Permanecer fiel — Jo 15,18-21
Simone Furquim Guimarães
O Evangelho de hoje é Jo 15,18-21. Nele, Jesus se dirige aos seus discípulos com palavras fortes: “Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro odiou a mim”. E continua: “Porque não sois do mundo, porque eu vos escolhi e vos tirei do mundo, por isso o mundo vos odeia”.
Mas o que significa, aqui neste texto de João, essa palavra “mundo”?
É importante compreender bem esse termo, porque, ao longo da história, ele foi muitas vezes interpretado de forma equivocada, como se Jesus estivesse condenando tudo aquilo que pertence à vida cotidiana: a sociedade, o trabalho, a política, as relações humanas. A partir disso, surgiu a ideia de que o cristão deve se afastar da realidade social, como se o “mundo” fosse necessariamente algo sujo ou profano. No entanto, não é isso que Jesus quis dizer sobre o sentido de “mundo”, aqui no texto.
Aqui nesta narrativa, o evangelista João usa da simbologia “mundo”, mas não para falar da criação de Deus nem a vida humana em si, mas para falar de um sistema de poder que se fecha à verdade, que rejeita a justiça e que se opõe ao projeto de Deus. Trata-se das estruturas que, naquele tempo, estavam representadas tanto pelo império romano quanto por lideranças religiosas que se afastaram do espírito da Lei e rejeitaram Jesus.
Portanto, não ser “do mundo” não significa fugir da realidade, mas não se conformar com aquilo que desumaniza, que oprime e que exclui.
Segundo os quatro evangelhos, Jesus, aliás, fez exatamente o contrário de se afastar do mundo. Ele viveu profundamente inserido na realidade do seu tempo. Caminhou entre o povo, aproximou-se dos marginalizados, denunciou injustiças e anunciou um Reino baseado na dignidade, na partilha e no amor. Sua vida foi um compromisso radical com a transformação da realidade.
E foi justamente por isso que foi rejeitado.
Nesse sentido, talvez possamos compreender melhor a palavra “ódio” aqui como rejeição. O “mundo” rejeita aquilo que o confronta. Rejeita quem denuncia suas injustiças. Rejeita quem não se dobra à lógica do poder, do lucro e do individualismo.
Essa dinâmica continua atual. Ainda hoje, vemos situações em que ações de caridade são elogiadas, mas iniciativas que questionam as causas da pobreza são criticadas. Quando se distribui alimento, há aplausos; quando se pergunta por que há fome, surgem resistências.
Essa tensão foi bem expressa por Dom Hélder Câmara, que dizia: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, me chamam de comunista”.
O Evangelho de hoje nos convida a discernir: de que lado estamos? Do lado de um “mundo” que naturaliza a desigualdade e o sofrimento, ou do lado de Jesus, que se compromete com a vida, sobretudo dos mais vulneráveis?
Seguir Jesus não é um caminho confortável. Implica, muitas vezes, incompreensão, rejeição e até perseguição. Mas é também o caminho da fidelidade ao Evangelho.
Por isso, a palavra final de Jesus não é de medo, mas de esperança: coragem! Permanecer fiel ao seu projeto é participar da sua vitória.
Que possamos viver no mundo, mas sem nos conformar com aquilo que nega a vida. Que sejamos sinais de um amor que resiste, denuncia e transforma. Amém.
Ouça no Podcast Ignatiana [link]
Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).
Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.
Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.
Ano A — Sábado. 5ª Semana da Páscoa
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