O coração do Pai — Lc 15,1-3.11-32

Simone Furquim Guimarães

A leitura do Evangelho de hoje é Lc 15,1-3.11-32. Logo no início, somos informados de que fariseus e escribas murmuravam porque Jesus acolhia e comia com publicanos e pecadores. É a partir desse incômodo que Jesus conta a parábola conhecida como a do filho pródigo – ou, talvez possamos concluir se tratar da parábola do Pai misericordioso.

A crítica daqueles líderes religiosos nasce da convicção de que estavam mais próximos de Deus por frequentarem a “casa do Pai”, isto é, o templo e a sinagoga. Julgavam-se fiéis cumpridores da Lei. No entanto, fechados em seus rigorismos e em suas interpretações absolutistas, não perceberam o essencial: Deus é amor e misericórdia.

Na parábola, o filho mais novo rompe com o pai, parte, erra, desperdiça, sofre – mas, ao retornar, encontra um Pai que não humilha, não acusa, não impõe condições. Antes mesmo que o filho termine sua confissão, o Pai corre ao seu encontro, abraça-o e restitui-lhe a dignidade. Essa é a imagem de Deus que Jesus revela.

O filho mais velho, porém, permanece na casa, mas não compreende o coração do Pai. Cumpre ordens, trabalha, obedece – mas seu coração está endurecido. Sua revolta diante da acolhida ao irmão revela que ele se sente dono dos privilégios do Pai. Ele não chama o outro de “meu irmão”, mas de “esse teu filho”. Está fisicamente em casa, mas distante no amor.

Assim também os fariseus: estavam na casa de Deus, mas não conheciam verdadeiramente o sentimento do Pai, que deseja ver todos os seus filhos reunidos como irmãos. A resposta de Jesus não é apenas uma defesa de sua prática de acolher os excluídos; é um chamado à conversão daqueles que se julgam justos.

Hoje, o filho mais velho pode ser comparado a nós quando, mesmo presentes nas igrejas, cumprindo práticas religiosas e doutrinas morais, alimentamos no coração a intolerância, o exclusivismo, a pretensão de “possuir” Deus. Quando acreditamos que somente o nosso grupo é eleito e salvo, esquecemos que Deus é Pai de toda a humanidade. Todos somos filhos e filhas do mesmo Pai.

A parábola nos interpela especialmente neste tempo da Quaresma. Somos convidados à conversão do coração. Não apenas a conversão daquele que “foi embora”, mas também a conversão daquele que “nunca saiu”, mas precisa aprender a amar como o Pai ama.

Promover a fraternidade é participar da alegria do Pai. É abrir espaço para quem retorna, para quem pensa diferente, para quem carrega feridas. É reconhecer que, muitas vezes, podemos estar assumindo o lugar do filho mais velho, fechando portas que Deus mantém abertas.

Que nesta Quaresma peçamos a graça de conhecer verdadeiramente o coração do Pai: um coração que não exclui, não segrega, não contabiliza méritos, mas celebra cada filho e filha que volta para casa. Amém!


Ouça no Podcast Ignatiana [link]

Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.

Ano A — Sábado da 2ª semana da Quaresma

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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