Inácio de Loyola: da itinerância geográfica ao percurso interior (I)

Adroaldo Palaoro, SJ

Ao cabo de cinco séculos, Santo Inácio continua sendo uma figura única e paradigmática. O marcante nele está no fato de ter sido capaz de se situar, de maneira original, no contexto de mudanças de seu mundo e de seu tempo. Ele é considerado o santo dos “tempos novos” que despontavam perante seus olhos deslumbrados. Novos valores emergiam, novos modos de pensar e sentir, de viver.

Coube a Inácio viver numa época europeia de efervescência ideológica e de inquietação religiosa.

Repentinamente as fronteiras desapareceram, varridas pelos ventos que impeliam as caravelas espanholas para o ocidente, os galeões portugueses para o sul e para o oriente.
E não basta que Cristóvão Colombo, Vasco da Gama e Magalhães dilatem o espaço geográfico: Copérnico revela que os homens não passam de passageiros de uma das naus de uma frota inumerável. A terra se infla de novos espaços, a história se projeta para novos futuros.

Quando Iñigo de Loyola vem ao mundo, em 1491, Erasmo tem vinte e cinco anos, Maquiavel vinte e dois, Copérnico dezoito, Michelangelo dezesseis, Thomas Morus onze, Lutero oito…
No ano seguinte (1492), Cristóvão Colombo oferece aos soberanos católicos da Espanha, com a América, seu ouro e suas perspectivas ilimitadas, a supremacia mundial.

É nesse contexto, onde quase tudo estremece ou germina, que entra em campo o filho dos senhores de Loyola. Ele não poderia deixar de contemplar de modo novo o próprio ser humano, seu lugar no universo e sua relação com Deus. A infância de Iñigo de Loyola pertence ao séc. XV, ainda marcada pela mentalidade feudal, mas já iluminada pela nascente alvorada do Humanismo, do Renascimento.

Sua juventude e idade madura entram em cheio no séc. XVI.

Inácio é um homem da mudança, da transição no tempo, dos tempos novos, agitados, turbulentos, de transbordantes novidades que punham em questão tudo o que até então ele recebera; mas não se fechou a elas, e sim abriu-se ao diferente e novo. Um novo “movimento” começa em sua vida e Inácio passa a viver a aventura de contínuos “deslocamentos”, internos e geográficos.

Loyola – primeiros movimentos em direção à própria interioridade

A grande originalidade da história e da vida de Inácio não é a que ocorreu fora, mas a que aconteceu dentro dele mesmo. Sua principal contribuição à história da humanidade não é o que pessoalmente ele realizou em suas atividades de apostolado e de governo, ou sua obra exterior mais conhecida, a Companhia de Jesus, mas a descoberta de seu “mundo interior” e, através dela, a descoberta desse continente sempre inexplorado e surpreendente, que é o coração de cada ser humano, onde acontece o mais importante e decisivo em cada pessoa.

Tudo começou em 20 de março de 1521: uma bombarda de canhão em Pamplona, um translado até sua casa em cima de uma mula, uma dupla operação cirúrgica em Loyola e alguns livros para matar o tédio da convalescença e para aliviar as torturas da reabilitação…, tais foram a mediação histórica de que Deus se valeu para irromper na vida daquele homem. Tudo começa a ser percebido como novo: “…lhe pareciam novas todas as coisas” (Aut. 30).

A partir deste momento toma, como ponto de partida, o protagonismo ativo e criativo de Deus em sua história pessoal; tudo começou com a leitura de alguns textos (“Vita Christi” e “Legenda Áurea”).

Foi, para ele, a primeira porta de acesso ao Mistério.

“Como era muito dado a ler livros mundanos e falsos,
que costumam chamar de cavalarias,
sentindo-se melhor, pediu que lhe arranjassem alguns deles para passar o tempo.
Mas naquela casa não se encontrou nenhum dos que costumava ler.
Deram-lhe então uma Vita Christi e um livro da vida dos Santos romanceada.
Lendo-os muitas vezes, ia-se afeiçoando lentamente ao que ali estava escrito.
Mas, deixando-os de ler, algumas vezes parava a pensar no que havida lido” (Aut. 5 e 6)

Da “leitura do texto”  à “leitura de si mesmo”: este é o primeiro deslocamento que Inácio experimenta em seu interior. Inicia-se uma travessia do “texto escrito” ao “texto da vida”. Leitura provocativa e questio-nadora, pois ela desmonta uma estrutura fincada em falsos fundamentos e desperta o desejo de construir a vida sobre uma nova base. Uma leitura conflituosa, marcada por resistências e medos…, mas, ao mesmo tempo, uma leitura atenta e centrada, com pausas para reflexão sobre as reações que ela despertava.

Leitura que o compromete com outra escrita, carregada de sentido, valor e utopia.

Imobilizado e impossibilitado fisicamente, Inácio se surpreende a si mesmo escavando e trazendo à tona toda sua capacidade de aventura neste continente inexplorado (o de seu mundo interior e o da ação de Deus nele). Enquanto seus contemporâneos aventuravam-se na descoberta de novas terras, seu descobrimento não é menos importante, e é de maior alcance humano que o daqueles. Sem ruído, sem galeões, sem dinheiro, sem pólvora, sem armas, sem sangue, sem violência, sem vencidos e humilhados, Inácio abrirá caminhos nesse continente interior, próprio e de cada ser humano, “conduzido, sabiamente ignorante”  do que vai encontrar, deixando-se levar e observando como é levado.

Inácio percebia que a “leitura” era uma forma de harmonizar e ordenar seu mundo interior. Ele descobre que toda pessoa possui dentro de si uma profundidade que é seu mistério íntimo e pessoal.

“Viver em profundidade” significa “entrar” no âmago da própria vida, “descer” até às fontes do próprio ser, até às raízes mais profundas. Aí se pode encontrar o sentido de tudo “aquilo que se é, daquilo que se faz, se espera, busca e deseja”.

A própria interioridade é a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que cada pessoa tem, para encontrar segurança e caminhar na vida superando as dificuldades e os inevitáveis golpes na luta pela vida. É no “eu mais profundo”  que as forças vitais se acham disponíveis para ajudar a pessoa a crescer dia-a-dia, tornando-a aquilo para o qual foi chamada a ser. Trata-se da dimensão mais verdadeira de si, a sede das decisões vitais, olugar das riquezas pessoais, onde ela vive o melhor de si mesma, onde se encontram os dinamismos do seu crescimento, de onde partem as suas aspirações e desejos fundamentais, onde percebe as dimensões do Absoluto e do Infinito da sua vida.

A partir da interioridade, tudo se transfigura, tudo tem sentido, tudo vem carregado de veneração e sacralidade. Viver a interioridade é desenvolver a nossa capacidade de contemplação, de compaixão, de assombro, escuta das mensagens e dos valores presentes no mundo à nossa volta.

As pessoas mais criativas e inovadoras são aquelas que fizeram a travessia para as profundezas do próprio coração. A interioridade des-velada estimula a solidariedade, tornando possível a compaixão e o compromisso ativo que tocam a realidade em seu núcleo central, para transformá-la, desencadeando um movimento de profundas mudanças.

O ser humano “pós-moderno” perdeu a direção da interioridade; dentro dela há um “condomínio” onde portas se fecham, chaves se perdem, segredos são esquecidos… e mergulha na mais profunda solidão estéril. Vive perdido dentro de si mesmo e não consegue colocar as grandes perguntas existenciais: “de onde venho? quem sou? para onde vou? quê devo fazer?…” Muitos já não conseguem mais recolher-se e voltar para “dentro” de si, para recuperar o centro gravitacional de sua vida, o ponto de equilíbrio interior.

Somos vítimas da chamada “síndrome da exteriorização existencial”. Temos dificuldades de introspecção, silêncio, reflexão, contemplação… Não aprendemos a velejar nas águas da interioridade.

Vivemos um profundo “déficit de interioridade”, em que a superficialidade se apresenta como ideal de vida e as grandes aspirações se reduzem ao consumismo e ao narcisismo. Esta desarmonia interna é exteriorizada gerando uma desarmonia na relação com os outros, com a natureza e com o Criador.

Este é o desafio que nos inquieta: é preciso “conhecer-se a fundo”, ou seja, ter a experiência de si mesmo, do próprio íntimo, do centro do ser, da região profunda da qual sem cessar tiramos, como de um poço, a água viva, a energia, as certezas para viver.

Não é comum prestar atenção ao que acontece no território interior. São grandes os riscos de se viver em horizontes tão estreitos. Tal estreiteza aprisiona a solidariedade e dá margem à indiferença, à insensibilidade social, à falta de compromisso com as mudanças que se fazem urgentes. O próprio território se torna uma couraça e o sentido do serviço some do horizonte inspirador de tudo aquilo que se faz.

Ampliar os espaços do coração implica agilidade, flexibilidade, criatividade, solidariedade e abertura às mudanças e às novas descobertas. Algumas fortalezas e seguranças pessoais caem quando os “espaços interiores”, abrasados e iluminados pela força do Espírito, começam a romper as paredes e se encarnam em “lugares exteriores”, marcados pela beleza e encantamento.

Não tem sentido transitar pelos “territórios” por onde Deus transita se nossa mente permanece estreita, se nosso coração continua insensível, se nossas mãos estão atrofiadas, se nossa criatividade sente-se bloqueada… Ampliar os espaços interiores é convite a sonhar alto, a pensar grande, a aventurar-se… ousar ir além, lançar por terra nosso modo arcaico de proceder, romper com os espaços rotineiros e cansativos.


Adroaldo Palaoro é padre jesuíta.

Imagem: Charles Henin

Espiritualidade Hagiografia

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