Política: a mais sublime forma de caridade
Simone Furquim Guimarães
A leitura de hoje é Jo 15,18-21. O Evangelho de hoje está em consonância com o projeto Encantar a Política, promovido pelo CEFEP – Centro de Fé e Política, organismo da CNBB.
Jesus fala para seus seguidores, suas seguidoras:
Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro odiou a mim. Se fôsseis do mundo, o mundo gostaria daquilo que lhe pertence. Mas, porque não sois do mundo, porque eu vos escolhi e apartei do mundo, o mundo por isso vos odeia.
Jo 15,18-19
Qual o sentido de “mundo” aqui neste texto?
Esse discurso de Jesus é muitas vezes lido e interpretado em muitas igrejas para dizer que o Senhor está se direcionando apenas à igreja e quer que os fiéis não misturem a religião com as atividades sociais, “das coisas do mundo”. Legitima a ideia de que a igreja está tão somente a serviço da evangelização, da pregação do Evangelho, porque as atividades do mundo são profanas e sujas, e que somente Deus, no templo, a instituição religiosa é sagrada e que tudo o que é mundano (do mundo) é profano e sujo. Esse tipo de discurso gerou uma série de outras ideias; inclusive, para legitimar o profano dentro da política; bem como a ideia de que toda a política é corrupta.
É importante entender que aqui neste texto do Evangelho, o sentido de “mundo” que Jesus está se referindo diz respeito ao sistema dentro de uma sociedade que rejeitou as palavras e ações de Jesus. E para a comunidade cristã, do final do primeiro século, quando o Evangelho de João foi escrito; o “mundo” representava o sistema e sociedade do império romano e também das lideranças religiosas judaicas que não aceitavam a presença de cristãos-judeus nas sinagogas.
Portanto, aqui neste texto de João, não ser do “mundo”, significa não se alinhar aos poderes que perseguiram e mataram Jesus. Lembremos sempre que Jesus foi perseguido e assassinado porque ele foi uma pessoa extremamente comprometida com as periferias existenciais do seu tempo e levava para elas ensinamentos de construção de um mundo mais justo e de igualdade. Lembremos que a atitude de Jesus era política.
O querido papa Paulo VI tinha um bonita expressão que ensinava que a politica é a mais sublime forma de caridade. Para este papa e o magistério de nossa igreja, o Evangelho é essencialmente uma mensagem religiosa, mas que repercute e reverbera em todas as esferas da vida, particularmente, na política.
Neste ano de eleições, vamos nos comprometer com a política, pois como diz nosso Papa Francisco: “devemos fazer política inspirada no Evangelho”.
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Simone Furquim Guimarães é mestre em Teologia na linha bíblica. Tem experiência na área de Leitura Popular da Bíblia no Centro de Estudos Bíblicos (CEBI/Planalto Central).
Esta reflexão bíblica foi originalmente apresentada no Programa de Justiça e Paz, produzido pela Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília, que vai ao ar todo sábado, às 11:00, na Rádio Nova Aliança.
Desde outubro de 2020, também disponível no podcast Ignatiana.
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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.