Os fósforos coloridos, o telefone e a escadaria do sonho

Diário de um desespero – ou quase – LVIII

João Carlos Pereira

Parece que algumas coisas sumiram para sempre de nossas vidas. Catálogo telefônico foi uma. Aquilo era uma mina de ouro. Dava tanto dinheiro, que chegava de graça. Era praticamente impossível viver sem uma. Linha telefônica virou bem de família, tão caro e desejado, que podia ser alugado, entrava em testamento e era oferecido como garantia em leilões judiciais. Hoje, impensável alguém deixar um celular de herança. Só se for herança sentimental. Sumiram os fixos, despareceram as listas.

O que vale para os telefones, serve para as agendas, uma espécie de lista particular, de impressionante utilidade doméstica, preenchidas com letra caprichada. De tanto serem manuseadas, as agendas viravam “bacalhau”. Com o tempo, muitos números foram trocados e as agendas se transformavam numa confusão tão grande, que às vezes nem o dono entendia tanto rabisco, tanta alteração, até acabarem esquecidas. Uma agenda era um tesouro. Quem se apossava de uma, tinha a vida do dono na mão.

O nome e a utilidade apenas mudaram, mas continuaram os mesmos com a tecnologia avançada do celular. Graças a ele, as anotações em papel sumiram, porque tudo fica gravado na memória ou na nuvem. Por isso, hoje, ninguém sabe mais o número do telefone de ninguém. Em vez de ir à agenda de papel, é só buscar na do celular. Não é por outra razão que o povo enlouquece, quando o bicho pifa. A sensação de isolamento e de perda, diante de um aparelho apagado, chega a ser parecida com a da morte. Pior do que o distanciamento da convid-19, porque, graças ao celular, a solidão é aplacada, ao menos um pouquinho.

Muitas outras coisas evaporaram de nossos olhos, como enceradeira, vasculho de forro, espanador, saco de café, ventilador de carro, navalha, isso só para ficar na lista dos utensílios mais lembrados. Mentex e os drops coloridos, da marca Ducora, tinham delicioso gosto de cinema e de infância, porém ninguém mais os vê – pior: não prova. Agora, cinema tem sabor de exploração. Os “combos” custam o olho da cara e as pessoas compram, como se aquilo não fosse um roubo. Um pote de pipoca e um refrigerante por 50 reais? Acho que nem em Dubai é tão caro.

A relação dos “desaparecidos” é longa, cansativa e melancólica. De alguns produtos, a gente só recorda da existência em situações especiais. Fósforo é um deles. Com os fogões elétricos, ninguém naus dá pela falta dos palitos. Só na hora dos “parabéns” é que se fazem úteis. “Cadê o fósforo? Alguém tem fósforo?” Ninguém tem.

Sempre compro um pacote aqui para casa e, quando é preciso, nunca há. Não sei que fim dão aos fósforos, antigos coadjuvantes numa cozinha, mas perderam o posto para os inúteis e já obsoletos acendedores elétricos, igualmente sumidos. Não sei por que eu gostava da marca Fiat Lux e, quando apareceram os de cabo comprido, troquei os menores pelos maiores. Eram bonitos e quebravam menos. Acho que esse modelo foi criado para acender forno ou manter a fumaça distante das narinas dos fumantes. As pessoas se preocupavam com aquela fumacinha, como se fosse menos pior do que aquilo que, logo depois, tragavam.

Havia também caixas de fósforos e palitinhos de papel, tudo achatado, para não fazer volume no bolso do fumante. Eram personalizadas e se tornaram brindes criativos de empresas ou hotéis. Mais atrativos do que eles, apenas de isqueiro de ouro, com o nome do dono gravado. Pense numa coisa cafona.

Deixa estar que o fogão aqui de casa começou, em pleno isolamento, a dar sinais de cansaço na parte elétrica. Umas bocas acendem automaticamente, outras, não. A chama está boa, mas a faísca deixou de sair e dá a impressão de que o problema é o gás, quando não é. O jeito foi recorrer ao velho sistema. Como não estou saindo para nada, não sei quem comprou um pacote de fósforos com a cabeça verde. Normalmente, elas são grafite ou vermelhas, mas verde fazia tempo que não via. A azul sumiu mesmo.

Verde era uma cor muito solicitada para vários produtos, mas, no tempo da II Guerra, o governo americano precisava de toda pigmentação disponível para usar em uniformes, camuflagens, lonas e o que mais fosse necessário. Por isso até rótulos de cigarro, à base de verde, foram transformados. Agora, quando a guerra é invisível, a indústria não necessita tanto de verde e as tonalidades votaram às caixinhas de fósforo. Também há caneta com tinta verde, mas é raro achar.

Tive um colega de trabalho que, pelo menos duas vezes por mês, recebia uma carta escrita em verde por um amigo que considerava especial. Quando chegava envelope com letra nessa cor, ele abria um sorriso do tamanho da esperança. Lida a mensagem, colocava a correspondência na gaveta, passava a chave e colocava uma melancolia tão grande nos olhos, que ninguém podia adivinhar a razão. Será que promessas ou declarações em verde possuem significado maior do que em azul, vermelho ou preto?

Mal precisei de um palitinho para acender o fogão, me deparei com aquela maravilha. Na mesma hora, um gesto suspenso no ar me levou de volta à infância, quando eu me maravilhava com os contos de Andersen e dos irmãos Jacob e Wilhelm Grinn. De tudo que li, o que talvez mais tenha me mercado foi o conto da menina que vendia fósforos.

A primeira lembrança que tenho não possuía ligação alguma com a verdade da, que chegou aos ouvidos totalmente mudada. Acho que, que a leu para mim, falou apenas da menina e dos fósforos coloridos. Só mais tarde, bem mais tarde, que pude ter a dimensão da imensa tristeza daquela história, ambientada num país do leste europeu, onde o frio é a única estação que conhecem. Lá é mais frio, ou menos frio pouquinha coisa, na verdade há um frio permanente. Aqui é o contrário: vivemos no calor eterno. Na Amazônia, uma temperatura de 20 graus congelaria o povo e provocaria um surto de reumatismo e de doenças pulmonares. Lá, os nossos constantes 30 graus fritariam a pele acostumada ao gelo. Deus sempre sabe o que faz.

Foi em algum lugar, naquelas terras geladas, numa véspera de ano novo, (já li versões assinalando a data de 24 de dezembro) que uma menina loira saiu de casa para vender caixas de fósforos. Os maus presságios começaram cedo. Muito pobre, usava uns chinelos que haviam sido da mãe. Bem maiores do que seu pezinho, um se desfez, de tão velho. O outro foi perdido numa carreira que teve de dar, para escapar de ser atropelada pelo bonde. Nessa hora, um menino, tão pobre quanto a loirinha, pegou o calçado e levou para casa, onde foi transformado num berço para a boneca da irmã.

A menina era pobre, muito pobre, o que, naqueles lados do mundo, no século XIX, quando a história se passa, significava ser paupérrimo, viver muitos palmos abaixo da linha da miséria. As poucas moedas que levava para casa ajudavam no sustento da família. Quando retornava sem nada, apanhava do padrasto cruel. Aquela noite de ano novo seria muito mais verdadeira do que o habitual. Justamente nessa, não havia conseguido vender uma caixinha.

Morrendo de frio, descalça, encolheu-se numa varanda. Para tentar se aquecer, tirou do avental uma caixinha e acendeu um palito, depois outros, depois outro… Cada clarão produzia uma luz colorida, que lhe permitia sonhar com uma lareira acesa, uma sala quentinha, mesa com ganso assado numa travessa, uma árvore de natal imensa e, na última, lhe apareceu a avó, morta há anos. Para cada visão, uma cor. Quando a chama se apagava, o sonho se desfazia. Para manter a avozinha perto, acendeu, finalmente, vários fósforos ao mesmo tempo. Na manhã seguinte, seu corpinho foi encontrado congelado, com um feixe de palitos presos na mão.

As partes mais tristes da história não me foram contadas. Só vim a descobri-la muito tempo depois. Cresci na fantasia da beleza das luzes e, na minha cabeça, tratava-se de uma criança feliz. Por muito tempo, desejei ter uma caixa de fósforos que me levasse ao sonho. Mesmo adulto, ainda vivi de ilusões. Até recentemente, quando saía para caminhar no Jardim de Luxemburgo, eu emendava até as escadarias da igreja de Santa Etienne do Monte e lá me deixava ficar, sonhando com a cena do filme “Meia-Noite em Paris”, na qual o carro antigo passava e arrebatava a personagem Gil. Se passasse, duvido que não me deixaria levar para a Paris de “belle epoque”

Felicidade encaixada no sonho é uma bobagem, uma inutilidade. Ela precisa ser real. Se o carro viesse, naquela ocasião, hesitaria, mas não perderia a chance. Hoje, só sento ali para descansar. A vida real, por mais sem graça que seja, ainda é melhor do que a não vivida. Essa, pelo menos, pode melhorar e não corre o risco de estourar, como uma bolinha de sabão cristalina, multicolorida, solta no vento. Sem rumo, sem propósito, sem verdade ou convicção, sem nada.

João Carlos Pereira é jornalista, escritor, professor, membro da Academia Paraense de Letras.
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Imagem: A vendedora de fósforos — ilustração de R.T. Pritchett.

Crônica

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