Falar sem medo — Mt 10,24-33
Simone Furquim Guimarães
O Evangelho de hoje é Mateus 10,24-33. Neste capítulo, Jesus envia seus discípulos em missão e lhes dirige palavras de encorajamento. Ele sabe que anunciar a Boa Nova nem sempre será fácil. Por isso, insiste três vezes numa mesma exortação: “Não tenhais medo!” (vv. 26, 28 e 31).
Não ter medo é uma chave de leitura do Evangelho. Jesus convida seus seguidores a falarem com liberdade, a testemunharem a verdade e a permanecerem firmes diante das dificuldades. Por isso afirma: “Não tenhais medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma”.
Aqueles que perseguiram Jesus e seus discípulos tinham poder para causar sofrimento, mas não podiam destruir aquilo que sustenta a existência humana: a vida que encontra seu sentido em Deus e na prática da justiça. O livro da Sabedoria já afirmava que “a justiça é imortal” (Sb 1,15). Quem vive comprometido com a justiça participa de algo que ultrapassa os limites da própria morte.
As comunidades para as quais o Evangelho de Mateus foi escrito conheciam bem essa realidade. Elas enfrentavam perseguições e conflitos por causa de sua fidelidade aos ensinamentos de Jesus. Mesmo assim, continuavam anunciando o Evangelho e testemunhando o Reino de Deus, que Mateus apresenta como o Reino da justiça, da misericórdia e da inclusão.
Muitos homens e mulheres deram a própria vida por essa causa. Tornaram-se mártires, palavra que significa “testemunhas”. Seu testemunho continua inspirando gerações de cristãos e cristãs a permanecerem fiéis ao projeto de Deus para a humanidade.
Também hoje, a opção pelo Evangelho pode gerar incompreensões e conflitos. Afinal, seguir Jesus significa assumir o compromisso com os pobres, os excluídos e todos aqueles que sofrem as consequências da injustiça social. Quando falamos dos pobres, falamos dos empobrecidos, das pessoas cuja dignidade é ferida pela desigualdade, pela fome, pela violência e pela falta de oportunidades.
O Evangelho de Lucas nos recorda essa realidade na parábola do pobre Lázaro. Seu nome significa “Deus salva”. Lázaro bate à porta do rico para revelar o abismo social que os seres humanos constroem e que está em desacordo com o projeto de Deus.
Por isso, a Palavra de hoje ilumina nossa missão: falar abertamente e sem medo. Falar sem medo para defender a dignidade humana e bater nas portas dos super ricos que não pagam os impostos que deveriam pagar e dizer que é isso que gera o abismo social, a miséria e a fome; pois, com esses impostos, o Estado poderia trabalhar melhor para o bem-estar de toda a sociedade.
Que o Evangelho de hoje fortaleça nosso compromisso com a vida, a justiça e o amor.
Sigamos todos e todas com coragem.
Amém!
Ouça no Podcast Ignatiana [link]
Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).
Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.
Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.
Ano A — Sábado. 14ª semana do Tempo Comum
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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.
