O deserto e as tentações

Joana Eleuthério *

As três tentações, que o texto evangélico do primeiro domingo da Quaresma (Lc 4,1-13) nos traz, caracterizam as principais fragilidades do ser humano: o desejo de posse e poder e a imensa vaidade.

Jesus, uma vez batizado por João Batista e cheio do Espírito Santo, ouve a voz do Pai: Tu és meu filho muito amado. Nesse momento, o Filho passa a ter mais clareza a respeito de sua missão aqui na Terra como o Deus encarnado no meio de nós. Assim, diante de tamanha responsabilidade, Ele vai para o deserto em oração e silêncio para um diálogo profundo com o Pai. Jesus queria se preparar melhor e se fortalecer para desempenhar de maneira fecunda a divina tarefa de se tornar o Deus humanizado no meio de nós – tão humano como qualquer um de nós – as filhas e os filhos de Deus. Dessa forma, o “Filho Amado” inicia o seu longo jejum de quarenta dias. Em tempo previsível, as suas características humanas começam a manifestar-se pela falta de água e alimentos, pelo frio das noites e pelo sol escaldante dos dias intermináveis. Observando Jesus na solidão daquele deserto sem fim, eu o contemplava esperando conhecê-lo mais internamente para segui-lo como amiga e discípula. Então me deparo com um Jesus faminto, muito humano e fragilizado. Nesse contexto, a humanidade de Jesus chegou me surpreender, mas também me encantou.

Rondando ali por perto, estava o demônio muito atento, aguardando a hora oportuna. Talvez até mesmo duvidando da verdadeira humanidade do Filho de Deus, mas vendo os sinais já visíveis da vulnerabilidade de Jesus. Subitamente o espírito maligno aparece e se aproxima para tentá-lo a partir de três fragilidades humanas tão marcantes em cada um de nós – o desejo de posses, de poder e a vaidade – tentações historicamente tão nossas.

O papa Francisco ensina-nos que as três tentações indicam três caminhos para alcançar a realização humana que o mundo sempre nos propõe – a ganância de possuir, a glória humana, a instrumentalização de Deus – com a promessa de muito sucesso e a ilusão de felicidade. Contudo, esses caminhos estão na contramão do modo de agir de nosso Criador e Pai amoroso e, na realidade, nos separam d’Ele, porque são obras de Satanás.

Em minha contemplação, vislumbro e testemunho pela imaginação e pelo coração, a figura plenamente humana de Jesus naquele árido deserto, percebendo principalmente o seu amor e a sua imensa fidelidade ao Projeto do Pai. Jesus tinha o semblante realmente abatido, certo ar de desalento e tristeza próprios desse ambiente solitário dos desertos, que é pura desolação exterior. Contudo, se a solidão e o silêncio daquelas longas noites e daqueles dias intermináveis somados à total abstinência alimentar enfraquecem o nosso físico, a oração e o jejum promovem a robustez de nosso espírito, proporcionando a consolação interior. — Quando nos esvaziamos de nós mesmos e deixamos que o Espírito Santo preencha todo o nosso espaço interior, transcendemos do próprio corpo e das nossas necessidades básicas. Foi isso que vi acontecer com Jesus ao assumir a sua missão, em sua densa humanidade.

O demônio, cheio de sagacidade e astúcia, fazendo-se grande sedutor disse a Jesus: “Transforme essas pedras em pães e coma logo, Filho de Deus!” Jesus serenamente, respondeu-lhe: “Não é só o pão que alimenta, mas toda palavra que vem de Deus.”

Em seguida, já arrogante e menos sedutor, o demônio diz a Jesus: “Venha até aqui no ponto mais alto destes montes, veja todos os reinos da Terra.  Tudo isso é meu, tudo me foi dado e eu posso dar para quem quiser. De posse de tudo isso, prostrarás diante de mim e me adorarás como o seu senhor.” Mas Jesus disse: Está nas escrituras: “Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele servirás.”

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Refletindo e analisando essas três formas de tentações que o demônio utilizou em sua estratégia, vejo como elas estão presentes em nossa vida. —Na hora da fome, “o meu pirão primeiro”, costumamos dizer. Depois, se sobrar posso ver se alguém mais tem fome… —Na oportunidade de ser e ter mais do que os outros, nem pensamos duas vezes. Nessa segunda tentação, Francisco mostrou-nos como a ambição pela glória humana nos faz arriscar a perder toda a nossa dignidade pessoal. As pessoas rendem-se a essa ambição quando se deixam “corromper” pelos ídolos do dinheiro, do sucesso e do poder, para alcançar a fama, também observou o Papa. Dessa imagem, me vieram todos os nossos cenários atuais, onde esse tipo de indivíduos contribui para a desgraça de nações e dos povos e para o aumento das injustiças e desigualdades sociais.

Na terceira tentação, o demônio então lembrou-lhe de que Jesus era realmente o Filho único e amado de Deus (Mt 3,17). Então disse: “Lança-te daí, Filho de Deus, e não ferirás sequer a unha de seu pé porque as mãos dos anjos te acolherão e te sustentarão. O seu poderoso Pai ordenou que todos eles protegessem você, de tudo e de todos.” Jesus respondeu-lhe: “Está escrito, não tentarás o Senhor, teu Deus.”

Surpresa, percebi o diabo meio desapontado desaparecendo naquele mar de dunas da areia sob os últimos raios de sol. Era quase noite, mas ainda pude ouvi-lo sussurrando para si mesmo que não desistira, mas ficaria atento esperando o tempo oportuno para voltar a atormentar Jesus.

Nesse momento da contemplação, me veio as imagens das circunstâncias em que desafiamos a Deus quando, por exemplo, excedemos em velocidade em nossos carros e, irresponsavelmente, dizemos que é Deus quem está no controle. Ou mesmo quando fumamos, bebemos ou descuidamos da alimentação e das atividades físicas que nos manteriam saudáveis e também destruímos a natureza com total descaso a nossa mãe Terra — tudo porque temos fé e Deus está cuidando de nós.

Em relação à terceira tentação vejo que, como disse o Papa Francisco no texto já citado, estamos pedindo graças que, na realidade, só servem para satisfazer o nosso orgulho e vaidade e não para a glória do nosso Pai cheio de compaixão. Agimos com Deus como aquelas pessoas, que cheias de si e convencidas de sua superioridade que, ao serem abordadas cometendo um ato ilegal ou alguma infração costumam dizer de forma arrogante: “Você sabe com quem está falando?” Ou seja, nessas circunstâncias, irresponsavelmente, abusamos do amor incondicional de Deus por nós.

Na minha oração, peço a verdadeira conversão, a humildade, a lucidez e a capacidade de discernimento frente às tentações diárias de nossa vida. Que o Espírito Santo esteja sempre comigo e que eu permaneça sempre atenta e vigilante para não dar oportunidade para o mau espírito se aproximar para me confundir ou desviar do meu compromisso e da minha missão de filha de Deus. Frágil, amada e batizada.

 

Brasília, 12 de março de 2019

 


* Joana Eleuthério é servidora pública aposentada da Secretaria de Estado de Planejamento, Orçamento e Gestão do Distrito Federal.

Imagem: Tentação de Cristo na montanha — Duccio di Buoninsegna, séc. XIV (The Frick Collection)

Evangelho de Lucas Tempo da Quaresma

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Caminhante sem nenhuma linearidade e com variados interesses.

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