O Reino dos Céus é dos pequeninos — Mt 19,13-15
Simone Furquim Guimarães
A leitura do Evangelho de hoje é Mt 19,13-15. O texto nos conta que algumas pessoas levaram crianças até Jesus para que ele impusesse as mãos sobre elas e rezasse por elas. Mas os discípulos tentaram impedir. Então Jesus reagiu:
Deixai as crianças e não as proibais de vir a mim, porque delas é o Reino dos Céus.
À primeira vista, pode parecer uma cena simples, até mesmo carinhosa. Mas, quando olhamos para o contexto da época, percebemos que há aqui uma mensagem profunda.
Na sociedade do tempo de Jesus, as crianças ocupavam uma posição de pouca importância social e, muitas vezes, sofriam violências, sobretudo na cultura romana. Por isso, quando Jesus acolhe as crianças e impede que sejam afastadas, ele está fazendo muito mais do que demonstrando carinho: está ensinando que ninguém deve ser considerado pequeno demais, fraco demais ou sem importância para fazer parte do Reino de Deus.
Ao longo dos Evangelhos, encontramos Jesus caminhando pelas periferias da sociedade, aproximando-se de pessoas que eram consideradas impuras, doentes, pobres, pecadoras, estrangeiras e também de mulheres e crianças. Jesus desloca o olhar: aquilo que a sociedade considera pequeno, Jesus coloca no centro.
Assim, quando Jesus diz hoje: “Delas é o Reino dos Céus”, ele não está simplesmente idealizando a infância. Ele está apresentando uma lógica diferente daquela que organiza a sociedade pelo poder, pela riqueza, pela importância e pelo prestígio.
O Reino de Deus pertence aos pequenos porque o Reino não é construído pela dominação, mas pela fraternidade; não pela competição, mas pela solidariedade; não pela exploração dos mais frágeis, mas pelo cuidado com a vida.
E aqui o Evangelho toca a nossa realidade. Precisamos perguntar: como estamos tratando nossas crianças?
Vivemos em uma sociedade que fala muito sobre proteção, mas que ainda convive com diversas formas de violência contra crianças e adolescentes. A violência pode estar dentro de casa, nas ruas, nas instituições e, hoje, também nos espaços digitais. Crianças podem ser expostas à exploração, ao abuso, à sexualização, ao aliciamento e a tantas outras formas de violência.
Quando transformamos a infância em mercadoria, audiência ou instrumento para ganhar dinheiro e fama, estamos negando aquilo que Jesus afirma no Evangelho de hoje.
Jesus nos lembra que uma criança não é objeto. Criança é pessoa. É vida. É dignidade. É alguém que precisa ser amado, protegido, respeitado e cuidado.
Por isso, talvez hoje Jesus também esteja dizendo a nós, adultos: aprendam a cuidar dos pequenos. E aprendam também com eles. Aprendam com a capacidade de confiar, de criar vínculos, de brincar, de acolher, de perguntar e de se encantar com a vida. Preservar a infância é preservar o futuro, mas é também preservar aquilo que existe de mais humano em nós.
O Evangelho de hoje é, portanto, um chamado à responsabilidade. Não basta dizer que amamos as crianças. É preciso construir uma sociedade onde elas possam crescer com segurança, dignidade, afeto, educação, liberdade e esperança.
Jesus acolhe as crianças e diz: “Não as impeçais de vir a mim.”
Que essa palavra também nos faça ouvir hoje um chamado: não impeçamos nossas crianças de viver, de sonhar, de brincar, de aprender e de crescer em segurança. Não façamos da vida das crianças um inferno aqui na terra. Façamos da nossa sociedade um lugar onde elas possam experimentar aquilo que Jesus chamou de Reino de Deus: um mundo de cuidado, justiça, fraternidade e amor. Porque, como nos lembra Jesus no Evangelho de hoje, o Reino dos Céus é dos pequeninos. Amém!
Ouça no Podcast Ignatiana [link]
Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).
Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.
Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.
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