Ser companheiro, companheira de Jesus

Pe. Adroaldo Palaoro, SJ

Não somos meramente companheiros de trabalho;
somos “amigos, amigas no Senhor”

Desde os primórdios de sua conversão, um desejo habita o coração de Inácio: compartilhar com os outros o que ele experienciou. Ele convence, comove e converte pela firmeza e profundidade de suas convicções, pela autenticidade de suas palavras e de sua conduta, pela irradiação de sua vida espiritual.

Ele “seduz”,  ganha a simpatia, a amizade, a admiração das pessoas pela comunicação apaixonada e serena de sua experiência de Deus.

Há um segredo em sua capacidade de contagiar as pessoas: a identificação com Jesus Cristo.

Em sua viagem à Terra Santa, Inácio ficou muito marcado com a imagem do Cristo companheiro, que o chama a trabalhar com Ele. Em cada canto daquela terra ela “via”  Jesus ocupado em estabelecer o Reino do Pai. E não estava só, mas com o grupo dos apóstolos, companheiros de Jesus e companheiros entre si.

Ordinariamente, a palavra “companhia” foi identificada com algo guerreiro ou de armas (é uma interpre-tação tardia em castelhano e não pretendida por Inácio); no entanto, etimologicamente, “companheiro”- “companhia”  tem a ver com o fato de “compartilhar o mesmo pão”.

Companheiro é quem come o pão com outro.

Por isso, Inácio-leigo busca amigos e compartilha com eles o dinheiro e a comida nas universidades qu estudou, dando-lhes os Exercícios e convidando-os à solidariedade com os mais necessitados…

Daí também se entende porque Inácio sai sempre em busca de companheiros(as)  com os(as) quais podia compartilhar todas as suas experiências. Neste sentido, é interessante considerar como a amizade – como expressão e extensão da relação com Jesus – não levou o leigo Inácio a tratar somente com os homens.

Sua amizade com várias mulheres foi  sempre muito forte, muito rica e duradoura.

A personalidade de Inácio, sua sensibilidade e capacidade para o acompanhamento espiritual, foram influenciadas, seguramente, por sua amizade ampla e próxima com as mulheres.

Este contexto de “compartilhar o pão” aparece também no exercício do Reino:

portanto, quem quiser vir comigo há de contentar-se de comer como eu, bem como de beber e vestir, etc… do mesmo modo há de trabalhar comigo.

EE 93

A partir disso, começa a se modelar o(a) inaciano(a) como “companheiro(a)” de Jesus.

O chamado de Jesus feito aos apóstolos e o posterior envio deles para a missão, são duas páginas do Evangelho que marcaram profundamente Inácio e que se encontram refletidas nas meditações mais tipicamente inacianas: o chamado do Reino, as Duas bandeiras, os Três binários.

S. Inácio tem consciência de que não é ele que chama os outros a se unirem à sua missão. É o Rei Eterno que chama a todos pessoalmente e os torna “companheiros”  d’Ele para o trabalho de construção do Reino do Pai. É o Senhor que conversa com seus colaboradores e amigos e os envia em missão.

Para quem é inaciano(a), Jesus é central porque assim o experimentou nos Exercícios. Não só o conhece senão que chegou – por graça –  a sentir como Jesus, para atuar como Ele, sendo impulsionado a encarnar-se com a sensibilidade d’Ele. Por isto, o centro da vida é o Senhor a quem se experimenta como amigo e companheiro, porque no colóquio da oração aprendeu a falar com o Senhor “como um amigo fala a outro amigo” (EE. 54).

Toda a experiência da Segunda semana está perpassada por este seguir a Jesus até às últimas consequências e de colocar-se em sua companhia; é o “comigo” que brota do exercício do Reino.

A experiência de ser pecador(a) perdoado(a) lhe dá um matiz específico a este traço: é pecador(a), e no entanto, é chamado(a) a ser companheiro(a)… O mais profundo disto é que, precisamente por ser pecador(a) perdoado(a), é chamado a “compartilhar o pão”. Esta é a nova compreensão do que é ser pessoa inaciana: pecador(a) perdoado(a), chamado(a) a ser companheiro(a) de Jesus.

Para orar

Textos bíblicos:
Lc 24,13-34 | At 2, 42-47 | Jo 21,1-18

Na oração:
Nos Exercícios, a pessoa inaciana aprende a descobrir a Jesus em sua Palavra, na Eucaristia e também nos necessitados: “como padece Cristo na humanidade” (EE. 195).

Esta experiência faz com que o(a) inaciano(a) fomente a companhia da pessoa de Jesus, mas também gerando companhia com os outros. A espiritualidade laical inaciana possui, como algo essencial, o traço do companheirismo: do compartir o pão ao “partilhar o ser e o ter”.    

Veja aqui o vídeo com a reflexão de padre Adroaldo: [link]


Adroaldo Palaoro é padre jesuíta, atua no ministério dos Exercícios Espirituais.

Espiritualidade cristã Padre Adroaldo Palaoro, SJ

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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