Inácio de Loyola: da itinerância geográfica ao percurso interior (II)

Adroaldo Palaoro, SJ

2º movimento
Montserrat – Manresa – Cardoner

Em Loyola, Inácio havia experimentado uma primeira conversão, ao mudar radicalmente a direção de suas pulsões primárias (agressividade), mas ainda havia muito por transformar.

Seu ego havia substituído o ideal cavalheiresco pelo ideal de santidade, mas a idealização do eu continuava sendo o centro de gravidade.

A condição de doente grave, que quase o levou à morte, mobilizou dimensões muito profundas de sua vida. Todos sabemos bem de que maneira a situação de enfermidade conduz-nos de modo inevitável a uma situação de indefesa, de fragilidade e de impotência de grande envergadura e intensidade. Isso traz, como consequência, a quebra de muitas estruturas mentais e psicológicas, abrindo possibilidades a um novo acesso ao “eu profundo”, bem como o emergir de novos dinamismos e forças criativas, antes desconhecidas ou reprimidas por um estilo de vida estreito e limitado.

Inácio vai se servir desse acesso à interioridade para impulsionar uma re-estruturação fundamental em sua dinâmica de personalidade.

Mas foi em Manresa que se deu a 2ª conversão, ou seja, a passagem da vontade de conquista à atitude de receptividade. Essa transformação do “auto-centramento” que possibilita a abertura à alteridade e a entrada no regime do amor, supôs para Inácio um processo denso, doloroso e extremamente complexo, que é o que experimentou de modo particularmente intenso no período de Manresa.

É ali onde Inácio assume outra posição frente a si mesmo, frente à sua vivência cristã e frente ao mundo. É ali que acontece o acesso a uma autêntica experiência mística, que o   marcará de modo fundamental e qualificará de modo eminente sua dinâmica espiritual para toda sua vida.

A partir desse momento, Inácio troca radicalmente seu modo de vida: volta para a realidade, sai ao encontro do mundo, dos outros, da criação, enfim, de uma realidade histórica que vai interpelá-lo, solicitar-lhe a dar início a um projeto histórico de dimensões que ele não podia ainda vislumbrar.

As experiências de Manresa permitem uma nova integração e adaptação do eu à realidade. Surge assim uma nova identidade, integrada agora em um marco religioso.

Do “Iñigo” dos ideais cavalheirescos passamos deste modo ao “Inácio” que todos conhecemos.

Manresa é o lugar onde o Espírito vai educar Inácio na ciência do discernimento dos espíritos, o discernimento como maturidade cristã no amor. Inácio passa do modo “indiscreto” de amar (quase apunhala o mouro por não aceitar a virgindade total de Maria, cf. Aut., n. 14) a um amor “discernido”, ou seja, fundamentado em Deus e motivado por ele; o Deus que é Senhor de seu castelo interior onde entra e sai quando quer e cuja voz saberá reconhecer e distingui-la de outras vozes, tanto na vida interior como na vida apostólica.

Costuma-se distinguir três períodos da vida de Manresa: o da paz, o das grandes lutas internas devido os escrúpulos, até pensar em suicídio, e o dos grandes dons místicos. Inácio está só, sem acompanhante, provando e sofrendo os resultados de atos penitenciais pouco discernidos. Mas aprende que o mal espírito atua através de perturbações e inexperiências diversas, que o quer afastar do caminho da conversão pela regressão no caminho espiritual; procura cansá-lo para que farto de tudo retorne à casa de seu irmão. A luz de Deus lhe faz descobrir o sentido de todo este processo orientado a fazê-lo desistir de seus propósitos; os escrúpulos eram um simples meio para esgotá-lo e fazer-lhe perder a claridade e a confiança em Deus.

Descobre os enganos (EE. 139) e que a solução está em avançar com firmeza. Deus é a garantia, e as dificuldades são mais aparentes que reais; na verdade, não tem consistência alguma.

Inácio se mostra novamente como que dotado de grande capacidade de introspecção, de conhecimento de si mesmo, e ao mesmo tempo como uma criatura dócil aos sinais do Espírito, fiel a esse Deus que guia a cada um (Aut. n. 27). Segundo Laínez, Inácio denominava Manresa “sua Igreja primitiva” e a iluminação do Cardoner tem muito em comum com a experiência de Jesus Ressuscitado.

A experiência da iluminação em Cardoner, sem dúvida foi a experiência central de toda a vivência mística inaciana e a chave de interpretação para compreender as transformações que aconteceram em sua estrutura interna e em seu modo de enfrentar a vida e a realidade que o cercavam.

Em Cardoner, Inácio não vê nada novo, não se apresenta diante de seus olhos nenhuma realidade que antes lhe fosse desconhecida. É a realidade, a mesma realidade de sua pessoa e de tudo que o cerca, que é percebida de um modo radicalmente novo, tanto “que lhe parecia como se fosse outro homem e tivesse outro intelecto em relação ao que tinha antes”.

Trata-se, pois, de uma “iluminação” de si, da vida e do mundo que vai deixar já uma marca indelével em seu ser para toda a vida, e que vai continuar sendo operativa em sua dinâmica pessoal, modificando, compensando, impulsionando os aspectos de sua personalidade. É essa experiência fundamental e fundante na vida de Inácio, o único lugar autenticamente revelador do que foi, a partir daí e para sempre, a sua dinâmica interna. Dinâmica integral e integradora.

As consolações místicas da última etapa em Manresa, e sobretudo a ilustração do Cardoner, realizam em Inácio uma verdadeira “transformação interna”, uma “completa regeneração interior”. Disso resulta:
“Lhe parecia como se fosse outro homem” (Aut. 30); “Todas as coisas lhe pareciam novas”(Aut. 30);
“Começou a ver com outros olhos todas as coisas” (Lainez);
“Manifestaram-se-lhe os princípios de todas as coisas”, “como se houvesse visto as razões ou causas de todas as coisas” (Nadal).

A partir da altura de sua elevação mística, o mundo, as criaturas, tomam outro aspecto ao oferecer uma nova perspectiva. “Transcendendo-se a si mesmo”, Inácio alcança a contemplação de Deus na criação do mundo. “Uma vez se lhe representou no entendimento, com grande alegria espiritual, o modo com que Deus havia criado o mundo. Parecia-lhe ver uma coisa branca da qual saíam alguns raios e dela fazia Deus luz” (Aut.29);imagem que mais tarde recolherá em seus Exercícios ao propor esta consideração:
“Olhar como todos os bens e dons descem do alto… assim como do sol descem os raios…” (EE. 237).

A oposição Deus-mundo, Criador-criatura, fica superada no momento em que se chega a Deus: a transcendência de Deus o leva à aceitação do mundo.

O “ver a Deus em todas as coisas” conduz à explicação última do mundo…

Este é o progresso que Inácio irá realizando em sua vida interior:
“Sempre crescendo em devoção, isto é, em facilidade de encontrar a Deus e agora mais que em toda sua vida. Sempre, a qualquer hora que queria encontrar a Deus, O encontrava” (Aut. 99).

Por isso, para Inácio, sua oração será eminentemente dinâmica e orientada à prática; sua mística não é a de um quietismo inativo, mas a “mística de serviço” que o impulsiona a ser contemplativo na ação.

Tal é a riqueza e a originalidade vivida por Inácio em Manresa; tal experiência se constituirá como um “manancial” inesgotável para onde se dirigirá continuamente, ao longo de sua vida.

Portanto, para poder viver uma sadia integração, com nossas sombras e negatividades, é necessário descobrir nosso centro interior, o núcleo de nosso ser, estar ligados ao âmago do coração, o coração profundo, aí permanecer e viver a partir daí. Então seremos reconfortados, as paredes da fortaleza tornam-se pouco a pouco inúteis e acabam por ruir, a couraça pode ser retirada, temos a segurança mais essencial, porque sabemos com certeza que o coração encontra sua fonte em Deus.

Conhecer e assumir os próprios recursos profundos, a qualidade essencial, os talentos, é frequentemente mais difícil que aceitar as zonas de sombra. Muitos cultivam uma falsa humildade, permanecem muito temerosos diante de suas potencialidades, sem ousar ir até o fundo do que são, do que poderiam ser.

A autodepreciação, a falta de confiança em suas capacidades e a inércia resultante são um veneno que bloqueia o impulso criativo de vida.

Tomar consciência das potencialidades, da qualidade fundamental, dos dons, dar-se tempo para descobrir sua medida específica, manifestá-la, não se situar aquém nem além, ir até o fim do que se é capaz de viver, tudo isto faz parte integrante da escolha de vida.

A espiritualidade inaciana pode proporcionar, a homens e mulheres imersos nesta sociedade atual e neste contexto cultural, uma experiência do Absoluto de Deus. Tal experiência não exige como condição necessária ou como caminho de encontro com a Transcendência, o abandonar ou retirar-se do mundo.

Mestre Inácio nos ensina a “encontrar, a experimentar Deus em todas as coisas… a Ele em todas amando e a todas n’Ele”– sua frase preferida. Segundo esta espiritualidade, Deus emerge na densidade das coisas, das pessoas e dos acontecimentos.

É no mundo e na história que Ele deseja ser ouvido, acolhido, servido e amado. A vivência desta espiritualidade impede fugir do mundo para encontrar e experimentar Deus, como igualmente proíbe passar superficialmente pelo mundo sem descobrir e experimentar nele a presença amorosa do Criador e Senhor. Devemos, pois, ser contemplativos na ação.


Adroaldo Palaoro é padre jesuíta.

Imagem: Charles Henin

Espiritualidade Hagiografia

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