, propõe a nós uma interessante possiblidade de interpretação desses poderes nas situações que acontecem em nossas vidas e nas comunidades, para ele:

  • expulsar demônios: é desconstruir sistemas de poder que estraga a vida, pois causa discriminação e exclusão. Muita gente mudou para melhor depois que entrou para a comunidade e passou a viver a Boa Nova da presença de Deus;
  • falar línguas novas: é a unidade na diversidade. Que saibamos dialogar com o outro, com o diferente;
  • vencer o veneno: da fofoca, do boato, pois envenenam a convivência e as relações e confundem a realidade. Vide tantas informações sem fontes verídicas veiculadas pelos grandes meios de comunicações e redes sociais.
  • curar doentes: o que mais favorece a cura é a pessoa sentir-se acolhida e amada. A exemplo de Jesus, resgatemos também a dignidade das pessoas, sobretudo as mais injustiçadas pela desigualdade social.

Que o mesmo Jesus que viveu na Palestina e lá acolhia os pobres do seu tempo, continue vivo no meio de nós, através de nós! Amém!


Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI).

Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Evangelho de Marcos

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