As moções do Espírito Santo

Pe. Manuel E. Iglesias, SJ

Chamamos moções espirituais aos impulsos que o Espírito Santo de Deus e o tentador colocam em nosso coração. Tais movimentos interiores são perceptíveis porque deixam em nós sentimentos de paz ou inquietação, de alegria ou de tristeza, de fé, esperança e caridade, ou o contrário.

Uma vida espiritual intensa pede atenção às moções e lucidez para separar o trigo do joio. Vigiar é, pois, importante na vida espiritual. Mais importante ainda é se deixar conduzir pelas mãos do Espírito Santo: sentir, interpretar e seguir os seus impulsos. A santidade consiste nesta fidelidade que é fruto da crescente familiaridade com a voz do Espírito que fala e nos move dentro de nós. O que faz o cristão feliz não é o cumprimento exato da lei, mas uma decisão consciente e gozosa ao que o Espírito inspira.

Ao aplicar essa atitude de fidelidade à vida de oração, aprendemos a acompanhar o que o Espírito nos faz sentir. Ao curtir e saborear os sentimentos profundos que vêm de Deus, aprendemos por experiência a reconhecer tais sentimentos dentro de nós e a nos deixar conduzir por eles, não só na oração, mas também na ação. A fidelidade à vontade de Deus vai transformando, cada vez mais, em obediência filial ou escuta admirada e amorosa. Aquele que a toda hora está conosco nos comunica a sua infinita riqueza. A familiaridade com Deus vai se tornando uma gozosa atenção às moções divinas que fazem da oração um diálogo confiante e da ação um serviço dedicado no qual até o sofrimento é absorvido pelo amor.

Tudo isso pode parecer estranho para muitos. Um mestre como Santo Inácio não teme, apesar dos riscos de ilusão, orientar os principiantes nessa docilidade ao Espírito, sempre que existe na pessoa abnegação e purificação de si mesma. Em todo caso, Inácio jamais aconselha rejeitar as moções que o Espírito faz sentir. E quando estas desaparecem deve-se esperar com paciência a consolação que o Senhor concederá. Trata-se de uma provação passageira. É bom desejar a volta da consolação divina, a chamada devoção, que Inácio insiste em buscar e pedir a Deus, tanto na oração como na ação. É que quando sentimos Deus ao nosso lado o serviço se torna mais generoso e contagiante.

O objetivo dessa atenção às moções de Deus, em que consiste o discernimento espiritual, é conhecer a vontade de Deus, para inteiramente cumpri-la. O sentimento espiritual, portanto, nunca termina em si mesmo; o esforço ascético está subordinado à mística do serviço. Para evitar enganos subjetivos é importante, além da submissão à voz do Espírito, submeter o nosso discernimento à pessoa de um orientador que representa a Igreja.

O crescimento na vida espiritual nos faz passar de uma fidelidade moralista para uma propriamente espiritual; do dever em relação a uma norma objetiva a uma resposta pessoal ao Espírito Santo que nos chama e impulsiona. A vontade de Deus é sentida como um dom, um verdadeiro presente espiritual. Sem essa obediência ao Espírito, a vida cristã será como a de um “mercenário” a serviço de Deus.


IGLESIAS, Manuel E. Onde estás, Senhor? São Paulo: Loyola, 2005. 180 p.

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