A língua em que me pronuncio no amor à vida e à liberdade

Diário de um desespero – ou quase – LXXX

João Carlos Pereira

A octagésima crônica desta série coincide com o Dia da Língua Portuguesa, que também é o Dia de Camões e, como não poderia deixar de ser, o de Portugal. Tudo junto e misturado aparece na forma de um grande amor na minha vida. Celebrar a língua, o poeta e a pátria, no mesmo momento, significa, também, poder expressar a gratidão pelo que somos e no que nos transformamos. O Brasil será eternamente agradecido a Portugal porque nos fez adultos na forma de uma nação. Por isso que Manuel Bandeira dizia, todo orgulhoso, que Portugal é nosso avozinho, já que, sendo filhos do Brasil e o Brasil, filho de Portugal, viramos netos da “terrinha”.

Minha relação inicial com o idioma foi confusa e atormentada. Tive péssimos professores, que achavam que a língua era um amontoado de regras, em estado de atenção, incontestáveis, mais infalíveis do que o Papa e prontas para ser seguidas cegamente. Não havia possibilidade do aceitável ou permitido no registro oral. Era tudo na base do “lei é lei e está acabado”.

A pior professora que tive na vida “ensinava” português e gostava de pisar o pé da gente. Dizia que não se desculpava, porque estávamos vendo que ela ia passar e não desobstruíamos o caminho de suas patas. Ela devia sentir enorme prazer com as notas baixas que nos atribuía, em provas para descobrirmos funções sintáticas nos versos de “Os Lusíadas”. Genial como era, Camões colocava o sujeito da frase lá no fim da fila e embaralhava tudo. Eu lia e não entendia nada. Ela também não explicava coisa alguma. Aí dava mesmo certo.

Essa criatura cumpriu, com perfeição, a missão de nos fazer odiar a língua, o poeta e seu poema. Camões, hoje, é um dos meus escritores de cabaceira. Nem sei mais quantas vezes reli “Os Lusíadas” que tanto odiava. Devo esse amor tardio à professora Socorro Simões que, na universidade, me fez perceber a beleza dos 8816 versos da epopéia. Nos anos 70, porém, o poeta me atormentava, exibindo aquele seu olho cego, como um demônio noturno.

Na infância, eu achava que Camões era o dono da padaria, que produz pães, pizzas e biscoitos maravilhosos, na esquina da Brás com a Rui Barbosa. Se dependesse da professora, cujo nome não escrevo para não empobrecer a crônica, jamais entenderia uma linha do épico português e continuaria a ignorar sua poesia. Já disse, em outra crônica, que só passei a gostar de português, quando conheci Concita Bentes e Marlene Vianna, grandes mestres, amigas queridas.

No curso de Letras, voltei a pegar abuso pelas disciplinas de língua portuguesa. Achava tudo muito chato e não escondia essa aversão dos professores, que eram todos gente boa. A valência era que havia as literaturas e as teorias literárias, que amenizavam o deserto em que me meti. Estudei português na marra, porque precisava dar aulas particulares e enfiei a gramática na cabeça. Quando entendi que regras só serviam para atrapalhar, desisti do ofício. Por isso que, no Brasil, raro é o aluno que aprecia o estudo da língua-mãe. Hoje, aposentado, ensino português como acho que deve ser e não como querem que seja. E todo mundo gosta.

Se eu pudesse, se fosse autoridade, reintroduziria o ensino do latim e faria a meninada ler a mão cheia, como dizia o Castro Alves. A língua não é uma caveira escorada no canto da sala, com os ossos à mostra, pronta para aula de anatomia. Trata-se de um encantamento feito de ternuras, lirismos e saudades. Roteiro melodioso, repleto de meandros, nos quais se percebem belezas ocultas, sem lugar para coisas horrendas como função do que e do ser, mais estudo de verbos irregulares.

A língua não é aquela baboseira de última flor Lácio, mas um orquidário perfumado, repleto de nuances e de possibilidades. A língua passeia na boca dos falantes daqui e d´além mar, com sotaques, variações, sonoridades, erros e acertos, perceptíveis e reprováveis apenas ao olhar atravessado dos gramáticos que padecem de crônica infelicidade. Quem pode ser condenado pelo manejo do próprio idioma?

Entendo bem que é preciso colocar um certo freio, para que a língua não se esparrame e se perca em mutações desnecessárias, mas é impossível domar seu crescimento, sua evolução, seu desabrochar a cada tempo e em cada lugar. A língua portuguesa é nossa alma caramelizada de palavras e expressões nascidas em todo canto, semeadas por quem escolheu nosso chão-universal para viver, para formar campos de linguagens de todas as cores, raças, religiões, olhares, pratos, danças, literaturas e vidas livres.

A língua portuguesa é Portugal em nós. É a melhor expressão de liberdade e de poder dizer. É nosso dicionário interno, feito de começo e de meio, sem fim previsto. Nossa língua é o coração pulsando em sílabas de meiguice. Quem não entende assim, torna-se feitor de regras e usa o chicote trançado com tiras de certos e errados, com o couro de gramática velha, para surrar o invisível e o novo. A língua portuguesa é nosso melhor grito de liberdade.

Portugal em mim são as terras e as gentes. O mar e as ribeiras. As ruas de Lisboa, as pedras, os azulejos. Os caminhos da Sertã, as feiras, as pequenas igrejas, os festivais de comidas de nome estranho, como maranho, e as placas de “há caracóis”, indicando, para nós, brasileiros, que misturamos ter com haver, que os caracóis estão à nossa espera, assim como as sardinhas e o bacalhau. Portugal são os detalhes, as vozes cantadas e apressadas, que atropelam as sílabas. A Serra da Estrela e seu queijo, o vinho e o azeite produzidos nos quintais. Um mundo que o turismo, felizmente, ainda não descobriu. Portugal é a família que me acolheu.

Quanto a Camões, ao querido Camões, passei a amá-lo, apesar daquela professora. Se chego aos pés do Jerônimos, depois de comer os famosos pastéis, e não fico intimidado pelas filas intermináveis, me permito estar um pedacinho diante de seu túmulo simbólico, sobre o qual, coincidência ou não, sempre encontro rosas brancas. Passo e a mão sobre a pedra fria, olhando os leões sobre os quais se assenta a estrutura tumular vazia, em cima da qual repousa a estátua do desbravador e senhor da língua portuguesa, para evidenciar que ele não foi moldado com o mesmo barro que nós. Só aos reis e ele concederam a dignidade de não se decompor junto ao chão. Faço o carinho possível no poeta cujo busto, presente de minha mãe, comprado em sua única ida a Portugal, me observa e de alguma forma abençoa, do alto de uma das prateleiras de meu gabinete de trabalho.

A língua portuguesa que amo tem em sua receita a parte secreta dos pasteis de Belém e um grande afeto por Belém do Grão-Pará, onde tudo em mim começou e haverá de terminar. Vou do bê-a-bá em português de menino até a cerimônia do adeus, oficiada na língua de minha vida e também de minha morte.


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Dina Oliveira — O limiar do tempo, 1987.

Crônica

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