Não errar o alvo — Lc 13,1-9
Simone Furquim Guimarães
A leitura do Evangelho de hoje é Lc 13,1-9. Algumas pessoas procuram Jesus para contar-lhe sobre os galileus que foram mortos por Pilatos enquanto ofereciam sacrifícios. Na mentalidade da época, muitos acreditavam que tragédias, doenças e sofrimentos eram castigos de Deus pelos pecados cometidos. Assim, quem sofria era visto como alguém que, de alguma forma, merecia aquele sofrimento.
Jesus, porém, rompe com essa lógica. Ele não atribui a tragédia ao castigo divino, mas aproveita a situação para fazer um chamado à conversão. E repete esse chamado duas vezes. Converter-se significa mudar o pensamento, rever nossas atitudes e transformar nossa maneira de viver e de nos relacionar com as outras pessoas.
O pecado, entendido aqui como “errar o alvo”, não prejudica apenas quem o pratica. Ele também pode destruir a vida coletiva. Por isso, Jesus adverte: “Se não vos converterdes, perecereis todos do mesmo modo” (cf. vv. 3 e 5). Não se trata de um Deus que castiga, mas das consequências das escolhas humanas. Somos responsáveis pelo bem ou pelo mal que produzimos em nossa vida e na sociedade.
À luz do Evangelho de hoje, podemos refletir também sobre o segundo turno das eleições. Jesus nos convida à conversão para que não erremos o alvo, deixando-nos enganar por notícias falsas que alimentam a discórdia, o ódio e a violência. Vemos como essa realidade provoca divisões até mesmo entre os cristãos, inclusive dentro da Igreja Católica.
Quando permitimos que a mentira prevaleça sobre a verdade e que o ódio se sobreponha ao amor, colocamos em risco não apenas nossas relações pessoais, mas também a vida em comunidade e a própria missão da Igreja. Se continuarmos nesse caminho, poderemos perecer enquanto comunidade cristã, enquanto coletivo comprometido com a vida e com a justiça.
Mas, afinal, qual é o nosso alvo?
Jesus se apresenta como o caminho, a verdade e a vida (cf. Jo 14,6). Nos Evangelhos, a verdade não é apenas uma ideia ou um discurso. Ela está ligada à própria vida de Jesus, que permanece fiel ao projeto do Pai. Viver na verdade, portanto, significa assumir esse projeto e produzir frutos de justiça, solidariedade e amor.
O projeto de Deus se fundamenta no amor. Nosso alvo, então, é testemunhar esse amor no mundo, colocando-nos ao lado de quem sofre, defendendo a dignidade humana e trabalhando para que a justiça e a vida prevaleçam. É assim que produzimos frutos para o Reino de Deus.
Por isso, logo depois do chamado à conversão, Jesus conta a parábola da figueira que não produzia frutos. Embora o proprietário pensasse em cortá-la, o agricultor pede mais tempo para cuidar dela, adubar a terra e dar-lhe a oportunidade de frutificar.
A parábola nos fala da paciência e da misericórdia de Deus, que nos oferece oportunidades para mudar de vida. Mas essa paciência também traz uma responsabilidade: precisamos produzir frutos! E não são quaisquer frutos, mas frutos de justiça, coerentes com o Reino anunciado por Jesus.
Não podemos dizer que seguimos o Evangelho se nossas escolhas alimentam a mentira, a intolerância, o preconceito e a violência. A fé cristã precisa se expressar em atitudes concretas que defendam a vida, a democracia, a justiça social e a dignidade de todas as pessoas. Caso contrário, estaremos nos afastando do projeto de Deus e contribuindo para nossa própria destruição enquanto sociedade.
Que o bom Deus nos guie em nosso caminho, ilumine nossas escolhas e nos ajude a permanecer fiéis ao seu projeto de amor. Que saibamos discernir entre a verdade e a mentira, entre aquilo que promove a vida e aquilo que gera morte, entre o que constrói a democracia e o que ameaça destruí-la.
Neste segundo turno das eleições, não erre o alvo: vote pela democracia, pela justiça social e pela defesa da vida!
Ouça no Podcast Ignatiana [link]
Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).
Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.
Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.
Ano A — Sábado. 29ª semana do Tempo Comum
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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.
