Aliança pela vida — Lc 20,27-40

Simone Furquim Guimarães

A leitura do Evangelho de hoje é Lucas 20,27-40. Nesse trecho, os saduceus – grupo que não acreditava na ressurreição dos mortos – apresentam a Jesus uma situação provocativa para colocá-lo à prova. Eles apelam à Lei de Moisés sobre o levirato, isto é, o amparo à viúva sem filhos: se uma mulher fica viúva várias vezes, perguntam eles, “de quem será esposa na ressurreição?”.

Jesus responde de modo profundo: na ressurreição não haverá mais casamentos, pois aqueles que forem julgados dignos de participar da vida eterna já não estarão sujeitos à morte. Serão semelhantes aos anjos e reconhecidos como filhos e filhas de Deus.

Para Jesus, portanto, “a morte não é a última palavra”. Mas essa afirmação nos provoca: “quem são os dignos? Quem são os justos que participarão da vida eterna?”.

Para compreender melhor a fé na ressurreição, precisamos voltar ao Antigo Testamento, ao Segundo Livro dos Macabeus. Ali encontramos a origem dessa esperança. Escrito por volta de 134 a.C., o texto narra o martírio dos sete irmãos perseguidos pelo império grego. Diante da morte iminente do último filho, a mãe – símbolo de coragem e fé – diz:

Não temas este carrasco. Aceita a morte, tornando-te digno de teus irmãos, para que eu te encontre novamente na misericórdia.

cf. 2Mc 7,29

Essa fé brotou da dor profunda das mães, filhas e esposas que perderam filhos e maridos por causa da opressão. Ali nasceu uma esperança resistente: a convicção de que “Deus trará justiça e vida aos seus justos”, e de que a morte não detém a justiça. A justiça é imortal.

Jesus se insere nessa mesma tradição de fé e resistência. Ele afirma aos saduceus que aqueles que forem julgados dignos não estarão mais sujeitos à morte, porque participarão da vida de Deus. Ser digno, portanto, é viver desde agora segundo o projeto divino: “promover a justiça, a paz e a dignidade humana”, como Ele mesmo fez.

No Sermão da Montanha, Jesus proclama: “Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus; felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus”. Ele reafirma que a filiação divina se reconhece pela prática da justiça e da paz.

Assim, a fé na ressurreição não é apenas uma doutrina futura – ela deve nos mover hoje. Como cristãos e cidadãos, somos chamados a formar uma grande aliança pela vida, para que o projeto de Deus se realize aqui e agora.

O Evangelho de hoje nos convida a renovar nossa fé no Deus da justiça: o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó; o Deus das mães e esposas do tempo dos Macabeus; o Deus de Jesus de Nazaré.

Voltemos o olhar para este Deus da vida, que defende a vida e quer vida em abundância para todos enquanto caminhamos neste mundo. Amém!


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Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.

Ano C — Sábado. Tempo Comum. Santa Cecília, virgem e mártir.

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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