A família como bandeira política?
Luciano Fazio
A família ocupa um lugar central na vida das pessoas e na nossa sociedade. Para mim, cristão, ela constitui um espaço privilegiado para viver o chamado ao amor, ao cuidado, à proteção e à responsabilidade mútua. É o lugar onde se nasce, se cresce, se criam os filhos, se constroem relações afetivas e onde se busca viver o melhor de nós.

Por isso, falar em família não nos deixa indiferentes. Cada um, à sua maneira, tem um apego especial a essa instituição. Ao mesmo tempo, somos chamados a descobrir as formas que melhor conjugam esse chamado com a cultura e as especificidades do nosso tempo, bem como com a maneira de ser de cada membro do grupo. Não há uma receita única…
No Brasil de hoje, o tema da família adquiriu um destaque particular, especialmente no âmbito da política. Assim, terá forte peso na campanha eleitoral de 2026. O discurso da extrema direita tenta se apropriar do tema, transformando-o em uma bandeira para dividir o eleitorado. Apresenta família, moral, religião e valores tradicionais como pilares de uma sociedade supostamente ameaçada pelo que seus porta-vozes denominam, genericamente, de “ideologia de gênero”, “destruição da família” ou “inversão de valores”.
Assim, a família aparece, assim, não apenas como uma instituição social a ser protegida, mas como um marcador de identidade política. Quem se coloca ao lado da “família tradicional” é apresentado como defensor do bem, da moral e da própria sociedade; quem não segue esse modelo pode ser taxado como “do mal”, dentro de um cenário apresentado como uma “guerra espiritual”.
Mas cabe perguntar: que família é essa que determinados setores do bolsonarismo dizem defender? E que contradições existem entre essa defesa e seu discurso político?
A mulher entre a família e a submissão
Uma primeira questão está na concepção do papel da mulher.
Em setores do imaginário conservador incorporado pelo bolsonarismo, a mulher ideal é apresentada sobretudo como esposa, mãe, cuidadora e responsável pela formação moral dos filhos. A valorização da mulher “recatada e do lar” pode colocar em segundo plano sua autonomia econômica, profissional, intelectual e política.
Não há nada de ilegítimo em uma mulher escolher dedicar-se prioritariamente à família e à criação dos filhos. O problema surge quando essa escolha individual é transformada em modelo social obrigatório, utilizado para deslegitimar outras maneiras de ser mulher, esposa, filha ou mãe.
Uma coisa é valorizar a maternidade e a dedicação à família. Outra é transformar esses papéis em norma para todas as mulheres.
Quando a defesa da família justifica uma divisão rígida de papéis, tradicionalmente à mulher é reservado sobretudo o lugar de mãe e cuidadora, enquanto ao homem cabe a autoridade e a condição de provedor.
Uma política verdadeiramente voltada à proteção da família deveria fazer o contrário: reconhecer a autonomia de homens e mulheres, combater a violência doméstica, assegurar condições para a criação dos filhos e permitir diferentes projetos de vida.
A família protegida pela falta de informação
Interessante é também como determinados setores do bolsonarismo abordam a sexualidade.
A educação sexual, o conhecimento sobre o próprio corpo, a prevenção de abusos e doenças e o diálogo sobre orientação sexual são, em alguns desses discursos, apresentados como ameaças aos valores familiares. Eis que falar sobre sexualidade pode ser tratado como incentivo a práticas impróprias ou como tentativa de induzir crianças e adolescentes a determinadas escolhas.
Algo foi virado “de cabeça para baixo”.
Informação não é incentivo. Conhecimento não é propaganda. Educação não é doutrinação.
Educação sexual adequada à idade não significa induzir uma criança ou adolescente a determinada orientação sexual. Significa oferecer conhecimento sobre o próprio corpo, limites, respeito, proteção e prevenção de abusos, além de condições para reconhecer situações de violência ou exploração.
O silêncio não elimina a sexualidade; apenas dificulta sua compreensão e pode tornar mais difícil identificar e denunciar abusos.
A chamada “defesa da família” pode, assim, produzir o efeito contrário ao que afirma buscar. Uma família segura não é aquela em que determinados assuntos não podem ser mencionados, mas aquela em que existe confiança para discuti-los.
Quando a diferença se transforma em ameaça
O problema se torna ainda mais evidente quando se observa o tratamento dispensado às pessoas que não se enquadram no modelo familiar tradicional.
Em setores do discurso bolsonarista, a homossexualidade é apresentada como ameaça aos valores familiares. A diferença deixa de ser reconhecida como parte da sociedade e passa a ser tratada como perigo moral.
É nesse contexto que podem ser lembradas manifestações públicas do ex-presidente Jair Bolsonaro sobre a homossexualidade, entre elas a conhecida declaração de que preferiria que um filho morresse a que fosse homossexual.
Uma concepção de família baseada no amor, no cuidado e na proteção deveria conduzir à conclusão oposta: um filho não deixa de ser filho porque possui uma orientação sexual diferente daquela que seus pais desejariam.
A família que aceita apenas aqueles que correspondem às suas expectativas não é necessariamente mais forte. Pode tornar-se um lugar de medo, quando o afeto passa a depender da conformidade.
Em nome da defesa da família, pode-se acabar defendendo uma concepção que exclui justamente aqueles que mais necessitam de acolhimento.
Liberdade também é reconhecer o outro
Há um paradoxo na maneira como setores da direita radical utilizam o conceito de liberdade.
A liberdade de expressão, a liberdade individual e a liberdade econômica são frequentemente apresentadas como valores fundamentais. Mas a liberdade democrática não pode significar apenas o direito de defender os próprios valores e interesses. Ela pressupõe também reconhecer a liberdade do outro — daquele que pensa, acredita, ama ou organiza sua vida de maneira diferente.
É perfeitamente possível defender uma concepção conservadora de família e, ao mesmo tempo, respeitar o direito de outras pessoas de adotarem formas diferentes de organização familiar. O problema surge quando a própria diferença passa a ser considerada ilegítima ou moralmente inferior.
Quando o diferente deixa de ser interlocutor e passa a ser tratado como inimigo moral, a liberdade perde seu sentido democrático.
É legítimo discordar. É legítimo defender convicções religiosas ou morais fortes. É legítimo ser conservador quanto aos costumes. O que não é compatível com uma sociedade democrática é transformar essa discordância em desumanização, humilhação ou perseguição do outro.
Defender a própria liberdade implica reconhecer que ela também pertence ao outro.
O paradoxo do cristianismo sem perdão
Essa concepção de família tradicional é, em determinados setores do bolsonarismo, reforçada pela dimensão religiosa. Símbolos cristãos são mobilizados e o movimento apresenta-se como defensor do cristianismo diante de uma suposta ameaça moral.
A religião pode, assim, ser instrumentalizada para sustentar uma identidade política apresentada como se fosse a única autenticamente cristã.
Isso é especialmente problemático quando a retórica política se distancia de valores centrais dos Evangelhos.
A mensagem de Jesus de Nazaré está associada ao amor ao próximo, ao perdão, à misericórdia, ao acolhimento dos marginalizados e à rejeição da hipocrisia moral. O adversário não aparece como alguém que deva necessariamente ser destruído, mas como outra pessoa a quem também é devido o amor.
O problema não está na existência de convicções religiosas ou morais fortes, nem na oposição a determinadas transformações sociais. Está no que se faz politicamente com essas convicções.
Quando a divergência se transforma em “guerra santa” contra quem não representa uma ameaça concreta, quando se estimula o ódio e se promove a humilhação, a exclusão ou a perseguição de quem pensa ou vive de maneira diferente, surge uma incoerência difícil de ignorar: como conciliar uma identidade cristã com um discurso político baseado na guerra contra o outro?
Afinal, que família está sendo defendida?
Afinal, que família está sendo defendida?
As questões anteriores tornam mais clara a pergunta fundamental. Não se trata apenas de saber se alguém é “a favor da família”. É preciso perguntar: “A favor de que família?”
Uma política estatal de proteção à família deve combater a violência e promover condições para que mulheres e homens tenham igual dignidade e liberdade para construir seus projetos de vida; para que crianças e adolescentes encontrem proteção contra o abuso e o abandono; para que pais e filhos possam conversar sobre sexualidade sem medo; para que uma pessoa homossexual não precise esconder quem é para continuar sendo amada por seus familiares; e para que diferenças de opinião não rompam necessariamente os vínculos afetivos.
Episódios de agressão doméstica, abuso de poder e desrespeito mútuo entre familiares não são simples exceções. Infelizmente, há de se reconhecer que a família não é, por si só, sinônimo de amor, proteção ou segurança. Ela também pode ser espaço de desrespeito, imposição, violência e autoritarismo.
Quanto a nós, a defesa da família parte da consciência de que ela é um espaço a ser construído no amor e no respeito ao outro, para que possa se tornar, de fato, um ambiente de relações humanas de qualidade. Quando alguém dentro da família acredita ter uma receita para impor aos outros, sobretudo quando entende ser necessário travar uma “guerra espiritual” contra quem não compartilha a mesma visão ou sensibilidade, corre-se o risco de substituir a convivência pela intolerância.
A verdadeira “defesa da família” não pode ser confundida com a imposição de um modelo de família contra os demais. Ela significa garantir as condições para que, nesse ambiente, as pessoas saibam criar relações em que prevalece o respeito, a liberdade, a proteção e a dignidade de cada um de seus integrantes. Nas eleições de 2026, cabe-nos, portanto, recusar a tentativa de transformar a família em uma bandeira política. Ela é um espaço de vida importante demais para ser reduzido a instrumento de disputa eleitoral ou de divisão da sociedade.
Luciano Fazio é matemático, formado pela Università degli Studi di Milano, e especialista em Previdência pela Fundação Getúlio Vargas. Italiano naturalizado brasileiro, chegou ao Brasil no início da década de 1980 como voluntário leigo na Diocese de Marabá, Pará. Atuou na Comissão Pastoral da Terra e como assessor de sindicatos de trabalhadores. Atualmente, dedica-se à área de Previdência Social, mantendo sua atuação vinculada à defesa dos direitos dos trabalhadores.
Imagem em destaque: Clóvis Graciano. Família, 1944. Enciclopédia Itaú Cultural.
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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.
