Ucrânia: erros demais por parte de todos os atores

Luciano Fazio

O conflito entre Rússia e Ucrânia destaca o fracasso da solução negocial de divergências entre dois países. Em desacordo com as versões mais ou menos explícitas dos meios de comunicação dos países desenvolvidos, a guerra em curso não decorre apenas da prepotência russa, mas é o resultado de erros de todas as partes envolvidas: a Ucrânia, a Rússia, a União Europeia (EU), os Estados Unidos (USA) e as Nações Unidas (ONU). Deixando de lado a abordagem ideológica, aqui em seguida, identificamos tais erros.

A RÚSSIA. Para Moscou, a possível adesão da Ucrânia à OTAN (a aliança militar de USA e EU) é uma ameaça, pois completaria o cerco do pais pelo “inimigo”, quase como para os USA na crise dos mísseis de Cuba em 1962. Os russos querem a neutralidade e a desmilitarização da Ucrânia. No entanto, não têm credibilidade para obtê-las. Com efeito, quando a Ucrânia tomou iniciativas para ingressar na EU (a partir de 2014), a resposta russa foi a anexação da Crimeia e o incentivo aos movimentos separatistas das regiões orientais da Ucrânia, fatos que mostram que os objetivos de Moscou vão além, colocando em discussão a própria independência e integridade territorial ucraniana. É evidente que as alegações russas (evitar a ameaça militar) não guardam coerência com a prática (desestabilizar o país vizinho e reduzir o território dele). Essa contradição prejudicou as chances de um acordo entre as partes. Ainda, a atual opção de Putin pela solução militar subestimou as fortes reações dos outros atores e as duras consequências para o seu próprio país.

A UNIÃO EUROPEIA (EU). Nos últimos anos, por meio de suporte econômico e político à Ucrânia, a União Europeia incentivou Kiev a posturas intransigentes diante das reivindicações de Moscou. Somada à pouca credibilidade de Moscou, a atuação da EU induziu Kiev a não empenhar-se na busca de soluções negociadas com a Rússia. Contudo, o apoio da União Europeia é limitado, tanto pelos fortes interesses econômicos para com a Rússia, quanto pela prudência que leva a Europa ocidental a não comprar brigas mais sérias com uma grande potência militar e nuclear.

A UCRÂNIA. Kiev errou na avaliação tanto da dimensão do apoio europeu, quanto do tamanho do perigo russo. Parece ter previsto que os russos se limitariam a incentivar e apoiar um conflito não declarado e de baixa intensidade nas regiões orientais do país, protagonizado por milícias filo-russas. Ainda, parece ter acreditado no seu fácil ingresso como país membro da OTAN, o que a protegeria de agressões externas. Por fim, desconsiderou as grandes limitações do socorro ocidental em caso de ataque russo.

Os ESTADOS UNIDOS. Nas últimas décadas, os USA não tiveram grandes vitórias militares e politicas (pensem no Iraque e no Afeganistão), além de perder importância econômica. Com sua liderança mundial em declínio, os USA vêm sendo desafiados por Rússia e China. Ao mesmo tempo, depois do fim da União Soviética, a OTAN cresceu fortemente no Leste da Europa. De um lado, o objetivo declarado desse crescimento é defender da Rússia os ex-países da esfera de influência soviética. Do outro lado, a ampliação da OTAN no Leste visa isolar e intimidar Moscou. Em relação à Ucrânia, a OTAN aplicou o mesmo projeto (mas sem conclui-lo), se aproveitando da “ingenuidade” de Kiev e, ao mesmo tempo, não levando a sério as preocupações, as ambições e a capacidade de ação de Moscou. Em suma, o recente esforço da OTAN de fortalecer-se contra os russos na Europa, longe de aumentar a segurança no continente, contribuiu para reduzi-la.

Nos primeiros dias da guerra, quem pagou o preço dos erros aqui descritos tem sido principalmente a Ucrânia, destruída pelo conflito. Contudo, também os outros países terão de pagar as contas desse conflito, que serão mais altas do previsto. A Rússia que já o diga. A propósito, quem mais se beneficiará dessa guerra será possivelmente a China, que assiste ao desgaste dos outros grandes atores mundiais (USA, Rússia e Europa), ou seja, é facilitada na implantação do projeto estratégico de tornar-se a maior potência mundial até o ano de 2050.

A guerra da Ucrânia revela mais uma vez também os erros e os limites da construção da ONU, organismo multilateral útil para impedir conflitos menores, mas geralmente incapaz de arbitrar controvérsias que envolvem as grandes potências (as que têm o poder de veto das resoluções do Conselho de Segurança).

A guerra não era inevitável. Com efeito, a garantia de neutralidade da Ucrânia era julgada inaceitável por Kiev e pela OTAN até quinze dias atrás, mas – hoje em dia – seria um preço pequeno (e aceito pela Ucrânia) para pôr fim ao conflito armado.

Em suma, a tragédia ucraniana, que cresce a cada dia, mostra que a paz passa pelo reconhecimento dos erros que marcaram todo esse processo. Não é tarde demais para tanto.


Imagem: Armut, 1920 — Lasar Segall


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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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