Palavras que promovem a paz, a verdade, a justiça — Lc 6,43-49

Simone Furquim Guimarães

A leitura do Evangelho de hoje é Lucas 6,43-49. Nela, Jesus apresenta três pequenas parábolas: a da árvore e seus frutos, a do tesouro do coração e a da casa construída sobre a rocha. Por meio dessas imagens, Ele ensina como deve viver aquele que deseja ser seu discípulo, sua discípula.

A árvore boa produz frutos bons; o bom tesouro faz brotar coisas boas; e o construtor prudente edifica sua casa sobre bases sólidas. Assim também é o cristão: sua fé deve gerar frutos concretos de amor, justiça e solidariedade. Quem escuta a Palavra de Deus e a coloca em prática constrói sua vida sobre um alicerce firme, capaz de resistir às tempestades da existência.

Por outro lado, Jesus alerta contra a hipocrisia daqueles que fazem belos discursos religiosos, proclamam sua fé em público e repetem: “Senhor, Senhor!”, mas não vivem aquilo que professam. A verdadeira fé não se mede pelas palavras, mas pelas atitudes.

O Evangelho nos leva a perguntar: como colocar a Palavra de Deus em prática em nossos dias? Como evitar a contradição entre aquilo que professamos e aquilo que vivemos? Frequentar uma igreja, participar de celebrações ou realizar orações são práticas importantes, mas elas perdem seu sentido quando não se traduzem em compromisso com a vida, com a dignidade humana, com o cuidado dos mais vulneráveis.

A distância entre discurso e prática já era um problema no tempo de Jesus. E continua sendo em nossa sociedade. Ouvir o Evangelho, acolhê-lo e transformá-lo em ação concreta é construir uma vida pessoal, comunitária e social sobre a rocha firme dos valores do Reino de Deus – hoje podemos chamar de Bem-Viver.

Por isso, Jesus afirma: “A boca fala daquilo que o coração está cheio”. Em outra passagem, o Evangelho de Mateus recorda suas palavras: “É do coração que vêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, os roubos, os falsos testemunhos e as calúnias” (cf. Mt 15,19). Com isso, Jesus ensina que a raiz do mal está nas intenções e escolhas que brotam do interior da pessoa e se transformam em ações que ferem a vida dos outros.

Também em nossos dias vemos o nome de Deus ser utilizado para justificar interesses políticos, econômicos e ideológicos. Muitas vezes, a fé é instrumentalizada para alimentar divisões, preconceitos e discursos de ódio. Quando isso acontece, confirma-se a advertência de Jesus: as palavras revelam aquilo que habita o coração.

Que o nosso coração esteja cheio do Espírito de Jesus, para que nossas palavras promovam a paz, a verdade, a justiça. E que nossa fé não se limite a discursos ou práticas religiosas, mas se manifeste em atitudes concretas de defesa da vida, da dignidade humana, da democracia e do bem comum.

Que possamos construir nossa casa sobre a rocha do Evangelho, tornando-nos testemunhas coerentes do Bem Viver em nosso tempo.


Ouça no Podcast Ignatiana [link]

Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.

Ano A — Sábado. 23ª semana do Tempo Comum

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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