Grão de mostarda — Mt 17,14-20

Simone Furquim Guimarães

A leitura do Evangelho de hoje é Mateus 17,14-20. O texto narra o encontro de um pai com Jesus. Angustiado, ele se aproxima e pede ajuda para seu filho, que sofria ataques descontrolados e frequentemente se colocava em situações de risco, caindo no fogo ou na água.

É importante lembrar que, no tempo de Jesus, muitas doenças cuja origem não era compreendida eram atribuídas à ação de espíritos malignos. Por isso, o pai procura Jesus, reconhecendo nele alguém capaz de libertar seu filho daquele sofrimento.

O homem relata que já havia procurado os discípulos, mas eles não conseguiram realizar a cura. Mais tarde, os próprios discípulos perguntam a Jesus por que haviam fracassado. A resposta do Mestre conduz o evangelho para seu tema central: a fé.

Jesus lhes diz: “Se vocês tiverem fé do tamanho de um grão de mostarda, dirão a esta montanha: ‘Transporta-te daqui para lá’, e ela se transportará. Nada vos será impossível”.

Ao escrever esse evangelho, provavelmente por volta dos anos 80 d.C., Mateus tinha diante de si uma comunidade marcada por dificuldades, perseguições e crises. Muitos discípulos e discípulas se perguntavam como continuar firmes diante de tantos desafios. A resposta de Jesus é clara: permaneçam na fé.

Mas o que significa ter fé? Nos evangelhos, a fé não é uma crença mágica nem uma simples adesão intelectual a uma doutrina. Fé é confiar em Deus e permanecer fiel ao projeto de vida anunciado e vivido por Jesus de Nazaré. É assumir um compromisso com o Reino de Deus, construindo relações de acolhida, justiça, compaixão e fraternidade.

Por isso, Jesus utiliza a imagem do grão de mostarda. Embora seja uma semente pequena, possui uma extraordinária força de vida. Assim também acontece com a fé: ela pode parecer pequena, mas, quando cultivada, torna-se capaz de produzir grandes transformações.

A montanha mencionada por Jesus simboliza os obstáculos que parecem intransponíveis: as injustiças sociais, a exclusão, a violência, a fome, o preconceito, o desânimo e tudo aquilo que impede as pessoas de viverem com dignidade e liberdade.

O evangelho nos recorda que não é possível seguir a missão cristã sem fé. É ela que sustenta nossa esperança, fortalece nossa caminhada e nos impulsiona a agir em favor da vida. A fé nos ajuda a enxergar além das dificuldades e a acreditar que a transformação é possível, mesmo quando tudo parece contrário.

Que em nossas comunidades, em nossas famílias e em nosso cotidiano, a fé em Jesus – o Evangelho vivo do Pai – nos torne agentes de cura, de reconciliação e de esperança. Que ela fortaleça nosso compromisso com a vida, converta nossos corações e nos impulsione a colaborar na construção de um mundo mais justo, fraterno e habitável para todos.

Peçamos a Deus a graça de abrir nossos olhos e nossos ouvidos para reconhecer os sinais do Reino presentes em nossa história. Que a fé, ainda que pequena como um grão de mostarda, floresça em nós e produza frutos abundantes de amor e solidariedade. Amém.


Ouça no Podcast Ignatiana [link]

Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.

Ano A — Sábado. 18ª semana do Tempo Comum

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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