O nome dos bichos e o papagaio da Eneida

João Carlos Pereira

Talvez porque estivessem demais entediadas com a pandemia, naquele momento extremo, quando ninguém ousava colocar o pé fora de casa, se não fosse por extrema necessidade, minhas filhas tiveram a triste ideia de adotar um gato. Já não bastam os dois cachorros que há em casa e dos quais gosto de manter distância, se encantaram por um bichano de rua e fizeram de um tudo para trazê-los. Precisei ser firme na negativa, no impedimento, na inarredável decisão de não aceitar gato em caso, mas elas já tratavam o bicho como alguém da família. Chamavam-no pelo nome, creio que mais para me aperrear do que pela vontade de adotar um felino. Era o Clóvis.

De uns tempos para cá, os pessoas passaram a dar nome de gente aos seus bichinhos de estimação. Às vezes o animal é tão parecido com o nome que lhe dão, que nem fica feio. Uma amiga querida chamava seu falecido gato de Abel. Não é que o bicho tinha cara de Abel? Nossa filha mais velha possui uma cadela chamada Malu. Talvez pela falta de coragem de tratá-la pelo que, de fato, é – maluca – optou pelas duas primeiras sílabas. Minha irmã teve uma cadela Kalu e minha mulher, um cão que atendia pelo nome de Max. Eu mesmo, quando criança, adotei um pombo que, ao ouvir seu nome – Hugo – aparecia na janela.

Eneida, a nossa Eneida, sonhava em ser dona de um papagaio. Um dia, quando já não mais alimentava esperanças de ter um, uma criança bateu à sua porta e entregou-lhe uma criaturinha de penas verdes, que chegava como um sinal de esperança.

Sempre que sabia que alguém de Belém ia para o rio, pedia um papagaio. Foram mais de cem solicitações e nada. Naquele tempo, anos 50, talvez, não havia tantos cuidados com a natureza como agora. Que poderia, hoje, embarcar com um papagaio, sem correr o risco de ser preso como traficante de aves? As leis ficaram tão severas, que matar uma tartaruga virou crime inafiançável.

Tempos se passaram sem que um paraense desembarcasse no Rio com um papagaio na gaiola para ser dado de presente à Eneida. Ela já nem pensava mais nisso, até que um menino, a mando da mãe, lhe ofereceu o mimo tão desejado.

Eneida vibrou de alegria. Teria enfim um companheiro alado para dar bom dia ou boa noite. Tentou, em vão, vários métodos para fazer a ave falar. Seu sonho era que dissesse algumas palavrinhas, um ou outro palavrão, que não fosse dos mais cabeludos. Talvez pudesse recitar uma coisinha de Shakespeare, mas o peste só podia ser surdo ou mudo.

José – sim, esse era seu nome, dado em homenagem a Carlos Drummond de Andrade, por causa do poema que fala de um José – foi submetido a todas as práticas conhecidas para fazer papagaio falar. Sugeriram à Eneida colocar um pano escuro sobre a cabeça do José e repetisse muitas vezes uma frase, um nome, uma música, qualquer coisa. Foi perda de tempo. Igualmente inútil colocá-lo diante de um espelho. José era um túmulo.

Um dia, José – que já fora chamado de Narcisus e de Dutra por outros donos, conforme lhe disse um amigo – sumiu. Eneida procurou pela vizinhança e ninguém soube dizer onde o mudinho se enfiara. Quando enfim conformou-se com o desaparecimento da ave, tomou a decisão mais certa: jamais teria outro papagaio.

Eu nunca tive bicho de espécie alguma. Gostaria de ver uma coruja solta no jardim ou no quintal de minha casa. Como não tenho jardim, nem quintal, me conformo com a ausência da coruja que jamais tive ou terei. Para compensar essa ausência, uma amiga me presenteou com uma feita de pelúcia, comprada na Disney. Ela mora no meu criado mudo, ao lado da imagem de Nossa Senhora de Nazaré, e com os olhos enormes e sempre abertos vela pelo meu sono.

O José da Eneida não poderia, em momento algum, ter parentesco com o José, a Ana Maria Braga, que fala pelos cotovelos. Um era mudo, o outro, nem preciso dizer, fala pelos cotovelos. Entre o da Ana Maria e o da Eneida, prefiro o da Eneida, que não me chatearia dando bom dia ou boa noite, ou mesmo me mandando para longe.

Para uma criatura feita de silêncios, como eu, um Louro José da Ana Maria, empoleirado na sacada, ia ser um inferno.

Um José até aturaria, mas não aceito a ideia de ter um bicho encarcerado. Meu sentido de liberdade é igual ao da Eneida. Por isso bastou-lhe aquela experiência com o drummoniano José.

Belém, 25 de setembro de 2020.


João Carlos Pereira (Belém do Pará, 1959-2020) jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.

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Imagem: Claudio Tozzi (1944-). 4 Papagaios, 1980. Enciclopédia Itaú Cultural.

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