A saúde dos oceanos

Luiz Fernando Krieger Merico

Mística do século XXI — programa nº35

Reflexões a partir das encíclicas
Laudato si’ e Fratelli tutti

A encíclica Laudato Si, em seus parágrafos 40, 41 e 174, põe especial atenção aos oceanos e seu papel na manutenção de vida no nosso planeta. O santo padre reflete sobre as ameaças que estamos perpetrando contra os oceanos, mares e zonas costeiras. 

Recentemente, foi realizada a Conferência dos Oceanos das Nações Unidas, coorganizada pelos governos de Portugal e do Quénia, com o objetivo de mobilizar, criar e promover soluções que nos permitam alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável antes de 2030. É um enorme desafio.

Os oceanos cobrem 70% da superfície da Terra e são o lar de cerca de 80% de toda a vida terrestre, fazendo-os, de longe, o maior ecossistema do planeta. Geram 50% do oxigénio que necessitamos, absorvem 25% de todas as emissões de dióxido de carbono e capturam 90% do calor adicional gerado por essas emissões. Não são apenas os “pulmões do planeta”, são também o maior filtro de carbono, um amortecedor vital contra os impactos das alterações climáticas.

Os oceanos alimentam uma biodiversidade inimaginável e produzem os alimentos, empregos, minerais e recursos energéticos necessários para bilhões de pessoas. Necessitamos dos oceanos para que a vida no planeta perdure e prospere. Há muito que ainda não se sabe sobre os oceanos, mas há infinitas razões pelas quais temos de os geri-los de forma responsável. A ciência é clara: os oceanos enfrentam ameaças sem precedentes, resultado das atividades do ser humano, e a tendência atual é que os problemas piorem cada vez mais, piorem exponencialmente, se não agirmos de forma radical neste momento. Os oceanos estão ficando ácidos, por causa do aumento do dióxido de carbono dissolvido nas águas: o dióxido de carbono – CO2, é emitido pela nossa queima de florestas e petróleo, que é absorvido pelos oceanos e deixando-os ácidos. E os oceanos estão virando um grande lixão, principalmente com plásticos e microplásticos – em alguns casos se descreve as águas como uma sopa de microplásticos, que, inclusive, vem de nossas roupas, que estão cheias de material plástico, e do uso irresponsável dos plásticos na economia. Também a pesca predatória e destrutiva e não regulamentada promove declínio da biodiversidade. Os corais e manguezais, que são berçários da vida marinha, são destruídos em escala inimaginável. A reprodução incontrolada de algas, os sargaços, ameaça áreas turísticas como o Caribe, onde incontáveis empregos dependem destes ecossistemas. Estamos, infelizmente, destruindo a Criação de forma acelerada. 

O momento é de ação. No plano internacional duas iniciativas merecem destaque: a recente aprovação de elaborar um instrumento legal internacional para controlar a produção e uso de plásticos, e os avanços de uma convenção sobre os direitos do mar, que seria fundamental para coibir a pesca destrutiva, especialmente em alto mar. Ambas são iniciativas das Nações Unidas. Mas nos âmbitos nacionais e locais, ainda prospera a visão de destruição a qualquer custo.. são poucos os países com iniciativas concretas e as populações, as sociedades, não tem se importando muito com este desastre iminente. 

Cabe a nós, cristãos, relembra o papa, uma defesa enérgica da Criação, e um envolvimento na construção de soluções. Todos e todas nós. A destruição dos oceanos começa no continente, na terra firme. Conter as mudanças climáticas, seja por uma melhor dieta e alimentação por nossa parte, seja por fomentar a transição energética para energias limpas, eliminar o desmatamento criminoso que temos, reduzir a geração de resíduos, especialmente o plástico, tudo isto podemos fazer e ajuda a proteger a saúde dos oceanos e, consequentemente, a nossa.


Ouça no Podcast Ignatiana

Encíclicas ecofraternais do Papa Francisco

Laudato si’, sobre o cuidado da casa comum (2015)
Fratelli tutti, sobre a fraternidade e a amizade social (2020)

Luiz Fernando Krieger Merico é graduado em Geologia (UFPR), mestre em Análise Ambiental (UNESP), doutor em Geografia (USP), possui aperfeiçoamento no Schumacher College (Inglaterra) em Economia Ecológica. É autor do livro A transição para a sustentabilidade.

Ecologia Mística do século XXI

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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