Casa, lugar nobre para a vivência da “amizade social”

Pe. Adroaldo Palaoro, SJ

Segunda-feira da Semana Santa

O Evangelho de Jesus é experiência de “casa”, de encontro e comunhão, de palavra para todos, lugar aberto à novidade do Reino. Nessa casa vai sendo gestada a nova família de Jesus, espaço aberto e de acolhida. As comunidades cristãs devem recordar que não são um lugar religioso onde se vive da Lei, mas um lar onde se aprende a viver de maneira nova em torno a Jesus.

A primitiva comunidade dos seguidores de Jesus não começou formando uma nova religião instituída, nem se preocupou com construções de templos ou com organizações hierarquizadas; ela se apresentou como uma federação de casas abertas, a partir dos pobres e para os pobres, criando redes de comunicação e de vida fraterna, casas-família, impulsionadas pelo testemunho e presença do Espírito do mesmo Jesus.

Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e possuíam tudo em comum… partiam o pão pelas casas e tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração.

At 2,44-46

A casa deve ser escola de encontro e fraternidade, lugar privilegiado para a vivência da “amizade social”. A comunhão (comum união) é celebrada entre suas paredes que, em seguida, se expande para além de seus limites, despertando uma sensibilidade solidária.

A casa prepara para a vida, pois é ali que os fundamentos de uma personalidade vão se solidificando.

Para Jesus, ser “humano” é ser casa aberta e acolhedora.

Ele quis construir sobre o mundo a nova Casa do Reino, aberta a todos, com pão, com palavra, com amor mútuo. Ele, que não teve onde reclinar a cabeça, quis que todos os homens e mulheres tivessem casa, família… cem vezes mais.

Jesus, como itinerante, dá início a um “movimento de casas”. É que a casa acaba sendo o espaço alternativo que melhor corresponde à atuação do Mestre, enquanto ponto de partida e de chegada de sua missão itinerante. É a partir das casas que Jesus exerce, à margem do que está estabelecido, sua autoridade em favor da vida, sem depender de instituições e funções previamente normatizadas.

Sua maneira de se relacionar com as pessoas marginalizadas e excluídas põe em marcha um movimento de inclusão onde, uma casa acolhedora e uma mesa partilhada com os menos favorecidos, esvaziam qualquer pretensão de poder, de prestígio, de situar-se acima dos outros, devolvendo a todos a dignidade perdida.

+ Busque o seu “lugar sagrado” para iniciar a sua oração; pacifique o seu coração, respirando em profundidade ou ouvindo os sons ao seu redor; faça sua oração preparatória, a composição vendo o lugar e a graça a ser suplicada.

– Neste início de Semana Santa, o Espírito nos leva a viver Betânia, a ser Betânia, a assumir Betânia. Ali acontece uma ceia de ação de graças a Jesus pelo dom da vida.

Esta ceia é o símbolo do triunfo da vida sobre a morte. E essa força da vida se expressa no Evangelho de hoje mediante símbolos de vida: a mesa compartilhada, a amizade servidora de Marta, o perfume especial de Maria, a unção dos pés de Jesus, a fragrância que enche a casa.

Jesus quis celebrar o dom da vida fraterna com esta família amiga.

Aqui, no centro do Evangelho de João, a verdadeira comunidade, reconstruída no amor, exala o bom perfume que enche toda a casa. Em lugar do cheiro da morte, a casa enche-se do aroma de perfume; o perfume derramado por Maria é o símbolo da vida e do amor da comunidade que exala bom odor. É um amor que não tem preço e estará sempre voltado para os pobres. As comunidades de Jesus estabelecem-se no espaço humanizador das casas, e não no espaço “oficial do sagrado” (templo).

– Betânia é o verdadeiro “templo” onde Jesus percebe a presença e o agir do Pai nos fatos mais simples da vida cotidiana; Betânia é para Jesus um prolongamento de Nazaré, o lugar do cotidiano, do pequeno, do simples: o lugar da revelação.

Marta e Maria expressam sua amizade e fazem com Jesus o que Ele logo fará com seus discípulos no momento de sua despedida: os servirá à mesa e lavará seus pés. Jesus se deixou fazer, para poder fazer isso com outros e quis tomar os gestos destas mulheres para fazer memória de sua vida. Impressiona-nos que neste relato elas não falam, e expressam todo seu amor “mais em obras que em palavras” (S. Inácio).

– Betânia é também lugar de interioridade, onde se internalizam os processos de humanização, onde surge a humanidade nova, atitudes mais humanas e fraternas; lugar onde pulsa a Humanidade com toda sua força  e onde volta a circular o sangue-vida.

Criar Betânia em nosso interior e em nossas casas: lugar da mesa compartilhada, da unção e do cuidado; ambiente que exala perfume do amor, da gratidão, da amizade…

Podemos visualizar nossa vida como um frasco cheio de perfume que nos foi entregue gratuitamente por Deus para que lhe respondamos com nosso agradecimento e alegria e para que muitos outros possam participar disso.

– Em um mundo no qual as relações se estabelecem através da força, da dominação, do poder, Jesus inicia um “movimento de vida nas casas”, ou seja, Ele nos introduz na nova ordem de relações que devem caracterizar o Reino: aqui a vinculação fundamental é a da irmandade no serviço mútuo.

A “Casa em Betânia” revela um estilo novo no qual o “desenho circular” é deslocado e dá por superado o “modelo hierárquico”. É fácil concluir que esta rede de seguidores nas casas acabe se organizando de uma forma concêntrica, ao mesmo tempo que horizontal, tendo Jesus como centro e reforçando os laços de amizade de todos aqueles que se encontram em torno a Ele; tal organização se diferencia das estruturas piramidais e hierárquicas, próprias de toda e qualquer instituição, com os riscos de esclerose que lhe são inerentes. Aqui, revela-se sumamente estimulante re-situar a continuidade da “Casa em Betânia” nos ambientes fraternos e familiares, onde a casa se manifesta como espaço próprio da simplicidade e da cotidianidade.

Assim, através de uma rede eficiente, ampliada e centrada no Mestre e com funções complementárias, seus seguidores, a partir das casas, prolongam o ministério de Jesus: “viver em saída”, deslocar-se em direção aos excluídos, revelar a presença do Pai na simplicidade do cotidiano das pessoas etc.

Texto bíblico: Jo 12,1-11

Como preparação para a contemplação, leia uma ou duas vezes o texto do Evangelho indicado para este dia – Jo 12,1-11

+ Com a imaginação, faça-se presente na casa em Betânia; procure olhar atentamente cada uma das pessoas (Jesus, Lázaro, Marta e Maria); sinta o clima de alegria e amizade; procure escutar o que elas dizem; observe as reações, gestos, acolhida… das pessoas ali presentes.

Sinta o perfume do frasco quebrado tomando conta da casa.

Participe ativamente da cena, conversando, perguntando, ajudando a servir…

+ Você percebe que sua casa é prolongamento da Casa em Betânia, desejada e valorizada por Jesus? Quê sinais você encontra nela que confirmam ser uma “casa cristificada”?

+ Faça um colóquio com Jesus, falando do clima “pesado” que existe em Jerusalém, pois estão à procura dele para matá-lo. Permaneça aí, deixando-se impactar pelo clima humano reinante nesta casa de amigos e amigas.

+ Finalize sua oração, dando graças por esta convivência amistosa.

+ Registre no caderno de vida os sentimentos predominantes durante a oração.


Adroaldo Palaoro é padre jesuíta, atua no ministério dos Exercícios Espirituais.

Podcast Rezando o Evangelho | Textos do Pe. Adroaldo


Padre Adroaldo Palaoro, SJ Palavra de Deus

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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