Diálogo verdadeiro

Simone Furquim

Bailou no ar
O ecoar de um canto de alegria
Três princesas africanas
Na sagrada Bahia
Iyá Kalá, Iyá Detá, Iyá Nassô
Cantaram assim a tradição Nagô
(Olurun)

Olurun! Senhor do infinito!
Ordena que Obatalá
Faça a criação do mundo
Ele partiu, desprezando Bará
E no caminho, adormecido, se perdeu
Odudua
A divina senhora chegou
E ornada de grande oferenda
Ela transfigurou

Cinco galinhas d’Angola e fez a terra
Pombos brancos criou o ar
Um camaleão dourado
Transformou em fogo
E caracóis do mar
Ela desceu, em cadeia de prata
Em viagem iluminada
Esperando Obatalá chegar
Ela é rainha
Ele é rei e vem lutar

(Ierê)
Iererê, ierê, ierê, ô ô ô ô
Travam um duelo de amor
E surge a vida com seu esplendor

A criação do mundo na tradição Nagô
(Neguinho da Beija-flor, Mazinho e Gilson)

Os povos da África, assim como nós cristãos têm sua história da criação. São relatos múltiplos e ricos de um universo povoado de orixás, cores, cheiros e batuques. O Deus do imaginário das comunidades negras é um Ser supremo, criador de tudo, do céu e da terra, aquele que diz e faz. Este Deus com diversos nomes genéricos na cultura afro, tem pontos de aproximação com o nosso Deus.

Mas, vocês já ouviram falar deste mito da criação? Já ouvimos falar de outros mitos de criação, por exemplo, dos povos indígenas, mas não conhecemos a história do povo afro porque não estudamos isto nas nossas escolas. Só com a Lei Federal 10.639/2003 é que passou a estabelecer o ensino de história e cultura africanas no ensino brasileiro. Mas será que esta lei está sendo efetivamente cumprida?

Tratar da questão sobre o respeito à diversidade religiosa e é importante, pois diz respeito ao diálogo inter-religioso, respeito aos/às irmãos/as de outras religiões, sobretudo de matriz africana, como no candomblé.

Isto não significa que, ao entrar em diálogo, coloquemos de lado as (nossas) próprias convicções religiosas. Afinal o papa Francisco na encíclica Evangelii Gaudium nos ensina que a diversidade é bela.

Assim, quanto mais nos fincamos na tradição católica, mais estamos em condições para um diálogo verdadeiro, sem o risco, de longe, de enfraquecer a fé. Todo diálogo inter-religioso fundamenta a certeza/crença comum de que todos/as somos filhos/as do mesmo Deus.

No tempo de Jesus, havia muitas leis que separavam as pessoas. As leis da pureza determinavam quem estava mais próximo de Deus e quem estava mais distante. Embora não faça parte da nossa cultura o sistema do puro e do impuro, ainda há muitas barreiras e preconceitos que separam e dividem as pessoas nos diversos ambientes sociais.

Um dos desafios existentes na comunidade de judeus-cristãos retratada pelo Evangelho de Mateus foi de superar as divisões existentes entre judeus e estrangeiros e a aceitação quanto à universalidade da Boa Nova de Jesus. No início, entendiam que o Evangelho deveria ser anunciado somente para as “ovelhas da casa de Israel” (Mt 10,6), que para eles eram os judeus.

Com o amadurecimento e tomada de conscientização, a comunidade de Mateus passou a entender que a Boa Nova deve ser universal: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulos, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei” (Mt 28,19-20).

Esta acolhida a outros povos e etnias resgata o universalismo ensinado por Jesus e vivido por São Paulo e sua equipe nas cartas aos Gálatas 3, 23-29. O que Paulo afirma é que a condição para ser filho de Deus não é mais a obediência à Lei, mas ter fé.

Axé significa princípio da vida ou energia vital que provém de Deus pai-mãe. A tradição afro considera que a criação, em sua totalidade, seja os seres humanos, os animais, os vegetais, os minerais e os objetos. Todos podem transmitir esta vitalidade, e manter a ordem cósmica.

Sendo assim, a Bíblia, para a gente negra, deve ser um instrumento que protege, mantém e promove a vida. Está em consonância com o Evangelho de Jesus, nas palavras de João: “eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundância” (Jo 10,10)!!

Oração
Pedro Casaldáliga

Em nome do Deus de todos os nomes
Javé
Obatalá
Olorum
Oió.

Em nome do Deus, que a todos os Homens
nos faz da ternura e do pó.

Em nome do Pai, que fez toda carne,
a preta e a branca,
vermelhas no sangue.

Em nome do Filho, Jesus nosso irmão,
que nasceu moreno da raça de Abraão.
Em nome do Espírito Santo,
bandeira do canto
do negro folião.

Em nome do Deus verdadeiro
que amou-nos primeiro
sem dividição.

Em nome dos Três
que são um Deus só,
Aquele que era,
que é,
que será.

Em nome do Povo que espera,
na graça da Fé,
à voz do Xangô,
o Quilombo-Páscoa
que o libertará.

Em nome do Povo sempre deportado
pelas brancas velas no exílio dos mares;
marginalizado
nos cais, nas favelas
e até nos altares.

Em nome do Povo que fez seu Palmares,
que ainda fará Palmares de novo
– Palmares, Palmares, Palmares
do Povo!!!


Simone Furquim Guimarães é graduada em Teologia. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI).

Justiça e Paz Palavra de Deus

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