Diante de Deus — Lc 18,9-14

Simone Furquim Guimarães

A leitura do Evangelho de hoje é Lucas 18,9-14. O evangelista relata que, por meio de uma parábola, Jesus critica o comportamento de alguns fariseus que se consideravam justos diante de Deus e desprezavam aqueles que não seguiam as normas religiosas como eles.

Na parábola, dois homens sobem ao templo para rezar. O fariseu, de pé, agradece a Deus porque não é como os outros homens: pecadores, injustos, adúlteros – e até menciona o cobrador de impostos que está ali. Ele se orgulha de cumprir todas as práticas religiosas: jejua, paga o dízimo e segue fielmente as tradições.

Já o cobrador de impostos permanece à distância. Nem sequer levanta os olhos para o céu. Com humildade, bate no peito e reza: “Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!”

Com essa parábola, Jesus nos ensina que a verdadeira relação com Deus não nasce do orgulho religioso nem da sensação de superioridade moral, mas da sinceridade do coração e do reconhecimento de nossa fragilidade humana. O fariseu apresenta suas obras como se estivesse negociando com Deus, como se a relação com o divino fosse uma troca de méritos e recompensas. O publicano, ao contrário, coloca-se diante de Deus com humildade, confiando na sua misericórdia.

Jesus, assim, desconstrói uma compreensão religiosa baseada em privilégios espirituais. Ele critica a ideia de que alguns possam se considerar mais puros, mais dignos ou mais escolhidos do que outros. Quando a religião se transforma em motivo de superioridade, ela perde o sentido do Evangelho.

A ideia de ser “eleito” ou “superior” pode tornar-se muito perigosa quando é usada para justificar exclusões, violências e injustiças. Ao longo da história, muitas vezes o nome de Deus foi invocado para legitimar guerras, opressões e perseguições contra outros povos e culturas.

Atualmente, algumas lideranças religiosas vêm usando deste estratagema: em suas orações, cantam vitória pelo assassinato, inclusive de crianças iranianas, como se fosse mandado divino para combater os “impuros” de hoje.

No entanto, o Evangelho nos recorda que Deus não é propriedade de um grupo, de uma nação ou de uma religião. Deus é misericórdia e sua graça se estende a toda a humanidade.

Neste tempo quaresmal, que nos convida à conversão – isto é, a mudar o modo de pensar e agir – o Evangelho nos ensina o caminho da verdadeira oração. Somos chamados a nos colocar diante de Deus como o publicano da parábola: com humildade, reconhecendo nossa condição humana, limitada e imperfeita, mas confiando no amor e na misericórdia de Deus.

Ao mesmo tempo, Jesus nos convida a olhar para os outros com respeito e compaixão, sem julgamentos e sem exclusões. Somos chamados a construir relações de diálogo, acolhimento e fraternidade, reconhecendo que todos e todas fazem parte do plano de salvação de Deus.

Que esta palavra do Evangelho nos ajude a cultivar um coração humilde, aberto à graça de Deus e comprometido com a construção de um mundo mais fraterno. Amém!


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Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.

Ano A — Sábado da 3ª semana da Quaresma

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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