Colaborar com a Criação

Luiz Fernando Krieger Merico

Mística do século XXI — programa nº20

Reflexões a partir das encíclicas
Laudato si’ e Fratelli tutti

O tempo Pascal é muito propício para pensar sobre nossas relações com a criação. A ressureição, celebrada na Páscoa, nos remete à ideia da reconciliação com tudo: reconciliar com todos os que vivem e com o mundo que nos rodeia. A encíclica Laudato Si’ aborda este tema da reconciliação. Precisamos de uma transição que nos leve em direção à uma reconciliação geral e irrestrita, que não será alcançável sem uma fantástica cooperação entre os povos.

Mais do que tudo são estilos de vida que necessitam ser alterados. O comportamento humano necessita ser alterado – ressuscitado, para utilizar um termo pascal. O resto seria apenas consequência disto. Produção e consumo transformados seriam, enfim, consequência de um novo comportamento humano, o qual buscaria viver em cooperação constante com as leis gerais da biosfera e dos ecossistemas. Isto é, de fato, um imperativo histórico se queremos evitar as grandes rupturas que já se iniciaram e que mergulharão nossa sociedade em grande sofrimento e caos.

Entretanto não há demanda política e social por esta mudança de comportamento humano. Estaria justamente aqui o enorme desafio de nosso momento histórico: transformar um gigantesco conjunto de evidências em demandas por mudanças fundamentais, capazes de gerar um processo de cooperação em nível global e colocar a humanidade em outro patamar histórico, associado aos desafios do século XXI, descritos pela Laudato Si’.

Jamais estivemos, como humanidade, frente a frente com os limites da biosfera. Jamais estivemos a ponto de destruir em escala tão ampla a delicada e intrincada teia da vida que nos sustenta. Por isso que, além da ética da sustentabilidade, estas ameaças exigem também uma reflexão à luz da espiritualidade. Mexe com nossa espiritualidade porque não é possível dissociar a espiritualidade do mundo circundante, da realidade que nos rodeia.

Não importa em qual fonte irá se alimentar nossa espiritualidade. Todas guardam valores que nos relacionam e inserem no meio ambiente e afirmam a sacralidade da vida e da natureza. No Hinduísmo a Trimurti, tríade formada entre Brahma, Vishnu e Shiva possuem atributos cósmicos interativos, onde Shiva com seus movimentos dançantes origina o mundo e Vishnu o mantém. O Budismo cultiva forte nexo com o cosmos, pregando um esvaziamento do ego da pessoa, criando dentro dela mesma um espaço de vacuidade para simplesmente ser com todas as criaturas, pois tudo está ligado a tudo. No Camdoblé se descreve a criação do mundo como obra de Oxalá, por ordem de Olodumaré, em dois planos constitutivos originários: aiyê (físico) e orum (metafísico) onde cada árvore, cada animal possui um duplo espiritual e abstrato. No Islã, Allah cria e segue cuidando da criação, mas não confere aos humanos um poder irrestrito: os servos do Misericordioso devem pisar a terra com humildade. Em uma espiritualidade da sustentabilidade cristã, a partir de onde vejo o mundo, o papel da Trindade deve ser compreendido com profundidade.

Trindade é essencialmente relação. As coisas visíveis se constituem em um equilíbrio dinâmico que co-evoluem. Todas as formas de vida e as diferentes manifestações da energia co-evoluem na história cósmica, como diria o padre jesuíta Teilhard de Chardin. A criação está aberta à história, está aberta à intervenção humana. Podemos colaborar com a Trindade e completar, aperfeiçoar a criação ou colaborar com a danação e degradação de tudo. Qual é nossa opção?

Ouça no Podcast Ignatiana

Encíclicas ecofraternais do Papa Francisco

Laudato si’, sobre o cuidado da casa comum (2015)
Fratelli tutti, sobre a fraternidade e a amizade social (2020)

Luiz Fernando Krieger Merico é graduado em Geologia (UFPR), mestre em Análise Ambiental (UNESP), doutor em Geografia (USP), possui aperfeiçoamento no Schumacher College (Inglaterra) em Economia Ecológica. É autor do livro A transição para a sustentabilidade.

Ecologia Mística do século XXI

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IGNATIANA é um blog de produção coletiva, iniciado em 2018. Chama-se IGNATIANA (inaciana) porque buscamos na espiritualidade de Inácio de Loyola uma inspiração e um modo cristão de se fazer presente nesse mundo vasto e complicado.

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