Dois pés na jaca, ao mesmo tempo, seria muita leseira

Diário de um desespero – ou quase – LXVII

João Carlos Pereira

Não foi preciso que eu inventasse esse hábito de escrever uma crônica todo dia, fosse para me manter vivo e ativo, com responsabilidade junto a um público fiel, leitores cuja face conheço, outros que sequer imagino onde estão e quem são, porque a internet possui o mundo como limite, para que tivesse noção da minha fragilidade e de como me atrapalho com um simples novelinho de lã. Por essa razão, depois de haver cometido alguns erros, criei a secção “Pé na Jaca”, com direito à logomarca e tudo mais, para dar um tiquinho de graça ao célebre “erramos” que, até onde sei, possui espaço fixo apenas na “Folha de São Paulo”.

O “erramos”, aqui rebatizado para “Pé na Jaca”, mostra que convém cultivar a humildade para, além de reconhecer o erro, corrigi-lo. Na semana passada, não apenas enfiei o pé na jaca, como o tornozelo e, olhando para o tamanho da jaca, acho que foi a metade da perna. Ainda bem que, como dizia o saudoso e muito querido Roberto Jares Martins, referindo-se aos errinhos do jornal, não estamos escrevendo nos papiros da eternidade. Aqui, minha senhora, na internet, é jogo rápido. Sujou, tem que limpar.

O erro, ainda que involuntário, passou batido para a maioria dos leitores. Apenas um se manifestou e mandou bem, com toda classe e educação que Deus e seus pais lhe deram. Quando falei do Abrahan Levy, me deixei levar pelas informações que me chegaram no tempo de ginásio e que assombravam meus dias de aluno praticamente irrecuperável em matemática, física e química. Em pesadelos, me via terminando meus dias no colégio da professora Alice Antunes.

O que nunca me disseram é que a escola, apesar de haver adotado um exame para receber alunos reprovados em escolas tradicionais, quase todos por malandragem, nunca facilitou a vida de ninguém. Um ex-professor da instituição me revelou que, em momento algum, a dona o “Abrahan Levy” pediu aos professores que fossem generosos. Como se tratava de seleção,se o candidato repetente de origem fracassasse, não passaria pela porta do prédio onde, hoje, funciona a Procuradoria Geral do Estado, em Batista Campos.

O mesmo professor, hoje afastado do magistério e dedicado ao seu escritório, uma das referências na Arquitetura local, lembra que seu pai também lecionou no “Abrahan Levy” e que jamais os docentes receberam ordem para passar a mão na cabeça dos bacanas. Ele disse que, para muitos estudantes, o chamado “Abrahan Me Leve” era, simplesmente, uma primeira opção em questão de ensino. Isso significa que o sistema não estava totalmente corrompido.

À medida em que me contava essas coisas, meu rosto se desfazia de vergonha. Para encerrar, sempre em tom cordial, suave e educado lembrou a ironia do destino. Uma escola, outrora rígida, que reprovava sem piedade, porque desejava manter seu bom nome, um dia teve de recorrer à velha prática do “Abrahan Levy” para completar as turmas que se esvaziavam.

Quando via o final de ano se aproximando e minhas chances de ficar reprovado nas três disciplinas que, até hoje, me pareciam ser ministradas em grego,aumentando, mais eu me vida perto da escola que acolhia, no meu pobre entendimento, alunos em estado terminal, como o meu.

Não sei como escapei de uma segunda época e prossegui meus estudos. Ouvi tanto desafora em casa, que não tinha coragem nem de colocar a cara na janela. Os castigos vinham em cascata. Cada vez que lembrava de uma nota baixa, minha mãe cortava algum prazer. Não é exagero dizer que ela ficou me olhando feio até acabar a maldita recuperação e eu, milagrosamente, passar de ano.

Claro que as aulas não eram em grego, mas em português. O problema é que é meus ouvidos entortavam totalmente, quando os assuntos eram números e fórmulas. Grego não é um idioma tão difícil como parece. Latim, então, é bem fácil. Quando fui à Grécia pela primeira vez, pedia à minha querida amiga Lúcia Falângola, capaz de rezar, fazer conta e brigar, se for o caso, no idioma – isso significa ter fluência total – que me ensinasse noções básicas. Anotei tudo e, quando precisava de qualquer coisa, em Atenas, recorria ao caderninho.

Na Universidade, no meu tempo de aluno, havia um grande professor de grego. Ele era diabético, coitado, e morreu depois de haver sido atropelado por uma bicicleta, porque os ferimentos não cicatrizavam. Até concluir meu curso, nenhum outro havia sido contratado para seu lugar e fiquei sem poder dizer, cheio de mim: “estou falando grego”?

Uma vez, a Lindanor Celina (sempre ela!) resolveu sair de uma depressão, mergulhando no estudo da língua de Homero. Aprendeu regras, fazia versões do português para o grego, até que se curou da tristeza. Já vivendo a felicidade plena com o terceiro marido e grande amor de sua vida, Serge Cash, foi toda pimpona para a Grécia. Desceu na capital, a caminho da ilha de Skyros, onde passou maravilhosas temporadas de férias. Certa de que sabia grego como um falante local, tratou de se exibir para um guarda e foi pedir uma informação. Como guarda na Grécia possui nível cultural bem acima da média de seus colegas europeus, ouviu uma lição que poderia tê-la mandado de volta à depressão: “minha senhora, essa língua não se fala aqui há muitos séculos. Isso é grego clássico”. Em vez de chorar, deu uma risada, agradeceu e seguiu.

Guarda de primeiro mundo é guarda de primeiro mundo e motorista em Paris, é outro nível. Fazendo temporada na cidade do meu coração, o ex-cônsul da França entre nós e grande historiador de Belém, Augusto Ebremar de Bastos Meira, chamou um táxi e, antes de entrar, se deixou ficar um minutinho, observando a beleza do céu que, naquele dia, estava excepcionalmente belo. Quando, finalmente, entrou no carro, comentou com o motorista. “Que céu lindo…” O condutor, ou “chauffeur”, como se se diz por lá, completou, de forma simples e natural:
– Sim…um céu de Cézanne.
Isso só acontece em Paris…

Sim…um céu de Cézanne.


P.S. Não posso concluir essa história, sem agradecer ao amigo Milton Meira, filho do Dr. Augusto Meira Filho, que me salvou de enfiar a perna inteira na jaca. A vida todatroquei as personagens do episódio do táxi parisiense, contando o fato como se tivesse acontecido com o engenheiro, poeta e artista plástico Ruy Meira. Ruy e Augusto eram irmãos. Obrigado, Milton. Além da tua poesia, fico a te dever esta também.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: Paul Cézanne — Baie de Marseille, vue de l’Estaque, c. 1885. Art Institute of Chicago

Crônica

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