Discernimento na vida cotidiana: um caminho para a realização

Cláudia Cruz

Jesus, vendo que o seguiam, perguntou:
«O que estais procurando?»
Eles responderam:
«Mestre, onde moras?»
Jesus respondeu:
«Vinde e vede.» Então eles foram…

Jo 1, 38-39

Há cerca de 12 anos eu precisei tomar uma decisão difícil e importante em minha vida. Esta decisão implicava escolher um único caminho entre dois muito promissores. Eram duas opções amplamente desejadas por muitos jovens da minha idade. A decisão era permanecer em um cargo promissor, com salário atrativo em uma das maiores empresas do Brasil ou iniciar um curso de Doutorado em uma das melhores universidades do país, para o qual eu acabara de ser aprovada.

Ambos os caminhos eram bons, ambos ofereciam oportunidades de realização pessoal e profissional, ambos eram honestos (o meio e o fim eram todos bons, ambos inclinados inteiramente para o bem)… Mas eram caminhos incompatíveis naquele momento. E eu precisava tomar uma decisão. Era preciso escolher! E acredito que não seja difícil concordar comigo: Como é complexo decidir quando o cenário envolve escolha entre duas boas opções!

Embora seja um processo árduo, que tende a colocar a pessoa em contato com as suas “sedes” interiores de realização, que releva desejos e anseios e que indica aquilo que realmente nos preenche como pessoas, há caminhos para que o processo de escolha seja mais acertado. A espiritualidade inaciana chama esse processo de discernimento.

Etimologicamente podemos dizer que discernir significa perceber ou compreender claramente; ou ainda distinguir, diferenciar, discriminar. E acrescenta-se ao termo a busca por distinguir uma ação correta ou compreender um cenário e suas consequências.

Há caminhos para que o processo de escolha seja mais consciente e orientado para que sigamos os passos que o Deus da vida trilhou para nós. Os que têm fé e a cultivam em sua vida cotidiana, acreditam que há um Deus que conhece os nossos sonhos, mas que também tem sonhos para nós… Eu gosto de pensar no processo de discernimento como uma busca de ajustar nossos sonhos, planos e expectativas aos sonhos e planos que Deus tem para nós.

E 12 anos atrás, quando tive que fazer a escolha importante a que me referi, eu procurei, em oração, sinais de qual era o plano de Deus para mim entre aqueles dois caminhos. E uma agradável surpresa que eu tive naquela época foi a descoberta de que Deus fala nos ouvidos no nosso coração.

Mesmo sem conhecer as chamadas “regras de discernimento” à época, eu organizei o máximo de informações que consegui sobre ambos os caminhos e as coloquei, junto com minhas expectativas e aspirações pessoais, lado a lado, para tentar identificar para onde meu “coração ardia”.

James Martin, SJ nos recorda que “boas decisões significam um sim determinado tanto aos aspectos positivos quanto aos negativos inerentes a cada escolha” (2012, p. 284). Como naquele momento a busca era sincera, algo me dizia que para onde o coração ardesse mais, esse seria o caminho de maior realização, apesar das dificuldades que eu poderia encontrar.

Um dos momentos de discernimento mais emblemáticos vividos por Santo Inácio de Loyola se refere à escolha entre seguir uma promissora trajetória como cavaleiro e suas honrarias ou abraçar uma vida a serviço do Evangelho. Ele buscou observar para onde seu coração ardia… Que movimentos interiores estavam presentes, constantes e que sentimentos surgiam ao pensar em cada um dos caminhos que se lhe apresentavam. “Discernimento tem a ver com interpretação e avaliação espiritual dos sentimentos e, particularmente, com a direção em que somos movidos por eles” (MARTIN, 2012, p. 263).

A decisão de Santo Inácio o conduziu a um “Vinde e vede”. Ele deixou a trajetória promissora de cavaleiro a serviço das batalhas terrenas, que ele já conhecia, e foi empunhar as bandeiras do Evangelho, que lhe aqueceram o coração e o impulsionaram à missão.

A minha decisão à época também me conduziu a um “Vinde e vede”. Eu decidi trilhar o caminho que me aqueceu o coração, que foi investir mais na minha formação e fui cursar o Doutorado em São Paulo.  A minha escolha me tirou o que eu já conhecia (terra natal, família, amigos) e me conduziu a uma terra não tão distante como aquela citada na trajetória do patriarca Abraão, mas a um lugar diferente, onde eu conseguiria “leite e mel”, elementos que me sustentariam e que me manteriam no caminho.

Os discípulos de Jesus queriam saber onde ele morava. Eles queriam a segurança de um endereço fixo e habitual, sinal de um lugar seguro, de origem conhecida e confirmada. Em nossos processos de decisão também buscamos a segurança de fazer a escolha acertada, garantida. E, assim como aos discípulos, Jesus nos convida a ir e ver.

Há ocasiões em que o processo de discernimento nos leva a sair do lugar, a ir e ver, a experimentar outros caminhos, outras possibilidades, a um lançar-se no horizonte. Após o processo de escolha é preciso ir e ver, forjar o caminho de realização a partir da escolha feita.

Quando a escolha é acertada, consciente, bem discernida, não há que se olhar para trás (para ser digno do Reino, uma vez que se põe a mão no arado, não se deve olhar para trás – cf. Lucas 9,62). Assim, não cabe ficar pensando: “E se a escolha fosse outra?” O discernimento no Senhor nos impele uma confiança de escolha acertada, uma fé de que o caminho escolhido por mim também foi escolhido por Deus.

Há seis anos, eu me deparei com outra situação em que tive que decidir entre dois caminhos igualmente bons, igualmente desejáveis, também envolvendo atuação profissional. Duas portas estavam apertas e era necessário fechar uma.

Esse segundo cenário teve como gatilho uma série de desapontamentos com a organização na qual eu trabalhava à época. Sem fazer um discernimento adequado em princípio, eu pesquisei e considerei outras oportunidades. E quando uma segunda porta foi aberta, veio também a necessidade de avaliar melhor se realmente deveria partir para uma outra “terra distante”.

Nesse segundo caso, eu já tinha ciência da recomendação de Santo Inácio de Loyola: “Nunca tomar decisões quando estiver desolado; mas manter-se firme nos bons propósitos” (EE. 318). E aqui devemos entender desolação como uma perturbação do coração, que envolve inquietação, inclinação para os falsos valores, impulso para a desconfiança, desesperança e desamor (EE. 317).

No livro “A sabedoria dos jesuítas para (quase) tudo”, James Martin, SJ nos lembra uma percepção de Santo Inácio de Loyola durante um processo de discernimento: “se você agir de acordo com os desígnios de Deus, experimentará naturalmente uma sensação de paz. Chegar a essa compreensão é uma parte fundamental do discernimento inaciano. Se estiver em sintonia com a presença de Deus dentro de você, terá uma sensação de equilíbrio, de paz, que Inácio chamou de ‘consolação’. É um sinal de que estamos na direção certa”.

Nesse segundo processo de discernimento, foram necessários alguns meses de oração, de ponderação de informações, de avaliação de cenários e expectativas, de partilha com pessoas mais experientes, de tempo para identificar para onde o “coração ardia”… Eu fiz inclusive um retiro a partir da metodologia dos Exercícios Espirituais com essa intenção.

A minha escolha, nesse outro cenário, me conduziu a permanecer na organização que eu trabalhava. Não foi necessário sair do lugar onde eu já me encontrava, mas eu precisei viver o “Vinde e vede” de outra forma. Após chegar à decisão, fruto de uma análise bem discernida, eu iniciei um processo de ressignificar o meu trabalho, o meu lugar naquela organização, a minha postura e relação com as pessoas.

A partir de então, foi possível compreender que os desapontamentos vividos não eram fortes o suficiente para me tirar daquela opção. Então, eu busquei voltar o meu olhar para as coisas positivas que ali estavam disponíveis. E assim, descobri a graça de ficar nessa terra que já me dava “leite e mel”.

Apesar da confiança de que o processo de discernimento conduz a decisões mais coerentes, seus desdobramentos não estão isentos de experiências negativas. James Martin, SJ ratifica que “não há escolha, resultado de vida perfeitos” (2012, p. 284).

A aceitação da imperfeição nos ajuda a viver melhor a realidade e os frutos das nossas opções e prioridades. “Quando aceitamos que todas as escolhas são condicionais, limitadas e imperfeitas, nossas vidas se tornam paradoxalmente mais satisfatórias, alegres e tranquilas” (MARTIN, 2012, p. 284). Isso nos remete também ao caminho de realização, que pode ser trilhado a partir de decisões bem discernidas e da aceitação dos frutos e dos desdobramentos dessas decisões.

Como subsídios para ajudar no processo de discernimento, tenho recorrido e tirado proveito, além da reflexão de textos da Escrituras Sagradas, também do capítulo 12 – “O que devo fazer? O caminho inaciano para tomar decisões” do livro “A sabedoria dos jesuítas para (quase) tudo” (MARTIN, 2012) e do livro “Caminhos da realização: dos medos do eu ao mergulho no ser” (LELOUP, 2013).

Buscar e encontrar a Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus.

Uma das coisas que considero mais encantadoras nos ensinamentos de São Inácio de Loyola e que é sempre lembrada durante os Exercícios Espirituais é a orientação para “buscar e encontrar a Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus”.  Eu compreendo que o processo de discernimento, na perspectiva da espiritualidade inaciana, tem fundamento também nessa orientação.

Nesse sentido, tomar decisões relacionadas à vida profissional, por exemplo, para mim representa esse “buscar Deus em todas as coisas”. Significa examinar a nossa vida sob a perspectiva da vontade divina [em todas as coisas]. E essa busca leva a um encontro, a um ajustamento dos nossos sonhos e projetos ao caminho que Deus planejou para nossa realização.

Quando o processo de discernimento é bem conduzido e nos abrimos sem pré-julgamentos à vontade de Deus, o ‘buscar’ se converte em ‘encontrar’ Deus e sua vontade em todas as coisas. E assim, o caminho da realização pode ser percebido em cada passo, em cada desafio, nas pequenas coisas da nossa vida cotidiana.


Referências

LELOUP, Jean-Yves Caminhos da realização: dos medos do eu ao mergulho no ser. São Paulo: Vozes, 2013.

MARTIN, James. A sabedoria dos jesuítas para (quase) tudo. São Paulo: Sextante, 2012.


Cláudia Cruz é leiga, pertencente à Comunidade de Vida Cristã (CVX), comunidade Amar e Servir, Rio de Janeiro(RJ).

Imagem: Ligia de Medeiros — Azulejo Originário 2

Comunidade de Vida Cristã (CVX) Espiritualidade cristã

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

9 comentários Deixe um comentário

  1. Como a espiritualidade inaciana é preciosa para aa decisões que precisamos fazer na vida!
    Obrigada por compartilhar tanta riqueza!

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    • Claudia querida

      O relato de teu discernimento é didático.
      Me ajuda em momento de importante decisão a ser discernida.
      Gratidão!

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  2. Obrigada por compartilhar sua rica experiência com os Exercícios Espirituais! O discernimento faz parte do rico tesouro da Espiritualidade Inaciana… O discernimento nos ajuda a buscar, na liberdade de filhos, a vontade do Pai para mais amar e servir.

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  3. Claudia, quanta gratidão por seu relato! A vida é feita de escolhas e quando usamos as ferramentas que temos acolhidas no coração, as escolhas se tornam fruto de discernimento e não apenas de buscas de pura realização momentanea.

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  4. Que rica experiência partilhada!
    Além de didático, seu texto transmite em cada relato seus sentimentos experienciados em cada fase dos discernimentos feitos. Parabéns Cláudia!

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  5. Ao ler esse texto me senti muito consolado e ao mesmo tempo encorajado a discernir caminhos em minha vida tanto pessoal, quanto profissional. Gratidão pela partilha querida Claudia!

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  6. Cláudia, após refletir este belíssimo e profundo texto, duas palavras manifestam meus sentimentos, Parabéns e Obrigada! Parabéns pelos conhecimentos, pela sabedoria, pela espiritualidade…, E, obrigada pelo espírito de partilha que faz toda uma diferença, muitíssimo obrigada.

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  7. Cláudia, muito obrigada pelo seu relato! Sua fé e seu discernimento foram muito lindos de testemunhar. Além da riqueza, o texto ajudou essa cristã aqui a rezar e entender o momento pelo qual estou passando. Abençoado seja dom de consoladora de irmãos =) Paz e bem ❤

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