A lógica do Reino — Lc 13,1-9

Na leitura do Evangelho de hoje (Lc 16,9-15), Jesus fala aos discípulos com críticas dirigidas aos fariseus ali presentes: “Usai o dinheiro injusto para fazer amigos, pois, quando acabar, eles vos receberão nas moradas eternas”; e assim Jesus continua.

Num primeiro momento, as palavras de Jesus podem nos causar estranheza e até certo impacto. Parece que ele está apoiando a corrupção e pregando a injustiça. No entanto, precisamos compreender que Jesus utiliza uma forma de argumentação própria da cultura de seu tempo: primeiro, apresenta a lógica daqueles que são fiéis ao dinheiro e, em seguida, deixa clara sua posição: “Vós não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (v. 13).

Essa afirmação é uma crítica contundente e nos provoca a pensar sobre nossas escolhas: a quem estamos servindo? Ao Deus da vida ou a um sistema que coloca o lucro acima da dignidade humana?

Jesus critica tanto aqueles que enriquecem por meio de práticas injustas quanto os que valorizam mais os bens materiais do que as pessoas. Quando isso acontece, o dinheiro se transforma em senhor da vida, um verdadeiro ídolo. Quem o coloca nessa posição acaba reproduzindo a lógica do acúmulo, do lucro a qualquer preço e da exploração.

Na encíclica Evangelii Gaudium, número 55, o Papa Francisco faz uma crítica semelhante. Ele afirma que criamos novos ídolos quando permitimos que o dinheiro domine nossas vidas e nossas sociedades. E nos alerta: “A crise financeira que atravessamos nos faz esquecer que, na sua origem, há uma crise antropológica profunda: a negação da primazia do ser humano”.

Jesus questiona justamente essa lógica de um sistema que nos faz acreditar que, para sermos felizes e realizados, precisamos possuir cada vez mais. É a lógica do consumo e do mercado transformado em um verdadeiro deus. O mercado chega até a ganhar sentimentos! Quantas vezes ouvimos nos noticiários que “o mercado está nervoso”? Mas, afinal, quem é esse mercado e a quem ele serve? É diante dessa realidade que precisamos recordar a advertência de Jesus: “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro” (v. 13).

Nos versículos 14 e 15, Lucas retoma a atitude dos fariseus, que zombavam dos ensinamentos de Jesus. Diante dessa reação, ele é ainda mais enfático: “Vós sois os que passam por justos diante dos homens, mas Deus conhece os corações; o que é elevado para os homens é abominável diante de Deus” (v. 15).

Deus conhece a origem das riquezas e também as intenções por trás de uma falsa caridade, praticada apenas para construir uma imagem de pessoa justa e generosa. Não basta fazer doações ou realizar boas ações para esconder uma fortuna construída à custa da exploração e do sofrimento de outras pessoas. Essa riqueza é incompatível com a justiça de Deus, pois alimenta a pobreza e a miséria.

Quem acumula riquezas por meio da exploração dificilmente está comprometido com a justiça socioambiental, com o enfrentamento das desigualdades econômicas, da fome e da miséria. É a mesma lógica que sustenta guerras e genocídios motivados pela disputa por territórios, recursos naturais e bens materiais.

Que aprendamos com o Evangelho a servir a Deus, e não ao deus Dinheiro. Que nossas vidas sejam orientadas pela lógica do Reino, que é a partilha, a solidariedade, o amor ao próximo e a fraternidade. E que não reproduzamos a lógica de um sistema consumista e individualista, que coloca o lucro acima da vida, explora os seres humanos e destrói o meio ambiente. Amém!


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Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Ano A — Sábado. 31ª semana do Tempo Comum

Palavra de Deus Simone Furquim Guimarães

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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