Terra boa

Simone Furquim Guimarães

O Evangelho de hoje (Lc 8,4-15) apresenta a parábola do semeador, narrada por Lucas dentro do contexto da missão de Jesus, que percorre diversos “caminhos” anunciando o Reino de Deus (cf. Lc 4-9). Por meio de parábolas, Jesus revela à multidão os mistérios desse Reino.

Uma forma de compreender esta parábola é situá-la no contexto histórico da Galileia do século I. A região vivia um quadro de empobrecimento, fome e miséria, consequência das políticas econômicas do Império Romano e de seus governos vassalos. Muitos camponeses haviam perdido suas terras, confiscadas para beneficiar aliados políticos. Restava-lhes semear em pedaços pequenos e marginais de terra, muitas vezes nas “beiras de estrada”, como estratégia de sobrevivência.

Essa realidade pode ser aproximada da nossa. Também hoje, em viagens pelo interior do país, encontramos famílias camponesas vivendo em assentamentos precários, à margem das estradas, resistindo para cultivar suas sementes em busca de dignidade diante das desigualdades sociais e agrárias.

Nos versículos 5 a 8, Jesus fala a partir dessa experiência concreta: à beira do caminho, a semente pode ser pisada ou mesmo devorada pelos pássaros; entre pedras e espinhos, ela se sufoca; mas sempre existe um pedaço de terra boa, onde a vida floresce e dá fruto.

Lucas acrescenta uma explicação à parábola, aplicada à sua comunidade. O semeador anuncia o Evangelho, acolhido ou rejeitado conforme as disposições do coração. O evangelista escreve em um contexto de tensões: a rejeição de parte do judaísmo, a perseguição e as tentações que dificultavam a perseverança. Ainda assim, muitos e muitas permaneceram firmes. O próprio evangelho de Lucas recorda as mulheres que seguiram Jesus, serviram-no, acompanharam-no até Jerusalém e permaneceram junto à cruz (cf. Lc 8,1-3). Elas são exemplos de “terra boa” que acolheu a semente e deu frutos duradouros, frutos que continuamos a colher.

A parábola, portanto, nos interpela hoje: ser “terra boa” é acolher a Palavra e fazê-la frutificar em gestos concretos. Assim como Jesus esteve ao lado dos vulneráveis de seu tempo, somos chamados a imitá-lo, produzindo frutos de justiça, solidariedade e paz. Amém.

Evangelho

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Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.

Ano C — Sábado. 24ª semana do Tempo Comum.

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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