A Palavra de Deus é viva e fecunda — João 11,45-56

Simone Furquim Guimarães

O Evangelho de hoje (Jo 11,45-56), nos coloca diante de um momento decisivo: as autoridades começam a conspirar para matar Jesus Cristo. O motivo? Ele realizava muitos sinais. E o último deles – a ressurreição de Lázaro – foi o estopim dessa decisão.

O evangelista não chama esses acontecimentos de “milagres”, mas de sinais. Isso porque, para ele, cada gesto de Jesus revela algo mais profundo: sua origem divina, sua comunhão com o Pai. Esses sinais apontam para algo maior que está por vir: a “Hora” de Jesus, o momento de sua glorificação, que passa pela cruz e culmina na ressurreição.

No meio dessa tensão, aparece a figura de Caifás, o sumo sacerdote, que afirma que é melhor que um só homem morra pelo povo. Essa profecia é uma reflexão da própria comunidade joanina, que compreendeu que aquela morte não foi derrota, mas entrega de amor que gera vida para todos. Esse amor foi expresso nos ensinamentos e práticas de Jesus que incomodou e irritou aqueles que estavam no poder.

Assim como a comunidade de João, também outras comunidades – como as que deram origem aos Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas – refletiram sobre a paixão, morte e ressurreição de Jesus. E tantas outras comunidades, mesmo fora do cânon, também buscaram compreender e viver essa experiência.

Isso nos mostra algo muito importante: a Palavra de Deus é viva e fecunda. Ela nasce da experiência concreta das comunidades, que, mesmo em meio ao sofrimento, perseguição e incertezas, foram capazes de cultivar a solidariedade, o amor e a esperança, inspiradas nos ensinamentos de seu Mestre.

E essa Palavra continua viva hoje. Cada vez que nos reunimos para ler, rezar e partilhar a Escritura, atualizamos essa história. A Bíblia não é apenas um livro do passado – ela é Palavra de Deus tecida na história humana, que continua sendo escrita também em nossa vida e em nossas comunidades.

Ao nos aproximarmos da Semana Santa, somos convidados a viver esse tempo com profundidade: unindo-nos mais como comunidade, relendo os relatos da paixão, morte e ressurreição, e aprendendo a reconhecer os sinais de Deus no nosso cotidiano.

Que saibamos transformar nossa realidade à luz do Evangelho, construindo uma sociedade mais humana, solidária, marcada pelo cuidado com a vida, com o outro e com toda a criação. Assim, mesmo diante das forças de morte, possamos escolher e promover a vida – e a vida em abundância.

Uma Santa Semana abençoada para todos e todas!


Ouça no Podcast Ignatiana [link]

Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.

Ano A — Sábado da 3ª semana da Quaresma

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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