O poder do serviço — Jo 7,40-53
Simone Furquim Guimarães
A leitura do Evangelho de hoje é Evangelho de João (Jo 7,40-53).
O texto nos mostra que havia uma grande divisão entre o povo por causa de Jesus. Alguns afirmavam com convicção: “Ele é o Messias”. Outros diziam: “É um profeta”. E havia também aqueles que rejeitavam essa possibilidade, apoiando-se em interpretações rígidas da Escritura: “O Messias não pode vir da Galileia!”.
Os fariseus e sacerdotes chegam a amaldiçoar o povo simples, dizendo: “Essa gente que não conhece a Lei é maldita!”. E quando Nicodemos, mesmo de forma discreta, tenta defender Jesus, também é ridicularizado e desqualificado.
Esse cenário revela algo muito humano e também muito atual: diante de Jesus, não há neutralidade. Ele provoca posicionamentos, gera questionamentos, desmonta certezas.
No tempo de Jesus, existiam diversas expectativas messiânicas. Alguns grupos esperavam um rei poderoso, que restauraria a glória política de Israel. Outros aguardavam um líder guerreiro, capaz de libertar o povo pela força. Havia ainda os que esperavam um juiz severo, que viria punir os pecadores. Já o povo simples, sofrido e excluído, sonhava com um libertador, alguém que trouxesse esperança concreta para suas vidas (cf. Lc 24,21).
Mas Jesus não corresponde a nenhuma dessas expectativas de poder dominador.
As primeiras comunidades cristãs, especialmente aquelas ligadas ao Evangelho de João, compreenderam que Jesus é, sim, o Messias – mas um Messias diferente. Ele não governa com violência, nem se impõe pela força. Ele revela um novo tipo de poder: o poder do serviço.
É o Messias que se faz próximo, que se inclina, que lava os pés dos discípulos (cf. Jo 13). É o rei cujo Reino não é como os deste mundo (cf. Jo 18,33-37). Sua autoridade nasce do amor, da entrega e da solidariedade.
Por isso, a Quaresma nos convida a rever a imagem de Messias que carregamos dentro de nós.
Muitas vezes, sem perceber, somos tentados a acreditar em um “messias” violento, que legitima a vingança, o castigo e a exclusão. Um messias que reforça estruturas de opressão. Mas esse não é o Cristo do Evangelho.
Jesus foi ungido para anunciar a boa notícia aos pobres, libertar os oprimidos e inaugurar um tempo de graça e misericórdia (cf. Lc 4,18.19).
E aqui está um ponto muito importante para nossa vida: pelo batismo, cada um de nós participa dessa unção. Somos chamados a ser sacerdotes, profetas e reis. Ou seja, também somos enviados a exercer uma missão no mundo.
Mas que tipo de poder devemos exercer? O poder do serviço. O poder que constrói, que liberta, que promove a dignidade. O poder que não domina, mas cuida.
A Quaresma nos lembra que não podemos ficar de braços cruzados esperando um salvador que resolva tudo por nós. O Reino de Deus começa a acontecer quando, como comunidade, assumimos nossa responsabilidade e nos comprometemos com a justiça, com a solidariedade e com a vida.
O verdadeiro messianismo não vem de cima, imposto, mas brota de um povo consciente, que se organiza, que acredita e que luta por um mundo mais humano e fraterno.
Que neste tempo quaresmal possamos purificar nossa fé, reconhecer o verdadeiro rosto de Cristo e assumir, com coragem, a missão que Ele nos confiou.
Que Deus nos conceda essa graça. Amém.
Ouça no Podcast Ignatiana [link]
Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).
Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.
Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.
Ano A — Sábado da 4ª semana da Quaresma
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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.
