Espiritualidade da Sustentabilidade

Luiz Fernando Krieger Merico

Mística do século XXI — programa nº21

Reflexões a partir das encíclicas
Laudato si’ e Fratelli tutti

A encíclica Laudato Si nos propõe, em sua essência, uma espiritualidade da sustentabilidade. Podemos começar a entrar nesta espiritualidade por meio do livro do Gênesis, que nos coloca, os seres humanos, como representantes de Deus perante a criação. Nem sempre agimos assim, e então chegamos ao século XXI com uma gigantesca crise ambiental.

Esta gigantesca crise ambiental nos mostra que além do esgotamento dos recursos naturais, vivemos hoje um esgotamento dos recursos relacionais – as relações. A espiritualidade da sustentabilidade se espelha também na Trindade: se Trindade é relação, deveríamos cuidar das relações entre nós, seres humanos e entre a humanidade e a natureza. Estas relações não vão bem, caracterizam-se pela violência.

As relações Trinitárias caracterizam-se pela não-dominação. A não-dominação de etnia, gênero, de classes. A não dominação sobre as outras formas de vida e sobre os processos mantenedores dela. A cooperação, esta sim, deveria ser a tônica nas relações, revertendo o esgotamento relacional em nossa sociedade. As relações Trinitárias não são hierárquicas, não são dominadoras, não são consumistas e nem destruidoras. A imitação das relações Trinitárias nas relações humanas abriria novos caminhos para a humanidade. 

Indo para a prática: ar, água, solo, biodiversidade, clima, são todos bens de uso comum. Mas considerando-se a limitação de recursos naturais, devemos utilizá-los de modo sensato, fraterno e solidário, ou seja, tanto quanto para que não falte para ninguém. Somos filhos de Deus, mas não filhos únicos. Devastar a natureza, cortar suas relações, negar seus frutos para parte da humanidade e para os que estão por nascer é contrário ao projeto Trinitário de criação e sustentação.

Na medida em que o ser humano está inserido na natureza, ou para reconhecer e respeitar nela a grandeza de Deus ou para destruí-la e desorganizá-la, a superação da crise ambiental exige uma conversão das pessoas e das estruturas sociais. Uma atitude concreta, pessoal, de renúncia ao consumismo, à exploração predatória, à injustiça institucionalizada, à degradação de ambientes e ecossistemas é essencial.

Fazer isto pressupõe o que Santo Inácio de Loyola chamava de ordenamento de nossas afeições desordenadas – os sentimentos desordenados. É a idéia de que a pessoa deve superar os obstáculos interiores, ou seja, suas afeições desordenadas, que nos impedem de viver plenamente. A questão ambiental em todas as suas dimensões é reflexo de nosso desordenamento interior no espaço físico, geográfico e biológico que nos rodeia, e o ordenamento destes sentimentos é a maneira de cooperar com Deus Trino na evolução de nosso planeta. Repetindo: a nossa desordem interior se manifesta como destruição do ambiente que nos rodeia.

A partir do momento que adquirimos consciência do bem e do mal, como simbologicamente aparece no livro do Gênesis (Gn, 3), nossa tarefa central passa a ser cuidar da Árvore da Vida, a que gera frutos para gerações, gerações e gerações. A Árvore da Vida simboliza a essência da sustentabilidade, talvez sua mais antiga visão. No Gênesis, Deus põe um anjo com espada de fogo para cuidar do caminho da árvore da vida para que os humanos não a destruam. Por isso São João, em suas visões, no último capítulo do último livro da Bíblia – o Apocalipse (Ap 22) vê, finalmente, a Árvore da Vida curando as nações.

Ouça no Podcast Ignatiana

Encíclicas ecofraternais do Papa Francisco

Laudato si’, sobre o cuidado da casa comum (2015)
Fratelli tutti, sobre a fraternidade e a amizade social (2020)

Luiz Fernando Krieger Merico é graduado em Geologia (UFPR), mestre em Análise Ambiental (UNESP), doutor em Geografia (USP), possui aperfeiçoamento no Schumacher College (Inglaterra) em Economia Ecológica. É autor do livro A transição para a sustentabilidade.

Ecologia Mística do século XXI

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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