A CVX e a pandemia no Brasil de hoje

Guiados pelo Espírito: Porque nossa Comunidade é um caminho de vida cristã, estes princípios devem ser interpretados não tanto segundo a letra deste texto, mas antes pelo Espírito do Evangelho e a lei interior do amor. Esta lei, que o Espírito inscreve em nossos corações, expressa-se a si mesma de maneira nova em cada situação da vida diária. Respeita a unicidade de cada vocação pessoal e possibilita-nos sermos abertos e livres, sempre à disposição de Deus. Desafia-nos a tomar consciência de nossas graves responsabilidades, a buscar constantemente as respostas às necessidades de nossos tempos e a trabalhar em união com todo o Povo de Deus e todas as pessoas de boa vontade para o progresso e a paz, a justiça e a caridade, a liberdade e a dignidade de todos os povos.

Princípios Gerais da CVX, n. 2

O Princípio Geral da COMUNIDADE DE VIDA CRISTÃ nº 2, citado acima, nos remete à lembrança de que nossa Espiritualidade e nosso estilo de vida estão conectados firmemente à vida do Povo de Deus encarnada na história dos homens.  Não perdemos a transcendência, mas começamos a experimentá-la a partir de uma realidade concreta.  Mais que isso, somos desafiados a tomarmos consciência de que os valores pelos quais nos empenhamos não são somente uma opção de vida, mas também uma responsabilidade.  Portanto, o membro da COMUNIDADE DE VIDA CRISTÃ (CVX) é aquele que discerne a realidade à luz do Evangelho e age para a dignidade da Comunidade e da Sociedade.  Não vivemos uma espiritualidade fechada em si mesma, alheia ao que se passa ao seu redor, mas somos uma COMUNIDADE DE VIDA CRISTÃ que, a partir do seu interior, sai ao encontro do outro, testemunhando o Projeto de Deus.  Portanto, tudo nos importa, tudo nos afeta, tudo nos interessa, nada nos escapa, se é para “o progresso e a paz, a justiça e a caridade, a liberdade e a dignidade de todos os povos.”  Qualquer tentativa em sentido contrário, ou seja, de isolamento da CVX, seria mera alienação comunitária e espiritual.

Quando vivemos a triste marca de 40 mil mortos vítimas da pandemia do COVID-19, isso deve nos atingir de maneira ainda mais contundente.  Lembrando em Marcos, 8 de Jesus que teve compaixão da multidão faminta, recordamos também do seu mandado no mesmo episódio relatado em Lucas, 9: “Dai vós mesmos de comer”, aliás lema citado em nossa última Assembleia Mundial.

Na complexidade do momento, não existem saídas ou soluções fáceis.  É preciso reconhecer, com a mesma compaixão de Jesus, o sofrimento de tantas pessoas, em especial os mais vulneráveis: doentes, sobretudo os que esperam um leito, desempregados, trabalhadores informais, indígenas, pequenos empreendedores e todo rol de minorias, que formam a grande maioria do povo brasileiro e que padece de uma história de desigualdade social, exposta de maneira mais nua nessa pandemia.  

No entanto, lembremos também das palavras de Santo Inácio: “O amor consiste mais em obras do que em palavras.”  A ação de cada membro CVX à luz do Evangelho de Jesus, deve ser permeada pelo Discernimento, ferramenta tão cara para nós e muitas vezes negligenciada e ofuscada por paixões e pontos de vista arraigados, principalmente quando entramos no terreno político.  Não estamos no tempo para apontar dedos nem de julgar o discernimento do outro, mas sim de cooperar para dar cabo do desafio atual diante dessa pandemia.

Sem desconsiderar o discernimento de cada um, cabe-nos indicar alguns pontos para nossa ação como Corpo Apostólico:

  • Ajudar concretamente a quem mais precisa e quem está mais próximo, seja material ou espiritualmente.  Não podemos ficar impassíveis.  Todo mundo tem algo que pode oferecer, ainda que pouco: uma palavra, uma ação, um auxílio, algum recurso;
  • Colaborar e incentivar a colaboração no cumprimento das orientações sobre o modo de proceder diante do novo coronavírus, emitidas pelas autoridades e especialistas de saúde.  O valor da vida é inegociável e deve prevalecer sobre qualquer outra variável ou interesse;
  • Exigir do Estado e colaborar pessoal e comunitariamente com políticas públicas de promoção da pessoa humana, sobretudo, mas não exclusivamente, para aqueles em posição de vulnerabilidade, já citados, mas que não custa reforçar: os empobrecidos, a população de rua, os idosos, os jovens, as crianças, os desempregados, os indígenas, as populações das periferias das grandes cidades, o pequeno agricultor, o empreendedor, os trabalhadores informais e toda a gente aqui não nominada que precisa de ajuda nesta jornada;
  • Por extensão e de maneira conexa à promoção da pessoa humana, citada no item anterior, colaborar e promover uma economia solidária, onde as relações entre os agentes sejam justas, tendo a pessoa humana como centro e acima de qualquer lei de mercado e que também considere a sustentabilidade da nossa Casa Comum, tão devastada pela degradação ambiental;
  • Ter uma postura profética em prol de uma sociedade mais equilibrada, o que inclui defender de maneira pacífica, porém firme, o Estado Democrático de Direito brasileiro justo e em harmonia republicana.  Esse é um legado, ainda em construção, das últimas gerações. Não existe atalho.  Qualquer aventura ou mesmo propagação de ideias pela sua ruptura, por qualquer expediente, traria mais sofrimento e injustiça.  A apropriação do Evangelho e do nome de Deus por plataformas políticas quando não se efetivam em favor daqueles que o Evangelho defende é mera propaganda ou slogan.  O Senhor se faz presente na nossa história sobretudo por sua Ação e Graça e por nossa colaboração;
  • Junho é o mês das comunicações. Vivemos uma época de aldeia global.  Nunca na história humana tivemos uma rede de comunicação tão ampla e espraiada.  Paradoxalmente, vivemos uma pandemia de desinformação, uma enxurrada de fake news e de meias verdades com o objetivo de levar mentira e confusão.  “A verdade vos libertará”, disse Jesus. É com esse espírito que devemos cuidar e ficar atentos. Não compartilhar notícias falsas ou que não tenhamos certeza sobre sua veracidade. Que a nossa comunicação seja para informar, esclarecer, aproximar e cuidar do outro;
  • Não querer ser “especialista” em assuntos que não se tem domínio.  Não impor perspectivas como sendo uma verdade única.  Agir sempre com caridade com o outro, que pode ser diferente, mas não é seu inimigo. Todos estamos juntos nessa travessia da experiência humana.  Seria bom lembrarmos do ensinamento de Santo Inácio: “se há de pressupor que todo o bom cristão deve estar mais pronto a salvar a proposição do próximo que a condená-la; se a não pode salvar, inquira como a entende, e, se a entende mal, corrija-o com amor; e se não basta, busque todos os meios convenientes, para que, entendendo-a bem, se salve.” (EE 22);
  • Promover a unidade da comunidade e da Igreja dos Apóstolos de Jesus. Combater as ações do mau espírito que deseja dividir a Igreja e a comunidade, distanciando os irmãos da fé em Jesus e de sua prática;
  • Rezar muito pela humanidade sofredora e para que o Espírito ilumine os que trabalham em busca de uma cura para esse mal que nos aflige a todos.

Por último, porém não menos importante, manter a esperança de que esses tempos difíceis serão amenizados e que, apesar do egoísmo ser corrente, sairemos disso tudo mais fortes e mais conscientes de que dependemos uns dos outros, tendo sempre na mente e no coração a promessa de Jesus:

Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos.

Mt 28,20

Alexandre Tenorio, coordenador nacional,
com colaboração do Conselho Executivo Nacional da
Comunidade de Vida Cristã Brasil

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Justiça e Paz

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