Viva as margaridas
Simone Furquim Guimarães
A leitura de hoje é Mt 19,13-15. O texto nos relata que as crianças foram levadas até Jesus para um ritual de consagração e bênçãos; mas os discípulos repreenderam a presença delas. Então disse Jesus: “Deixai as crianças e não as proibais de vir a mim, porque delas é o Reino dos Céus”.
Naquela sociedade, as crianças, e também as mulheres, eram desvalorizadas, não eram contadas como pessoas; elas não podiam se aproximar de um mestre. Jesus descontrói essa ideia contra as crianças e ensina para os discípulos a valorizar e a aprender com elas.
Importante também compreender que naquela sociedade, as crianças eram educadas pela mãe, em casa, até completar 12 anos de idade; depois dos 12 anos, os meninos eram catequisados nas sinagogas pelos mestres da Lei. Certamente, Jesus, quando criança, aprendeu de Maria sobre Deus libertador que olha e acolhe os humildes e pequeninos.
No evangelho de Mateus os pequeninos são os empobrecidos, os que choram, os fracos, os humildes e os famintos de justiça. Em uma oração, Jesus vai dizer: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, pois, revelaste os mistérios do teu Reino aos pequeninos, escondendo-os aos doutores! (cf. Mt 11,25).
Os doutores da Lei se arrogavam ricos no espírito, pois eram conhecedores dos escritos sobre Deus e sobre as normas para ser puro, prescritas no Antigo Testamento. O evangelista Mateus nos narra que eles foram muito criticados por Jesus porque não viviam a verdadeira essência do que Deus ensinou, e excluíam as pessoas, as crianças, os pobres, as mulheres, do plano de salvação de Deus.
Mateus nos revela que, para Jesus, são as crianças e os pequeninos que nos ensinam porque já vivem o Reino de Deus em sua relação fraterna e solidária. Por isso, no alto da montanha, Jesus afirma também que o Reino de Deus pertence aos pobres no espírito e aos que são perseguidos por promover a justiça (cf. Mt 5,3.10).
Nesta semana, aqui em Brasília, a Marcha das Margaridas, celebra a memória da vida da sindicalista Margarida Alves, que foi perseguida e assassinada por lutar por justiça e dignidade de vida para os trabalhadores e trabalhadoras, na Paraíba. Estes são os considerados “pequeninos”, os injustiçados.
Estão presentes milhares de margaridas de todos os estados e do DF; todas elas já vivem o Reino dos Céus em seu meio: são crianças, mulheres do campo, da floresta, das águas e da cidade; todas elas lutam por justiça e dignidade de vida para si, para sua família e sua comunidade.
Essas margaridas, aguerridas, decididas nos ensinam a viver o projeto de Deus, que quer um outro modelo econômico e social possível e habitável para nós: uma sociedade do Bem Viver!
Viva as margaridas!!!
Ouça no Podcast Ignatiana [link]
Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).
Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.
Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.
Sábado da 19ª semana do Tempo Comum, ano B
Palavra de Deus Bíblia CEBI Evangelho Evangelho segundo Mateus Jesus Cristo Leitura popular da Bíblia Marcha das Margaridas sagradas escrituras Tempo Comum
Ignatiana Visualizar tudo →
IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.
