O rosto amoroso do Pai — Jo 14,7-14
Simone Furquim Guimarães
A leitura de hoje, Evangelho de João 14,7-14, nos coloca no coração do discurso de despedida de Jesus. Consciente de sua paixão, morte e ressurreição, ele revela aos discípulos sua profunda unidade com o Pai: “Se me conheceis, também conhecereis meu Pai”.
Mas, no meio desse ensinamento, surge a voz de Filipe, que expressa a dificuldade de compreender: “Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta!”. Filipe deseja algo mais visível, mais extraordinário. E Jesus responde com firmeza: “Há tanto tempo estou convosco e tu não me conheces? Quem me vê, vê o Pai”.
Aqui está o centro da mensagem: Deus não se revela em espetáculos, mas na vida, nas palavras e nas obras de Jesus. A comunidade joanina nos ensina que ninguém vê diretamente a face de Deus, mas o Pai se torna visível no Filho. Por isso, três palavras iluminam o texto: conhecer, crer e permanecer. Não basta caminhar com Jesus exteriormente; é preciso abrir o coração para conhecê-lo de verdade, crer nele e permanecer no seu caminho.
Esse Evangelho nos interpela profundamente. Ele nos chama à conversão e ao seguimento fiel. A vontade do Pai é que nos tornemos presença de Cristo no mundo, vivendo o Evangelho em nossas atitudes. Como o próprio Jesus afirma: quem crê realizará suas obras – não por poder próprio, mas porque permanece unido a Ele.
Quando Jesus diz: “Se pedirdes algo em meu nome, eu o farei”, ele não está autorizando qualquer pedido. Pedir em nome de Jesus é entrar em sintonia com o coração do Pai. É deixar de lado o egoísmo e o individualismo, para buscar aquilo que gera vida, justiça e comunhão.
Essa compreensão é essencial, porque ao longo da história, o nome de Jesus foi muitas vezes usado para justificar violências: contra pessoas negras, povos indígenas, mulheres e religiões de matriz africana. Isso não vem de Deus. Isso é justamente o oposto do Evangelho.
Seguir Jesus é outro caminho. É o caminho do amor que constrói pontes e não muros – como recorda o Papa, em sintonia com o próprio Cristo. Construir pontes significa reconhecer o outro, superar preconceitos e romper com os ciclos de violência.
Por isso, pedir em nome de Jesus é, antes de tudo, viver como Ele viveu. É amar como Ele amou. Como nos recorda a Primeira Carta de João: “Amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus”.
Que possamos, então, conhecer, crer e permanecer. E, assim, tornar visível no mundo o rosto amoroso do Pai. Amém!
Ouça no Podcast Ignatiana [link]
Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).
Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.
Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.
Ano A — Sábado. 4ª Semana da Páscoa
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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.
