Encantar a Política (IV)

Simone Furquim Guimarães

A reflexão bíblica de hoje quer estar em consonância com o projeto Encantar a Política, em seu capítulo 4, que trata do “Cuidar da Casa Comum”. O caderno nos recorda a narrativa da criação: Deus viu que tudo que criou era muito bom (Gn 1,31). Na sequência, Deus coloca o ser humano para cuidar desta criação. Podemos perceber que a história da criação diz respeito, sobretudo da integração entre a criação de Deus e o ser humano.

Para o povo da Bíblia a natureza é fruto de dois trabalhos. Do trabalho de Deus e do trabalho humano. Sendo que desta forma o ser humano deve ser colaborador de Deus. Ou seja, deve trabalhar junto com Deus tendo como objetivo a manutenção, a preservação e o cuidado de toda a criação.

Na história que a Bíblia conta, diz que Deus, em primeiro lugar, forma o ser humano da argila do solo. Argila é terra misturada com água. A argila, para ser moldada pelo oleiro, deve ter o equilíbrio entre a quantidade de terra e a quantidade de água. Se a argila tiver mais terra do que água ela não dá forma. Se a argila tiver mais água do que terra, ela perde a forma. Portanto, a argila para ser moldada, tem que ter equilíbrio entre terra e água. Quando a Bíblia fala que Deus faz o ser humano da argila, ele tá querendo dizer que o ser humano deve ser o equilíbrio entre terra (principio feminino) e a água (principio masculino). Portanto, o ser humano, que se chama Adam – e que traduzido seria filho da terra – ele deve ser o equilíbrio entre a contribuição masculina e a contribuição feminina.

Esse Adam (masculino e feminino dentro dele mesmo, latente, misturado, equilibrado) recebe de Deus uma missão. A missão é cuidar, manter, preservar e defender todo o resto da criação, que se identifica com o jardim.

Portanto, Deus criou o mundo para ser um jardim. E o jardim, antes de tudo é um lugar bonito, um lugar cuidado, um lugar com plantas variadas, com flores variadas, com animais variados; onde toda essa variedade forma um único equilíbrio. Portanto, cuidar do jardim é manter o equilíbrio da criação. Se o ser humano desequilibra a criação, ele falha no seu trabalho.

O texto fala que no jardim não pode correr sangue. Não pode matar nenhum animal, não pode derramar sangue. Não pode desequilibrar a criação de Deus para atender os seus caprichos e as suas vontades.

Então, o ser humano, seja homem ou mulher, é antes de tudo jardineiro ou jardineira porque o seu objetivo primordial na criação é a manutenção – o cuidado. Nós temos que saber cuidar.

Portanto, todo o relato da criação tem como objetivo mostrar que o trabalho do jardineiro é manter o equilíbrio. Manter o equilíbrio nas relações com Deus, nas relações humanas, nas relações com a natureza e com a criação.

Cada vez que o ser humano se desequilibra leva a criação a um caos. Então quando o ser humano deixa de ser jardineiro e passa a ser predador do jardim, ele, automaticamente, tá levando a criação ao caos. Que é o que estamos vendo hoje. Hoje estamos assistindo uma grave crise ecológica por causa do desequilíbrio causado pelo próprio ser humano, que, ao invés de ser jardineiro, passou a ser predador. Ele utiliza a criação para os seus proveitos próprios. Por isso, o Papa Francisco nos exorta a “tomar consciência da necessidade de mudanças de estilo de vida, de produção e de consumo” (LS, n.23), para que deixemos de ser predadores e passemos a ser cuidadores, jardineiros de nossa Casa Comum.


Ouça no Podcast Ignatiana


Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).


Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.

Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatina.

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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