Me chame, São Pedro. Mas não agora, tá?

Diário de um desespero – ou quase – LXXVIII

João Carlos Pereira

Já gostei muito do mês de junho. Até ansiava por ele. Era em junho que eu dançava quadrilha marcada em francês, na Aliança. Nessa época, aumentei minha família de afetos com o compromisso selado sobre a fogueira. Ganhei uma irmã, uma comadre e uma porção de amigos. Me esbaldava nas iguarias e tinha gosto de enfeitar o quintal de casa com bandeirinhas. Adorava ver Boi e Pássaro no terreiro. Apreciava tanto, vivia junho tão intensamente, que até jurado de concurso cheguei a ser. Com o tempo, fui deixando de gostar e hoje só não passo indiferente, porque não perdi o encanto pelos bumbás e pelas aves.

Além dos folguedos, uma tradição da época ainda faz com que meus olhos brilhem e eu recorde meu tempo de menino: o banho de cheiro, também chamado de banho da felicidade. A receita é simples: basta comprar os matos de uma erveira confiável, como a Beth Cheirosinha, por exemplo, que não empurra qualquer capim no meio das plantas perfumadas, macerá-las, ralar os caroços e cascas e deixar tudo numa bacia, para me banhar da véspera de São João, repetindo o refrão: “chêro cherôso, para tirar o catingoso”.

Também aprecio andar com capelinha de São João na cabeça. De tudo que veio da minha infância, apenas não uso mais a fita vermelha amarrada no braço, como gostava de me ver a “vovó” Francisquinha Menezes, que também tinha grande paixão, tal como seu marido, o poeta Bruno, por esse tempo encantado.

No casarão da rua João Diogo, 26, a família Menezes enfeitava a sala de visita e preparava uma mesa com pratos típicos. Maria de Belém, a Beloca, não aceitava que se falasse festa junina e, sim, joanina, porque é celebrada em honra de São João e não da deusa Juno. Mas ninguém liga para esse detalhe (ou o desconhece, que é mais certo) e sai falando junina.

Juno era uma deusa linda, tipo uma Bruna Lombardi. Linda e corna. O marido, o deus Júpiter, a traía com deusas e mortais. A pobrezinha sofria, mas não passava recibo, nem dava troco. Manteve-se fiel a ele. Cuidou dos quatro filhos que tiveram e é representada por um pavão e por um lírio. Virou símbolo da fidelidade. Talvez Santo Antônio tenha sido colocado no lugar de Juno e virado santo casamenteiro, para ajudar a criar noivas esperançosas. No catolicismo, isso virou prática bastante comum.

Quando Júlio César criou o calendário solar, deu ao sexto mês do ano o nome de Juno. A palavra, cristianizada, ganhou um H e virou junho. Este ano, não haverá são João, nem festa joanina, porque a covid até brincou carnaval escondida, mas agora que deu as caras, ninguém quer saber de dançar com outra pessoa e, na calada da festa, pegar o corona.

Dos santos desse mês, tenho especial apego com São João e São Pedro. Para o primeiro, vou pedir que afaste o catingoso do capeta chamado corona vírus. Para o segundo, porteiro do paraíso, que me acolha do mesmo jeito como recebeu a Irene, do Manuel Bandeira, na porta do céu e diga igualzinho:

– Entra, João. Você não precisa pedir licença!

Já pensou ser tratado assim por São Pedro?
Mas não precisa ser agora, viu, meu Santo?


João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Alfredo Volpi — Festa de São João, 1963.

Crônica

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