Violência política

Simone Furquim Guimarães

O tema hoje é sobre a violência política que acontece cotidianamente, sobretudo neste ano de eleições. À luz dos textos bíblicos, o que podemos conversar sobre isso?

O tema da violência é um assunto que é rico para os fundamentalistas que utilizam dos textos bíblicos para legitimar o seu poder e ação de conquista à base do combate ao inimigo. Vimos isso ao longo da história humana, governos totalitários usaram os textos bíblicos para praticar várias formas de violência em nome de Deus.

Estamos no mês de setembro, mês que a CNBB dedica para estudar a Bíblia. E o estudo deste ano é sobre o livro de Josué. Infelizmente, o livro de Josué foi muito manipulado para praticar a violência em nome de Deus. Por volta do ano 1098 d.C, iniciou-se as Cruzadas que exterminaram milhares de muçulmanos para conquistar a Terra Santa, seguindo o livro de Josué. Mais tarde, em 1948, o movimento judeu conhecido como sionitas – porque do monte Sião, em Jerusalém – usou os mesmos textos para legitimar a invasão e tomada da terra dos palestinos e o extermínio dos mulçumanos que ali moravam há centenas de anos. Usaram o texto para combater o inimigo e conquistar territórios.

E aqui no Brasil, os colonizadores invadiram as terras indígenas, habitadas há mais de 10 mil anos pelas tribos e exterminaram seus povos, a partir também da leitura fundamentalista do livro de Josué; afirmando que o Senhor Javé, Deus dos exércitos, manda matar povos não crentes.

As leituras bíblicas que têm por princípio a legitimação da violência estão totalmente desvinculadas do projeto de Deus. Devemos entender isso, sobretudo os cristãos que têm como horizonte o que Jesus Cristo nos ensinou nos Evangelhos.

Devemos denunciar toda forma de violência, sobretudo em nome de Deus e do Evangelho. Não podemos aceitar pessoas no poder político que usam a Bíblia para pregar ataques contra seus opositores. Palavras de ordem como: “quero todo mundo armado”, “vamos metralhar os inimigos”, “se Jesus estivesse vivo hoje, teria uma arma”; essas palavras têm consequências desastrosas, como estamos assistindo atualmente no cenário de disputa política. Só este ano, dois militantes opositores ao governo foram assassinados por motivo político. Sem falar dos preconceitos contra quem é diferente para os padrões estabelecidos por aqueles que são pretensamente defensores da tradição da família e da moral cristã.

Hoje, o livro de Josué nos ensina, por meio da prostituta Raab – a avó de Jesus, conforme o Evangelho de Mateus –  a virtude da hospitalidade, da proteção dos mais vulneráveis, e ter a coragem de dizer não ao poder opressor e a lutar contra toda forma de violência. Hoje, o livro de Josué nos ensina sobre economia solidária da partilha da terra que é dom de Deus. Hoje, o livro de Josué nos convoca a fazer aliança com o Deus amor, que está entre nós e caminha conosco e nos liberta do falso deus que está acima de todos e legitima os desmandos e as ações violentas.


Ouça no Podcast Ignatiana [link]


Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatina.

Palavra de Deus Simone Furquim Guimarães

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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