Padre Ricardo Antoncich, SJ (1931 – 2018)

Gina Torres*

No dia 4 de agosto, quando se celebra a festa de São João Maria Vianney, padroeiro dos sacerdotes, faleceu o padre jesuíta Ricardo Antoncich.

Durante todo o dia, relembrei os retiros que participei e as muitas conversas que tivemos nesse quase 40 anos de amizade… Outros amigos também contaram histórias… Nelas se repetiam alguns traços marcantes do padre: excelente pregador de retiros, acompanhante espiritual com ouvidos atentos e orientação delicada e precisa ao mesmo tempo, homem simples e humilde que fez bem a muita gente — e certamente continuará fazendo.

O primeiro retiro dado por ele que participei foi no início da década de 1980, na Casa de Oração de Nova Iguaçu (RJ). No final da mesma década, fiz o retiro de 30 dias no Cenáculo de Belo Horizonte (MG). Daí nasceu uma amizade, um respeito, um carinho que se conservou ao longo da vida.

Ricardo era um jesuíta autêntico: com uma  enorme bagagem humana e intelectual aliada a uma humildade desconcertante. Seus pequenos olhos azuis tinham o dom de ler nossos sentimentos ao mesmo tempo que transmitiam um acolhimento profundo. Uma pessoa centrada no amor de Deus que, portanto, não tinha receio de se relacionar de verdade com outras pessoas. Com ele aprendi que o amor de Deus é incondicional — Ele ama apesar de… tudo e qualquer coisa.

A partir de suas reflexões do Pai Nosso**, preparou pistas de oração para uma manhã, um dia, um fim de semana ou um mês de retiro!  Ensinou-nos a saborear essa oração, sempre nova.

Era muito tímido: descobriu que podia transmitir melhor sua mensagem desenhando. Fazia desenhos no quadro dando aulas ou pregando retiros e prendia a atenção de todos. Tornava-se um gigante…

Com todo seu saber, não tinha sombra de soberba: sendo um dos expoentes da espiritualidade sob a ótica da teologia da libertação, não se valia disso, mas dava os créditos a Gustavo Gutierrez, com quem refletiu sobre muitos temas… Em uma de suas palestras, quando foi aberto para perguntas, uma pessoa disse que já tinha ouvido o nome dele (Antoncich) pronunciado de duas formas – com final “cis” ou “cict” — e perguntou como ele preferia ser chamado. Ele respondeu: Ricardo!

Especializou-se na Doutrina Social da Igreja. Deu palestras para a Comunidade de Vida Cristã (CVX) Brasil, a CVX Peru, o programa de formação MAGIS da CVX latino-americana. Aliás, deu formação para toda uma geração de religiosos, nos vários países da América Latina, assim como latinos vivendo nos EUA.

A vida comum e corrente era fonte de reflexão e aprendizado.

Viajava muito e a alfândega normalmente é demorada com toda aquela burocracia… Ele nos garantia que a passagem para a eternidade não tinha alfândega…

Yo estoy segura de que
no se ha detenido en la aduana,
en su paso hacia la eternidad!

 


* Gina Torres é médica, membro da Comunidade de Vida Cristã.

** ANTONCICH, Ricardo. Quando rezarem digam Pai Nosso. São Paulo: Loyola, 1990. (Experiência Inaciana).

 

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