Inácio de Loyola: da itinerância geográfica ao percurso interior (III)

Adroaldo Palaoro, SJ

3º movimento
Jerusalém – Paris – Roma

Santo Inácio de Loyola foi um homem universal: basco, castelhano, catalão, parisino, veneziano, romano e europeu. Seu coração era tão grande como o mundo, sempre livre para a maior glória de Deus.
Suas preocupações e suas cartas estão cheias de nomes de toda a geografia universal até então conhecida, desde o Congo ao Brasil, desde Espanha até a China ou Etiópia.

O basco Inácio de Loyola alcançou sua plenitude humana e divina precisamente porque foi capaz de abrir-se à universalidade de todas as terras, de todos os povos, sem distinção de raças nem exclusão de ninguém.

Foi norma sua que “o bem quanto mais universal, mais divino”. Iluminado pela luz divina, faz-se peregrino de Deus. Peregrinar é avançar pelos caminhos do mundo, conhecer povos e costumes, escutar ideias novas e opiniões diferentes, sentir-se solidário com outros caminhantes.

Assim se dilataram infinitamente seus horizontes.

Depois de muitos contratempos, finalmente Inácio pisa os “santos lugares”, na Palestina, onde pensava permanecer. Tempo de muitas consolações e de profunda identificação com Jesus Cristo. Em sua breve estadia na Terra Santa, Inácio ficou muito marcado com a imagem do Cristo companheiro, que o chama a trabalhar com Ele. Em cada canto daquela terra ele “via”  Jesus ocupado em estabelecer o Reino do Pai. E não estava só, mas com o grupo dos apóstolos, companheiros de Jesus e companheiros entre si.

O chamado de Jesus feito aos apóstolos e o posterior envio deles para a missão, são duas páginas do Evangelho que marcaram profundamente Inácio e que se encontram refletidas nas meditações mais tipica-mente inacianas: o chamado do Reino, as Duas bandeiras, os Três binários.

S. Inácio tem consciência de que é o Rei Eterno que chama todos pessoalmente e os torna “companheiros”  d’Ele para o trabalho de construção do Reino do Pai. É o Senhor que conversa com seus colaboradores e amigos e os envia em missão.

A conversão, para Inácio, passa a significar experiência de fronteira: rendição de uma fortaleza, troca de bandeira e de senhor no próprio coração, oferecimento de sua pessoa ao “Senhor” que se dá no seguimento, vontade de situar-se com Ele nos “extremos” humanos…

A fronteira, para ele, passa a ser terra privilegiada onde nasce o “novo” por obra do Espírito.

É assim que o “peregrino”  Inácio, “sozinho e a pé”, irá percorrer os caminhos da Europa, situando-se nas fronteiras da humanidade, em busca da comunhão universal; esta será sua nova visão, seu lugar teológico, sua nova missão…

É significativo que o último lugar venerado por ele e que ele leva como a última recordação de Jerusalém seja o lugar da Ascensão do Senhor, quando Ele “deixa” a terra e envia os Apóstolos a anunciar o Evangelho a toda criatura.

“No Monte Olivete está uma pedra, da qual subiu o Senhor aos céus e na qual se vêem ainda agora suas pegadas impressas: isso era o que ele queria tornar a ver. Depois de ter orado com intensa consolação, veio-lhe o desejo de ir a Betfagé. Estando lá, recordou-se não ter fixado bem, no Monte Olivete, de que parte estava o pé direito e de que parte o esquerdo. E voltando…” (Aut. 47)

A Ascensão é o lugar onde vai acontecer uma mudança profunda na vida de Inácio: ele parte para a missão. Ele deixa a Terra Santa como os Apóstolos; até o fim da vida ele será o peregrino de Cristo.

Ele é arrancado de tal experiência para adentrar-se em um caminho de seguimento de horizontes desconhecidos, mas centrado no compromisso apostólico da missão na e da Igreja.

Ele “passa” da particularidade de um lugar para a universalidade da missão.

O desejo de seguir e servir a Cristo abarca o mundo todo.

O itinerário de Inácio não é unicamente geográfico. Mais que um simples deslocar-se, trata-se de um modo de viver e de situar-se no mundo. A identificação com Jesus Cristo vai crescendo à medida que ele vai pisando, com muita devoção, os mesmos lugares por onde passou seu novo Senhor.

Depois de ter posto literalmente seus pés sobre as pegadas de seu Senhor e beijar o solo que Ele havia pisado, Inácio compreende que a terra de Cristo era o vasto mundo de seu tempo. Desde então, para além do deserto e da peregrinação a Jerusalém, abre-se diante de seus olhos, outro caminho.

Decididamente Inácio  volta-se para o mundo, para esse borbulhar de acontecimentos sócio-político-religiosos, no qual reconhece o lugar da Encarnação.

Buscando considerar todas as coisas em sua referência a Deus, Inácio quer servi-Lo em toda circunstância. Dado que seu Criador e Senhor está presente e ativo em todo e qualquer lugar, ele se dirige ao mundo sem temor a nada, seguro de que cada um de seus passos o conduz ao lugar da adoração e do serviço.

Inácio contempla o mundo com Deus; longe de representar um espaço de tentações e de dispersão, o mundo é para ele o lugar do serviço. O olhar que pousa sobre a realidade reacende nele a saudade de Deus e o sentimento de sua presença.

A partir de então, o mundo o aproxima de Deus e a saudade de Deus não o afasta do mundo.

Àqueles que desejam seguí-lo, Inácio lhes propõe um itinerário para “encontrar Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus”: olhar a criação, acolher cada pessoa e cada acontecimento como uma mensagem divina, aceitar a própria história e deixar-se levar por seu dinamismo.

Para fazer-se presente neste vasto mundo, de uma maneira original e criativa, decide “estudar”. Forma-se em Alcalá, a mais vanguardista das universidades da Espanha e depois em Paris, onde conquista o título de Mestre em Artes.

Em Paris se pôs em contato com estudantes de todas as províncias da Europa e ainda do Egito.

Ali se matriculou com um nome novo, no dizer de Ribadeneira, “por ser mais universal”: Inácio.

Na Universidade de Paris confluíam as diversas correntes de pensamento teológico e filosófico: tomismo, escotismo, nominalismo; mas ali se cruzavam também as ideias dos humanistas (Erasmo, Vives, Rabelais), e os estudos jurídicos, matemáticos, físicos e médicos.

O único idioma, o latim, utilizado nas aulas e nos livros, possibilitava o intercâmbio de ideias, experiências e ciência e a intercomunicação universal.

Naquela Universidade ensinavam os mestres de todas as nacionalidades, que eram chamados ali pelo valor de suas publicações e pela fama de seus alunos.  A Europa continuava sendo uma imensa e variada comunidade de saberes, de artes e de ideais.

Tudo isso abria a mente e o coração de Inácio à Europa e aos grandes problemas culturais e religiosos que a sacudiam. Invadido por uma paixão que não lhe dá repouso, Inácio está presente em tudo, sem extraviar-se nunca na confusão das coisas. Tudo lhe interessa e lança-se a caminho sempre que se trata de servir a seu Senhor: os pobres em seus apuros; os movimentos sociais,culturais, políticos e religiosos de seu tempo, que põem a Europa em efervescência, assim como os novos desafios do Novo Mundo apenas descoberto…

Compartilha sua experiência com um grupo de companheiros universitários, despertando neles o mesmo desejo de se colocar a serviço do verdadeiro Senhor.

Mesmo durante o período de l541 até 1556, ano de sua morte, quando se instalou em Roma, continua sendo o peregrino que escolheu ser. A partir de seu pequeno quarto, continua estando presente em todos os pontos do mundo onde algo novo se prepara.

Sempre em marcha, sem encurtar os passos, o peregrino Inácio avança como homem livre, sem deixar-se aprisionar por nada nem por ninguém, aberto aos acontecimentos, pronto a servir a Deus ali onde O encontra. A peregrinação interna e geográfica o torna mais humano, com maior visão, grandes desejos.

E a “Narrativa do Peregrino” nada mais é do que o relato da admirável aventura espiritual e cultural de um homem sincero e obstinado, livre e puro, sempre empenhado em discernir nos “sinais dos tempos” aquilo que vêm de Deus (para acolhê-los e prolongá-lo), e aquilo que vem do mal (para rejeitá-lo).

O olhar de Inácio para seu tempo e seu mundo pode nos ajudar a nos situar melhor e mais lucidamente no nosso. Também nós estamos vivendo profundas mudanças sociais, religiosas, culturais… que provavelmente não são de menor porte que as do Renascimento.

Ouve-se dizer hoje, com frequência, que estamos assistindo ao fim de uma época e ao princípio de outra; emergem novas formas de cultura, entendida como novos modos de relacionamento do ser humano com os outros e com o mundo. Os modos de pensar e de sentir em que vivíamos e estávamos instalados parecem decompor-se aos nossos olhos, ao passo que emergem por todos os lados, dispersos, sem que se veja claramente o perfil, mundos novos, novos modos de apropriar-se do mundo e habitá-lo, novas culturas que nos interrogam, solicitam e inquietam.

Estes nossos tempos, novos e turbulentos, pedem de todos nós, críticos, inquietos e vigilantes, uma constante re-leitura dos novos “sinais” que surgem, a necessidade de viver em estado de vigilância permanente, capaz de re-analisar tudo o que se vê, e decidir a seu respeito no discernimento.

Se alguém se mantém constantemente de olhos abertos diante do que está vivendo, como fez Inácio, certamente estará assumindo uma atitude ativa e acolherá tudo o que humaniza e rejeitará tudo o que desumaniza.        


Adroaldo Palaoro é padre jesuíta.

Imagem: Charles Henin

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Sou bibliotecário desde 1985. Nasci em Belém do Pará, moro em Brasília.

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